Por Marco Pontes (*)
Ao longo da trajetória profissional, aprendemos a valorizar aspectos que apenas o tempo revela, entre eles a importância de compartilhar experiências. A mentoria, nesse contexto, torna-se um instrumento poderoso de desenvolvimento — não apenas para quem recebe orientação, mas também para quem orienta. Não à toa me engajei desde o início no programa de mentoria do IBA, idealizado pela minha colega de profissão Karina Nita.
Foi a partir de uma conversa com uma jovem estudante do curso de Ciências Atuariais que surgiu a reflexão central deste artigo. Ao ser questionado sobre quais competências são necessárias para atuar em previdência, ficou evidente que a resposta não estava apenas em listar habilidades técnicas, algo que ela poderia fazer em um piscar de olhos no google, mas em compreender como elas se manifestam, na prática, ao longo de uma carreira.
Antes de tratar das competências, é fundamental reconhecer os atributos que sustentam qualquer trajetória profissional sólida. A curiosidade é o primeiro deles: é ela que impulsiona o aprendizado contínuo e evita a estagnação. Em um ambiente cada vez mais competitivo, confiar apenas no conhecimento adquirido no passado não é suficiente. A formação universitária representa apenas o início de um processo permanente de evolução. Nesse caminho, o domínio de idiomas — especialmente o inglês e, no contexto regional, o espanhol — amplia horizontes e possibilidades. Da mesma forma, disciplina e resiliência são indispensáveis para lidar com a complexidade e a responsabilidade inerentes à profissão atuarial, que envolve decisões com impactos de longo prazo na vida das pessoas.
Entre os atributos mais relevantes estão a capacidade analítica e o senso crítico. Mais do que trabalhar com números, o atuário precisa interpretar a realidade por meio deles. Isso envolve decompor problemas, identificar padrões, conectar informações e, sobretudo, questionar premissas e avaliar a qualidade dos dados. Essa combinação desenvolve a autonomia intelectual, permitindo ao profissional construir julgamentos próprios, fundamentados e consistentes. Soma-se a isso a importância de uma formação multidisciplinar, já que a atuária dialoga diretamente com áreas como Direito, Economia, Finanças e Estatística. Quanto mais ampla for a visão do profissional, maior será sua capacidade de tomar decisões de qualidade.
Outro atributo essencial — e historicamente subestimado — é a comunicação. Traduzir conceitos complexos em linguagem acessível é o que permite que o trabalho atuarial gere impacto real. Hoje, profissionais que dominam essa habilidade possuem uma vantagem competitiva significativa, pois conseguem influenciar decisões e ampliar o alcance de suas análises. Aos jovens estudantes ou profissionais no início de carreira, recomendo fortemente entrar em um curso de teatro. Vivi essa experiência com um de meus filhos com excelentes resultados.
A evolução da atuária na previdência reflete a crescente complexidade do ambiente em que o atuário está inserido. Se, no passado, predominavam modelos mais simples e uma atuação predominantemente técnica, hoje o profissional ocupa uma posição estratégica, atuando na interseção entre matemática, finanças, regulação e políticas públicas. A previdência, por sua natureza, envolve compromissos de longo prazo baseados em promessas futuras, o que significa que o atuário opera constantemente sob incerteza. Pequenas variações em premissas como juros, longevidade ou crescimento salarial podem gerar impactos significativos ao longo do tempo, reforçando que mais importante do que calcular é saber interpretar e julgar.
Nesse contexto, o ambiente regulatório desempenha um papel central. A previdência é altamente normatizada, mas o verdadeiro desafio está em ir além da simples conformidade e compreender a essência das normas. O risco do formalismo — cumprir regras sem entendimento — pode comprometer a qualidade das avaliações. Paralelamente, as transformações estruturais, como o aumento da longevidade, a queda das taxas de juros e as mudanças no mercado de trabalho, exigem uma abordagem dinâmica de gestão de riscos, baseada em revisões contínuas e análise de cenários.
Embora compartilhem fundamentos técnicos, os diferentes segmentos da previdência apresentam desafios específicos. Nas entidades fechadas, há maior integração com o mercado financeiro, exigindo alinhamento entre ativos e passivos. Aqui reside as maiores oportunidades para atuários, face a maturidade do segmento e ao elevado nível de governança do setor.
Nos regimes próprios (RPPS), fatores políticos e orçamentários têm forte influência, o que pode limitar a implementação de recomendações técnicas. Além disso, a qualidade dos dados — especialmente nesse último segmento — representa um desafio crítico, pois modelos sofisticados não compensam informações inconsistentes. Um dos principais desafios para o atuário neste segmento é lidar com o ambiente político, pois os planos de benefícios dos entes, tem origem em Leis formuladas no âmbito da União, Estados e Municípios, isto é, por vereadores, deputados estaduais e deputados federais, que estão de passagem em cargos políticos e, exceção de raríssimas exceções, não tem preocupação de longo prazo. Eu acredito que a adoção da NBC TSP 15 pode aumentar a tecnicidade do setor trazer mais responsabilidade e fortalecer um compromisso mais efetivo do setor com a sociedade brasileira, pois a norma propicia o aumento de responsabilidade de parte dos políticos, contribuindo para dar o respaldo que o atuário necessita para fundamentar a necessidade de sustentabilidade financeira neste segmento.
A previdência complementar aberta, por sua vez, evoluiu com foco financeiro, priorizando a acumulação e a gestão de recursos. Esse movimento reduziu o espaço da atuária tradicional, mas abriu novas oportunidades para profissionais que conseguem integrar conhecimentos de finanças e tecnologia à mensuração de riscos de longo prazo.
Em meio a todos esses desafios, a dimensão ética da profissão ganha ainda mais relevância. As decisões atuariais impactam a sustentabilidade dos sistemas previdenciários, a equidade entre gerações e o equilíbrio das contas públicas. Por isso, independência técnica, responsabilidade e compromisso com o interesse coletivo são indispensáveis.
Para o estudante, ingressar nesse campo significa enfrentar uma jornada exigente, marcada pela transição da teoria para a prática, pelo convívio com a incerteza e pela necessidade de desenvolver uma visão sistêmica. No entanto, trata-se de uma área de grande relevância social e estratégica.
Em última análise, o diferencial de um atuário não está apenas no domínio técnico — hoje amplamente acessível —, mas na capacidade de integrar conhecimentos, interpretar cenários complexos e transformar experiência em julgamento qualificado. É nessa combinação entre competência e vivência que se constrói, ao longo do tempo, um profissional verdadeiramente diferenciado que é o que penso a jovem e corajosa atuária que questionou, certamente deseja ser.
Eu queria aproveitar a oportunidade para convidar os jovens estudantes dos cursos de Ciências Atuariais espalhados pelo Brasil para se filiarem ao Instituto Brasileiro de Atuária (IBA) – a Casa dos Atuários na condição de EIBA.
Ter o vínculo formal com o IBA faz com que o aluno passe a ter uma identificação institucional com a carreira atuarial, antes de se formar, passando a usufruir de uma série de benefícios, tais como: acompanhar os eventos, palestras e conteúdos técnicos produzidos pelo IBA, ter uma proximidade real com o mercado atuarial por meio da participação na condição de ouvintes nos comitês técnicos e se familiarizar com normas, ética e práticas de profissão e criar desde cedo um marco inicial de carreira dentro da atuária. Visite o site do IBA (www.atuarios.org.br) para saber como proceder. Até breve!
(*) Marco Pontes é membro do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA), membro do Comitê de Padrões Atuariais da International Actuarial Association, membro do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e sócio fundador da LGP Soluções Atuariais Ltda.
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(04.05.2026)