Após invasão ao Museu Renoir no sul da França e a subtração de quadros milionários do mestre impressionista, especialistas da Alper Seguros e da Enchanter revelam os bastidores da engenharia de proteção 'prego a prego', a precificação de acervos e o que acontece após o crime
O audacioso roubo ocorrido nesta terça-feira (8) no Museu Renoir, no sul da França — no qual criminosos levaram pinturas do mestre impressionista Pierre-Auguste Renoir avaliadas em 9 milhões de euros (cerca de R$ 53 milhões) —, voltou a colocar a vulnerabilidade e a segurança de acervos históricos em alerta máximo no mundo todo. Eventos como este, somados às recentes operações policiais que recuperaram obras de Cézanne e Matisse em Parma e em São Paulo, além do ícone roubo de joias no Museu do Louvre acendem um debate crucial: afinal, após o impacto de um grande assalto, como funciona a complexa engenharia de proteção e seguro para salvaguardar o patrimônio considerado inestimável?
Diferente de um seguro residencial ou de automóveis, o seguro de obras de arte é uma operação de alta precisão que mistura perícia técnica, análise de risco e investigação internacional. Informações colhidas por meio da parceria da Alper Seguros com a Enchanter — empresa especialista fundada por Priscilla Magni e Beatriz Americano — revelam que a proteção começa muito antes da obra ser pendurada na parede.
Desafio do valor: como precificar o que não tem preço?
O maior desafio para as seguradoras é a subjetividade. Quando uma obra nunca foi a leilão ou é uma peça permanente de um grande museu, o mercado utiliza o chamado "Círculo de Influência".
“A precificação segue critérios de valoração por especialistas, já que não existe um 'preço de prateleira'. Analisamos vendas recentes de obras do mesmo artista, período e técnica. Se o artista nunca vendeu, buscamos o Benchmark. O fato de uma obra estar em um grande museu já agrega valor histórico que valida sua importância”, explica a co-fundadora da Enchanter, Priscilla Magni.
Segurança de elite: o segredo do "Prego a Prego"
Para que uma galeria ou colecionador consiga uma apólice, as exigências são rigorosas. Não basta um alarme comum; é necessário monitoramento 24h com redundância, CFTV de alta resolução e sistemas de combate a incêndio que não utilizem água para não danificar o acervo.
As apólices costumam ser do tipo All Risks, cobrindo desde o “furto qualificado” até danos acidentais durante o transporte — o chamado seguro "prego a prego", que protege a peça desde o momento em que sai da parede de origem até a fixação no destino.
Roubaram. E agora?
Ao contrário do que mostram os filmes de Hollywood, o primeiro passo da seguradora após um roubo não é apenas pagar a conta, mas tornar a obra “invendável”.
“O primeiro passo crucial é o Alerta de Mercado e Contenção de Danos. Registramos o roubo em bases globais para travar qualquer tentativa de comercialização. Trabalhamos com investigadores especializados, verdadeiros 'detetives de arte', para rastrear rotas de escoamento”, afirma a sócia da Enchanter.
E se a obra for recuperada tempos depois — como no recente caso em Parma e SP? Segundo Priscilla, em casos de peças particulares, após o pagamento da indenização, a obra passa a pertencer à seguradora. Contudo, é oferecido ao colecionador o "Direito de Recompra", permitindo que ele devolva o valor indenizado e recupere o item, preservando o valor afetivo do acervo.
Inimigo oculto
Embora os roubos efetuados por grandes quadrilhas ganhem as manchetes mundiais, Priscilla alerta que o verdadeiro inimigo da arte costuma ser silencioso e diário. Danos por manuseio indevido, umidade e pragas são os riscos mais frequentes no mercado.
“Danos durante o transporte são o risco número um. Para que o cliente fique tranquilo, é vital ser assessorado por especialistas que avaliem desde a climatização até os prestadores de serviço de limpeza. O seguro é um contrato de boa-fé: se a informação sobre a segurança não for fidedigna, a indenização pode ser perdida por agravamento de risco”, concluem as especialistas.
Fonte: Loures, em 09.09.2026