Por Alexandre Sammogini

Após os eventos dos últimos anos que afetaram o mercado de crédito privado, as entidades fechadas estão cautelosas com esse tipo de ativo. Se há 10 anos, ou seja, em 2016, a alocação em dívida corporativa representava 3% do patrimônio total do setor, atualmente concentram apenas 0,7% das reservas, mostrou Admilson Stodulski, Coordenador Suplente da Comissão Técnica Sul de Investimentos da Abrapp, na abertura do painel “Crédito Privado em 2026: Prêmios, Riscos e Aprendizados dos Últimos Eventos”. A apresentação aconteceu nesta quarta-feira (06/05) durante o 15º Seminário de Investimentos nas EFPC em São Paulo.
Atuando como moderador do painel, Stodulski comentou que as entidades passaram por um profundo aprendizado com os eventos do mercado de crédito nos últimos anos. “Tivemos de revisar os critérios de avaliação de risco das empresas que sofreram impactos nos prêmios. A boa notícia é que passamos ao largo do evento do Banco Master, o que indica maturidade do segmento”, disse. Ele se referiu à ausência de investimentos das entidades fechadas em papéis do Master, diferente do que aconteceu com outros tipos de investidores que apresentavam exposição aos ativos do banco que está em liquidação.
Alexandre Muller, CIO da JGP Crédito, analisou os eventos do mercado de dívida de 2023, que envolveram as Americanas e a Light, que provocaram um impacto negativo de 3,63% nos retornos do segmento. Já os eventos de 2025, que envolveram Ambipar, Pão de Açúcar e Raizen, impactaram negativamente em apenas 0,6% a rentabilidade do segmento. Ele avaliou que o impacto muito menor dos eventos do ano passado indicam que o mercado estava mais amadurecido, com uma diversificação muito maior das carteiras.
O gestor da JGP mostrou o retorno do mercado de crédito ao longo dos últimos nove anos, mostrando a evolução do índice IDEX CDI (criado e mantido pela própria JGP). O mercado de ativos de crédito teve retorno médio de CDI mais 1,04% ao ano no período. O retorno seria maior, em torno de CDI mais 1,5%, se não fossem os eventos mencionados acima. Em todo caso, o segmento registrou rentabilidade sempre positiva ao longo dos anos, acima do CDI, do índice de small caps e do IMA-B.
Horizontes mais longos – Ulisses Nehmi, CEO da Sparta Investimentos, apontou para a importância de olhar para horizontes de maior prazo em momentos de dificuldade como o que é enfrentado no cenário atual. Com cenário de juros ainda altos, spreads amassados e riscos mais altos, o gestor destacou a importância de manter a cautela para não incorrer em erros que possam comprometer o desempenho futuro das carteiras.
“Não devemos olhar apenas os horizontes de curto prazo. O retorno recente pode enganar. E errar pode custar muito caro”, disse Ulisses. Ele alertou que é importante buscar consistência com a adoção de uma postura mais cautelosa, capaz de trazer maiores retornos no longo prazo”, recomendou. Ele disse inclusive que o cenário atual aponta para a redução do risco e da exposição ao crédito privado. E que o mais importante é estar preparado para aumentar a exposição quando aparecem as melhores oportunidades.
Crédito estruturado – Eduardo Telles, Head de Gestão de Crédito High Yield na Bradesco Asset Management, analisou a evolução e as oportunidades do segmento de FIDCs e títulos securitizados. “É um segmento com pouca volatilidade e pouca correlação com ativos de risco. Os FIDCs e debêntures financeiras são veículos muito flexíveis, tanto para investimentos com risco bastante controlado quanto mais arrojados”, disse.
Apesar das boas oportunidades de retorno do segmento, nem tudo são flores. O gestor do Bradesco apontou e analisou cases negativos com os FIDCs, como aqueles que ocorreram com a Empírica e Captalys, que foram mais noticiados na mídia. E citou ainda outros que não foram muito noticiados, mas que apresentaram dificuldades para os gestores e investidores.
O gestor da Bradesco Asset disse ainda que vislumbra oportunidades no segmento de pequenas empresas, que apresentam níveis de inadimplência estáveis. Diferente de outros gestores que apostam nas grandes empresas, com maior capacidade de repasse de preços e de pagamento das dívidas, Eduardo Telles acredita na resiliência das empresas de menor porte. Por outro lado, ele não apontou boas perspectivas para o agronegócio e nem para os setores que dependem do endividamento das pessoas físicas.
O 15º Seminário de Investimentos nas EFPC é uma realização da Abrapp com o apoio institucional da UniAbrapp, Sindapp, ICSS e Conecta. Patrocínio Black: Alaska Asset Management, XP Investimentos. Patrocínio Ouro: ASA, BNP Paribas Asset Management, Bradesco Asset Management, BTG Pactual Asset Management, Fram Capital, Galapagos Capital, Investira, Itajubá Investimentos, Itaú Asset, JGP, Santander Asset Management, Sparta, Spectra Investments, SulAmérica Investimentos, Tarpon, Vinci Compass. Patrocínio Prata: 4UM Investimentos, BB Asset Management, Porto Asset, Teva Índices. Patrocínio Bronze: Aditus, ARX Investimentos, AZ Quest, Consepro, Constância Investimentos, Banco Daycoval, Xtrackers by DWS, Franklin Templeton, Icatu Vanguarda, Investo, MarketAxess, Multifonds, Opportunity, Polo Capital, Principal Asset Management, Quantum Finance, Safra, Tivio Capital, V8 Capital. Apoio: IAP, MAG Investimentos, Navi, Pátria, RJI Investimentos, Turim.
Fonte: Abrapp em Foco, em 06.05.2026.