Por Alexandre Sammogini

Em um cenário global marcado pela instabilidade e o mercado doméstico impactado pela disputa eleitoral, os gestores apontaram diversas estratégias tanto para a geração de alpha quanto para a proteção dos ativos. O tema foi debatido no painel sobre “Estratégias de Renda Fixa e Variável: Proteção de Carteira e Geração de Alpha para as EFPC em 2026” que aconteceu no segundo e último dia do 15º Seminário de Investimentos nas EFPC em São Paulo.
Roberto Belchior, Sócio da Tarpon, disse que há um ano, poucas pessoas poderiam prever o enorme salto na valorização do Ibovespa a partir do segundo semestre de 2025. A valorização foi impulsionada basicamente pela entrada massiva de recursos de investidores estrangeiros – cerca de R$ 200 bilhões nos últimos meses. Já o investidor institucional doméstico tomou o caminho contrário, resgatando cerca de R$ 100 bilhões da Bolsa doméstica desde 2024.
O gestor aponta que o Brasil talvez seja o principal vencedor na estrutura global de longo prazo entre os mercados globais. Ele prevê um novo ciclo de ouro para o mercado de renda variável brasileiro, a exemplo do que aconteceu entre 2002 e 2008. Como a valorização ficou concentrada entre as ações mais líquidas da Bolsa, que foram alvo dos investimentos estrangeiros, Belchior aposta agora na valorização das small caps, que estão preço underperformance – 20% em relação ao Ibovespa. “É um momento de oportunidade que não víamos há muito tempo”, disse.
O gestor da Tarpon enxerga oportunidades em diversas companhias menos líquidas e menores, que é a estratégia mais adotada pela asset nos últimos anos. “Procuramos nos aproveitar das assimetrias, identificando quais são os poucos e bons grupos de empresas para comprar participações de longo prazo”, explicou. Ele traça um período de “vento a favor” para o Brasil nos próximos 10 ou 20 anos.
Aposta em dividendos – Roberto Chagas, Head de Renda Variável da Santander Asset, apresentou levantamento que mostra que a classe de ações de dividendos bate todas as outras em diferentes janelas de tempo. Ele esclareceu que não é a única classe que bate o CDI, mas que apresenta desempenho consistente no médio e longo prazos.
Para quem tem apetite em renda variável, ele recomenda que é importante carregar a classe de dividendos. É uma classe menos emocionante que as demais, com empresas mais maduras, que já são vencedoras em seus setores. Não apresentam, em geral, forte crescimento ou valorização, mas a vantagem é que são mais previsíveis e menos voláteis. “A previsibilidade vale muito dinheiro”, disse.
Chagas indicou a importância do reinvestimento dos dividendos. A disciplina de reinvestir dividendos gera riqueza de longo prazo, pois traz em média três quartos do retorno. A valorização traz apenas um quarto do retorno. As aplicações em ações de dividendos trazem mais retorno com menor risco.
Gestão ativa – Com uma análise distinta de outros gestores do painel, Getúlio Ost, Head de Renda Fixa e MM da SulAmérica Investimentos, concentrou-se no cenário atual e destacou que as movimentações de mercado dos últimos dois meses reforçam a importância da gestão ativa. Ele indicou a importância da gestão ativa para suprir a necessidade de agilidade para navegar nesse cenário, sem perder de vista tendências estruturais e oportunidades que permanecem no radar dos investidores.
“Falando sobre o conflito no Irã sob a ótica de construção de portfólio, é preciso ter uma visão mais agnóstica sobre quando esse conflito vai terminar. Acho que ninguém esperava uma duração tão longa. Os incentivos pareciam muito maiores para uma solução rápida, o que não aconteceu, e isso continua reverberando nos preços dos ativos”, afirmou.
Segundo ele, as curvas de petróleo passaram a ser uma informação relevante para o mercado, incorporada às projeções e à busca por assimetrias nos ativos com melhores oportunidades. Ainda que o conflito termine em breve, os impactos tendem a ser duradouros.
Getúlio Ost ressaltou ainda que a gestão ativa foi fortemente testada nos últimos seis anos, citando episódios como a pandemia e outros conflitos geopolíticos. “As pessoas passaram a se preocupar muito mais com recursos naturais, energia, estoques e com a forma como a logística funciona. Tudo isso precisa ser incorporado aos portfólios”, disse.
Ele também observou que, apesar do contexto de guerra, o ouro registrou desvalorização, contrariando o movimento tradicional de proteção buscado pelos investidores em momentos de conflito. “Por isso, a construção de portfólio também precisa considerar estratégias de redução de risco, para evitar perdas permanentes de capital”, concluiu.
Renda fixa – O painel analisou também as estratégias de gestão na renda fixa com a participação de Andrés Kikuchi, Diretor Executivo e de Investimentos da Nu Asset, que indicou que o ponto-chave é a diferença de posicionamento entre o pré-fixado e o IPCA. O posicionamento mais adequado nestes segmentos, com a avaliação dos preços das curvas de juros, pode trazer retornos diferenciados. O crucial é avaliar se a curva de juros está cara ou está barata. Ficar apenas passivo em IPCA pode ser uma postura bastante corrosiva ao perder a captura de prêmios.
Ele explicou o processo de decomposição de fatores, com dados e análises que podem levar a uma maior clareza na prospecção de oportunidades. É um processo que exige disciplina para capturar os melhores prêmios dos ativos de renda fixa.
A moderação do painel ficou a cargo de Hermano de Souza Neto, Coordenador Titular da Comissão Técnica Sudoeste de Investimentos da Abrapp, que reforçou o entendimento que há a necessidade de uma análise de ativos mais complexa, não apenas de retorno, mas de forma integral, para se posicionar diante do cenário político e econômico global que também é mais complexo e imprevisível.
O 15º Seminário de Investimentos nas EFPC é uma realização da Abrapp com o apoio institucional da UniAbrapp, Sindapp, ICSS e Conecta. Patrocínio Black: Alaska Asset Management, XP Investimentos. Patrocínio Ouro: ASA, BNP Paribas Asset Management, Bradesco Asset Management, BTG Pactual Asset Management, Fram Capital, Galapagos Capital, Investira, Itajubá Investimentos, Itaú Asset, JGP, Santander Asset Management, Sparta, Spectra Investments, SulAmérica Investimentos, Tarpon, Vinci Compass. Patrocínio Prata: 4UM Investimentos, BB Asset Management, Porto Asset, Teva Índices. Patrocínio Bronze: Aditus, ARX Investimentos, AZ Quest, Consepro, Constância Investimentos, Banco Daycoval, Xtrackers by DWS, Franklin Templeton, Icatu Vanguarda, Investo, MarketAxess, Multifonds, Opportunity, Polo Capital, Principal Asset Management, Quantum Finance, Safra, Tivio Capital, V8 Capital. Apoio: IAP, MAG Investimentos, Navi, Pátria, RJI Investimentos, Turim.
Fonte: Abrapp em Foco, em 08.05.2026.