![]() |
Hoje tenho o prazer de conversar com o Professor Dr. Gustavo Léon, profissional que reúne duas experiências fundamentais para o desenvolvimento do mercado de seguros: a atuação executiva e a dedicação à formação de novos profissionais. Além de exercer o cargo de Superintendente de Sinistros, Gustavo também é professor universitário de Direito e coordenador acadêmico da Escola de Negócios e Seguros (ENS), acompanhando de perto a evolução do Direito Securitário e do mercado de seguros, tanto na prática quanto no ambiente acadêmico. Nesta entrevista, vamos falar justamente sobre essa conexão entre academia e mercado: como a pesquisa e a produção científica podem contribuir para a evolução do setor, de que forma a qualificação acadêmica impacta a atuação dos profissionais e quais são os desafios e oportunidades para quem deseja conciliar uma carreira técnica com a atividade acadêmica. 1. Você sempre conciliou a atividade acadêmica com a atuação profissional? Na sua visão, de que forma uma fortalece a outra? Há benefícios concretos para quem consegue transitar entre esses dois ambientes? Sim. Ao longo da minha trajetória, sempre procurei manter a atividade acadêmica integrada à prática profissional. Entendo que essas duas dimensões não competem entre si, ao contrário, se complementam de forma muito rica. A atuação no mercado permite que o professor leve para a sala de aula problemas concretos, casos reais e discussões atuais, aproximando o ensino da realidade vivenciada pelos profissionais. A pesquisa e a docência, por sua vez, estimulam uma reflexão crítica sobre temas que, na rotina empresarial, muitas vezes acabam tratados apenas sob uma perspectiva operacional. Esse intercâmbio produz benefícios evidentes: o profissional passa a tomar decisões mais fundamentadas, desenvolve maior capacidade analítica e amplia sua visão estratégica, enquanto o ambiente acadêmico se fortalece ao produzir conhecimento conectado às necessidades efetivas da sociedade e do mercado segurador. Mais do que transmitir conhecimento, acredito que o professor também tem o papel de aprender continuamente com a prática profissional. Essa troca permanente entre teoria e realidade é o que torna o ensino mais atual, mais crítico e verdadeiramente transformador. 2. Muitos profissionais do mercado de seguros, como advogados, reguladores de sinistros, corretores e subscritores, enxergam a pós-graduação como um diferencial. Como os estudos acadêmicos podem tornar esses profissionais mais preparados para enfrentar os desafios do dia a dia? O mercado de seguros tornou-se extremamente sofisticado. Hoje não basta conhecer apenas a legislação ou os produtos securitários: é preciso compreender aspectos regulatórios, econômicos, tecnológicos, atuariais e até comportamentais. A pós-graduação proporciona justamente esse aprofundamento. Ela desenvolve a capacidade de interpretar normas complexas, analisar precedentes, construir soluções jurídicas consistentes e compreender a lógica econômica do contrato de seguro. Estimula, além disso, uma habilidade hoje muito valorizada que é a de resolver problemas complexos por meio de análise técnica e interdisciplinar, algo que faz diferença tanto para quem atua na regulação de sinistros quanto para advogados, subscritores, corretores e gestores. Mais do que um título, a formação acadêmica representa um investimento permanente na qualidade das decisões profissionais, permitindo acompanhar um mercado em constante transformação e responder com segurança aos novos desafios regulatórios e tecnológicos. 3. Na sua experiência, quais competências a pesquisa acadêmica desenvolve que fazem diferença na atuação profissional? A pesquisa científica desenvolve competências essenciais para qualquer profissional que pretenda exercer uma atuação de excelência. A primeira delas é o pensamento crítico. O pesquisador aprende a questionar respostas prontas e a buscar fundamentos consistentes para cada conclusão. Outra competência muito relevante é a capacidade de interpretar informações de forma sistemática. No mercado de seguros, lidamos com frequência com contratos complexos, grandes volumes de documentos, normas regulatórias e precedentes judiciais, e a metodologia científica fornece ferramentas para organizar essas informações e produzir decisões mais seguras. Destacaria ainda a escrita técnica, a argumentação jurídica, a capacidade de comunicação e o desenvolvimento de uma visão estratégica dos problemas, habilidades que fazem enorme diferença tanto na gestão quanto na advocacia, na regulação de sinistros e na solução consensual ou judicial de conflitos. Por fim, a pesquisa desenvolve algo cada vez mais valorizado nas organizações que é a capacidade de formular perguntas relevantes antes mesmo de buscar respostas. Em um ambiente de mudanças constantes, essa talvez seja uma das competências mais importantes para qualquer líder. 4. O Direito Securitário evoluiu muito nos últimos anos, especialmente com a promulgação da Lei do Contrato de Seguro. Qual é o papel da produção acadêmica nesse processo de evolução? Pesquisas, dissertações e teses conseguem efetivamente influenciar a jurisprudência, a legislação e as práticas do mercado? Sem dúvida. A evolução do Direito Securitário sempre esteve profundamente vinculada à produção científica. A doutrina especializada desempenhou, historicamente, papel protagonista na construção dos institutos do contrato de seguro, oferecendo fundamentos que orientaram a jurisprudência, a atividade regulatória e as práticas do mercado muito antes da edição da Lei nº 15.040/2024. A nova legislação não diminui essa relevância, ao contrário, reflete o amadurecimento de debates doutrinários consolidados ao longo de décadas, demonstrando que a pesquisa acadêmica continua sendo um dos principais motores de evolução do Direito dos Seguros. Hoje é cada vez mais comum observar decisões judiciais fundamentadas em doutrina especializada e em pesquisas produzidas nas universidades, assim como debates acadêmicos que acabam influenciando a elaboração de normas pelos órgãos reguladores e futuras alterações legislativas. A academia, portanto, não apenas acompanha a evolução do mercado, mas participa ativamente da sua construção. O desenvolvimento do Direito dos Seguros depende desse diálogo permanente entre pesquisadores, magistrados, reguladores e profissionais que vivenciam diariamente os desafios da atividade securitária. 5. Existe um diálogo suficiente entre a academia e o mercado segurador? O que ainda pode ser feito para aproximar universidades, seguradoras, corretoras, escritórios de advocacia e órgãos reguladores? Esse diálogo evoluiu significativamente nos últimos anos, mas ainda há espaço para avançar. Precisamos ampliar a realização de pesquisas aplicadas, incentivar projetos desenvolvidos em parceria com empresas, fomentar programas de inovação e aproximar os estudantes da realidade prática do mercado desde a graduação. As seguradoras também têm papel importante ao compartilhar experiências, dados estatísticos e desafios regulatórios capazes de gerar pesquisas relevantes, enquanto as universidades devem estimular estudos voltados a problemas concretos do setor, produzindo conhecimento com impacto social e econômico real. Eventos científicos, programas de educação continuada, grupos de pesquisa institucionais e fóruns permanentes de discussão são instrumentos importantes para fortalecer essa aproximação. Quanto maior essa integração, mais qualificados serão os profissionais e mais sólido será o desenvolvimento do mercado segurador brasileiro. 6. Para quem pretende seguir uma carreira acadêmica sem abrir mão da atuação profissional, qual seria o seu principal conselho? Como encontrar o equilíbrio entre pesquisa, docência e prática? Meu principal conselho é compreender que a carreira acadêmica não deve ser encarada como uma atividade paralela, mas como parte do próprio desenvolvimento profissional. É importante escolher temas de pesquisa relacionados à área de atuação, para que uma atividade alimente a outra de forma natural. Também considero fundamental manter disciplina e organização, pesquisa, produção científica e docência exigem planejamento, leitura constante e atualização permanente. Por fim, recomendo nunca perder a curiosidade intelectual. O profissional que continua estudando, pesquisando e questionando a própria prática permanece preparado para enfrentar as transformações do mercado ao longo de toda a carreira. A experiência mostra que é justamente essa integração entre conhecimento científico e vivência prática que permite formar profissionais mais completos e contribuir efetivamente para o desenvolvimento do Direito e do mercado de seguros. 7. Pensando nos próximos anos... Vivemos um momento de profundas transformações no setor de seguros, impulsionadas pela evolução tecnológica, pelas mudanças climáticas, pela crescente complexidade regulatória e pelas novas demandas da sociedade. Entre os temas que merecem maior atenção, destacaria a aplicação da inteligência artificial na subscrição, na regulação de sinistros e na prevenção de fraudes; os impactos das mudanças climáticas e dos riscos catastróficos; os seguros cibernéticos; a proteção de dados; os seguros paramétricos; a litigância predatória; e os novos modelos de distribuição digital de seguros. A agenda ASG (Ambiental, Social e Governança) também ganhará cada vez mais espaço no Direito Securitário, especialmente na precificação de riscos, na governança das seguradoras, na sustentabilidade dos negócios e no desenvolvimento de produtos voltados à transição climática e à proteção da infraestrutura. A ampliação dos mecanismos de gestão de riscos climáticos e de adaptação a eventos extremos exigirá soluções securitárias inovadoras e uma atuação cada vez mais integrada entre seguradoras, resseguradores, corretoras, reguladores e Poder Público. No campo jurídico, a Lei nº 15.040/2024 abre inúmeras oportunidades de pesquisa sobre interpretação contratual, boa-fé objetiva, deveres de informação, governança, prevenção de litígios, meios adequados de resolução de conflitos e a interação entre o contrato de seguro e as novas tecnologias. Acredito, ainda, que o futuro do Direito dos Seguros será marcado por uma interdisciplinaridade crescente. O profissional que conseguir integrar conhecimentos jurídicos, econômicos, tecnológicos, atuariais e regulatórios estará mais preparado para enfrentar os desafios de um mercado em constante transformação e para contribuir com sua evolução de forma responsável, ética e inovadora. |
(20.07.2026)
