Por Gloria Faria
Os anos 1950 foram decisivos no desenvolvimento da indústria eletrodoméstica e, emblemáticos no approach publicitário dos seus produtos. Para o desespero – e, o razoável, desprezo - das feministas, a máquina de lavar roupas foi apresentada como a “redentora” das donas de casa. Assim como dizem que o cão é o maior amigo do homem – para Vinicius de Moraes era o whisky, o cão engarrafado - anunciava-se a máquina de lavar como a melhor amiga da mulher. Se os fabricantes e agências publicitárias se dirigissem hoje às mulheres como o faziam na propaganda veiculada àquela época, certamente seriam acionados por danos e assédio morais. Provavelmente surgiria até mesmo um movimento de boicote ao produto.
Os tempos mudaram, os homens e as mulheres mudaram e os eletrodomésticos também. As tarefas domésticas, antes presumidamente de responsabilidade feminina, são compartilhadas por todos os membros do núcleo familiar e, assumidas no todo, pelo grande contingente de homens e mulheres que vivem sós. A tecnologia bateu na porta e a inteligência artificial invadiu os lares contemporâneos para trazer mais conforto e independência, democraticamente superando qualquer questão de gênero.
Sistemas pré-programados ou controlados à distância que acionam portas de garagem, climatização, iluminação, TVs e outros aparelhos já deixaram de ser novidade. Até mesmo robôs de limpeza já são vendidos pela web por preços acessíveis.
Na cozinha em que geladeiras, liquidificadores e batedeiras foram pioneiros e onde nossos avôs e pais somente pisavam para pegar um copo d’áqua ou perguntar a que horas sairia o jantar, o ambiente encheu-se de atrativos. Máquinas que preparam o pão quentinho do café da manhã, cafeteiras sofisticadas, batedeiras com múltiplas funções e, até mesmo, robôs que cozinham mais de um prato simultaneamente, aprontando uma refeição completa de uma só vez, transformam qualquer mortal em um (quase) chef. Mulheres, homens e até crianças já podem preparar suas próprias refeições mais fácil e mais rapidamente.
A tecnologia democratizou as tarefas domésticas. O fato dos espaços cotidianos terem perdido o rótulo de femininos ou masculinos é, certamente, um avanço a ser comemorado. Resta agora que os salários pagos a homens e mulheres se equiparem para que o acesso (financeiro) também se torne igualitário. Torço muito para que esse 8 de março com contracheques indiscriminados chegue logo e nessa data então passe a se comemorar o dia de Todos em Todos os lugares!!!
(08.03.2018)