O avanço dos crimes cibernéticos na Espanha
Ao se tornar uma das economias mais digitalizadas da Europa e de forte exposição internacional, a Espanha colocou-se também no radar dos crimes cibernéticos. Pesquisas recentes revelam que o país ibérico é o quinto mais afetado pelos ataques digitais. No ano passado, cerca de 5,4% dos clientes afetados por ataques no continente residiam na Espanha (relatório Microsoft Digital Defence).
Na lista de ataques por ransomware (2025), a Espanha é o sexto mais atingido no planeta, com 164 ataques registrados no ano, crescimento de 7,6%.
Seguros cibernéticos se expandem para indivíduos e famílias
Em consequência desse quadro agudo, as seguradoras começaram a ampliar a oferta de proteção não só mais para empresas, mas também para pessoas físicas.
Os pacotes oferecem, entre as coberturas mais comuns para indivíduos/famílias, proteção contra fraudes digitais (roubo de identidade, fraudes bancárias, phishing, golpes via e-mail/WhatsApp); assistência técnica (suporte para remoção de malware); recuperação de dados e arquivos; assistência remota 24h.
Há também cobertura jurídica, proteção de reputação digital, indenizações por perdas financeiras e por despesas com especialistas em cibersegurança.
Mudança no perfil dos ataques: dados se tornam o principal alvo
Especialistas constatam que houve mudança no perfil dos ataques, com 97% deles envolvendo credenciais (login/senhas), destacando-se ainda o uso crescente de IA generativa para sofisticar fraudes. Resultado: o roubo de dados tornou-se a principal motivação das quadrilhas, já que cerca de 80% dos incidentes estão ligados à extração de dados para fins financeiros.
A participação de grupos seguradores de grande porte é um indicativo da oferta firme de proteção para famílias e indivíduos. Esses seguros contra crimes cibernéticos no mercado espanhol são vendidos como produtos independentes ou acoplados a modalidades tradicionais, principalmente o seguro residencial.
Turismo, Wi-Fi público e PMEs ampliam vulnerabilidades
Além da forte digitalização, a Espanha é território de crimes cibernéticos porque tem um forte setor de turismo - Barcelona e Madrid são cidades mais visitadas do mundo - gerando milhões de transações com estrangeiros; uso intenso de Wi-Fi público; reservas online (hotéis, passagens, eventos), tornando-se assim um terreno fértil para golpes em reservas falsas, clonagem de cartões, ataques a turistas.
Outro facilitador refere-se ao fato de a economia da Espanha ser dominada por pequenas e médias empresas. Isso porque as PMEs efetuam menores investimentos em cibersegurança; têm baixa maturidade digital em proteção e pouca capacidade de resposta a incidentes. Logo, se tornam mais fácil de terem os sistemas invadidos e menor percepção de reagir a ataques mais sofisticados.
Brasil: riscos cibernéticos crescem, mas oferta ainda é limitada
No Brasil, os riscos cibernéticos também ganham escala. Com mais pessoas e empresas conectadas, aumentam também as vulnerabilidades a ataques virtuais, que podem gerar prejuízos financeiros, danos à reputação e exposição de dados sensíveis. Algumas seguradoras atuam no Brasil com coberturas cibernéticas parciais para pessoa física, geralmente embutidas em outros produtos. Mas a oferta é ainda bastante restrita.
🤖 Inteligência Artificial transforma o setor segurador
Esse cenário de avanço dos riscos digitais se conecta diretamente a outro movimento estrutural em curso no setor: a rápida incorporação da inteligência artificial (IA) às operações do mercado segurador no Brasil, que está redesenhando processos, ampliando riscos e exigindo uma resposta mais estratégica das empresas, concorda a presidente da Comissão de Inteligência de Mercado (CIM), Ana Paula Schmeiske.
Em meio a esse cenário de transformação, o setor deve ir além da adaptação tecnológica e assumir um papel ativo na construção de um modelo mais ético, transparente e sustentável, acrescenta ela.
O papel estratégico da IA segundo o setor
Para Ana Paula, o avanço da IA não deve ser encarado como uma ruptura negativa, mas como uma oportunidade de evolução estrutural:
“A Inteligência Artificial redefine operações, cria riscos e amplia nossa responsabilidade enquanto setor. Mais do que buscar respostas prontas, este é o momento de fazer novas perguntas: corajosas, estratégicas e profundas. A velocidade da inovação ultrapassa estruturas tradicionais, mas isso não é uma ameaça: é um convite para repensar modelos, fortalecer governança e construir soluções mais humanas, colaborativas e preparadas para o futuro. A IA é um espelho das escolhas que fazemos; quando tecnologia, estratégia e responsabilidade caminham juntas, transformamos complexidade em oportunidade e criamos bases sólidas para um mercado mais resiliente, transparente e moderno.”
Novas competências e revisão de modelos
A reflexão ganha ainda mais relevância diante da crescente sofisticação dos sistemas inteligentes, que desafiam modelos tradicionais de precificação, subscrição e gestão de riscos. Segundo a executiva, esse contexto impõe uma revisão não apenas de produtos, mas também das competências profissionais no setor.
“À medida que reconhecemos que as apólices atuais não foram concebidas para a complexidade dos sistemas inteligentes, torna-se evidente que também precisamos evoluir em competências — pensamento crítico ampliado, fluência digital, interpretação de modelos e discernimento ético para avaliar impactos e garantir o uso responsável da tecnologia. O futuro do seguro será ainda mais promissor quando integrar inovação, regulação e gestão de riscos com uma ética robusta, colocando transparência e governança no centro das decisões. Ao combinar tecnologia e habilidades humanas - como julgamento, empatia e capacidade de decisão orientada por valores - criamos soluções mais precisas, ampliamos a proteção e fortalecemos a confiança necessária para que o avanço da IA ocorra com responsabilidade e benefício real para a sociedade.”
O futuro: integração entre tecnologia, ética e proteção
Nesse contexto, a combinação entre inteligência humana e tecnologia surge como um dos principais pilares para o fortalecimento do setor. A aposta é que, ao equilibrar inovação com responsabilidade, o mercado segurador não apenas mitigue riscos emergentes, mas também amplie sua relevância em uma economia cada vez mais digital e orientada por dados.
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Fonte: CNseg, em 06.04.2026