Por Jose Marco Tayah
A IA já diagnostica pacientes. E a ciência acaba de confessar que não sabe medi-la. Sem régua científica, não há parâmetro pericial - e o erro algorítmico será julgado sem metro
A cena ainda não aconteceu, mas está a caminho de qualquer vara cível do país. Uma paciente morre meses depois de um diagnóstico tardio. O médico que a atendeu havia consultado, como tantos já consultam, um sistema de inteligência artificial que classificou o quadro como de baixo risco. Na audiência, o juiz dirige ao perito a pergunta inevitável: esse sistema era confiável? O perito hesita. E hesita porque a resposta honesta, a única que a ciência hoje autoriza, é desconcertante: ninguém sabe medir.
Não sou eu quem o afirma. Em 27 de julho de 2026, a Nature Medicine, um dos periódicos médicos mais influentes do mundo, publicou um ensaio coletivo com título que parece ficção científica e conteúdo que interessa diretamente ao direito: "Toward a test of medical AI superintelligence", rumo a um teste de superinteligência médica. Mais de trinta autores, de Stanford e Harvard a cientistas das próprias empresas que desenvolvem os sistemas, entre elas Google, OpenAI e Anthropic, sustentam em conjunto que faltam à comunidade científica critérios rigorosos para definir e medir a chamada superinteligência médica, e que os testes hoje usados para avaliar a inteligência artificial na medicina são enganosos e insuficientes.
Fonte: Migalhas, em 20.08.2026