LR Assessoria e Consultoria
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Assizio Oliveira |
As crises econômicas que de tempos em tempos nos assombram decorrem sempre de fatores provocados pelas fraquezas dos seres humanos que comandam empresas, instituições e governos. Dentre elas se destaca a ganância, que, sob os mais variados pretextos, da garantia do retorno do investidor ao bem-estar social, faz com que se cometam irracionalidades como aumentar receitas artificialmente, celebrar contratos e vendas fictícias, supervalorizar ativos, registrar despesas como investimentos, criar bônus estratosféricos, emitir títulos frios, realizar transações irregularidades, criar reservas falsas, misturar conflitos de interesses etc.
O mundo, refém das fraquezas humanas, bem que tenta diminuir a possibilidade de novas crises ou, pelo menos, reduzir os seus efeitos. Daí as iniciativas de G 7, G 20, OCDE, Fórum de Davos, União Europeia e Mercosul. Deles nascem regulações globais como Basileia e Solvência e regras mundiais de combate à corrupção e à lavagem de dinheiro e de atenção aos riscos. Dessas, derivam iniciativas como os modelos de controle interno, de compliance e de gestão de riscos, que, por fim, desembocam em legislações e regulamentos locais para obrigar a observância de regras voltadas à governança corporativa, ao ambiente de controle, à transparência, ao combate à corrupção, ao reforço de capital, no mais das vezes acompanhadas de sanções cada vez mais severas para empresas e administradores. Não à toa, o regulador brasileiro de seguros, de uns anos para cá, produziu regras para obrigar a implantação de um sistema de controle interno, de prevenção de fraudes e de lavagem de dinheiro, de uma estrutura de gestão de riscos, de um novo modelo de formação de capital e reservas e de novas exigências para a constituição de empresas e nomeação de administradores. E vem mais aí...
Ocorre que só isso não basta para evitar novas crises porque, como já disse John Gray, “o ser humano é único na capacidade de expandir o conhecimento em ritmo acelerado, mas, ao mesmo tempo, é incapaz de aprender com a própria experiência”. A esse filósofo britânico se poderia juntar o economista, diplomata e político brasileiro Roberto Campos, que dizia que “não é a lei que precisa ser forte, é a carne que não pode ser fraca”. Donde se deduz que a última crise é logo esquecida quando algum “gênio” da humanidade, sem noção de sustentabilidade empresarial e de valores humanos, engendra um negócio pioneiro com a promessa de lucro rápido e fácil que, em pouco tempo, acaba com as economias de países, investidores e consumidores. No fluxo natural da lei da ação e reação, a dureza da lei se exacerba para tentar mitigar a possibilidade de o dano voltar a ocorrer. É a corrida atrás do rabo.
Forçoso reconhecer que esse círculo vicioso só se encerrará com o resgate e a valorização de questões humanas como princípios pessoais, responsabilidade social, consciência ética e obediência a regras, sem o que os valores empresariais, estabelecidos e divulgados com pompa e circunstância, não passam de propaganda enganosa. É necessário voltar a estudar a Ética e compreender as questões da Ética Geral, da Moral e do Direito, aplicar a Ética não só na profissão, mas na Vida, seguir uma ordem de conduta, valorizar a evolução harmônica do trabalho de todos e buscar sempre o coletivo, em detrimento do individualismo.
É bastante provável que nenhum curso técnico dos dias de hoje possibilita essa revolução interna, motivo pelo qual é necessário recorrer a recursos do chamado autoconhecimento, para domar a personalidade já formada, controlar os egos e despertar a consciência. Nessa linha, há que se resgatar os fundamentos da Filosofia para incentivar cada ser humano a conhecer a si mesmo, o que significa ter a si próprio como objeto de investigação crítica e objetiva. Quem se habilita?
Nenhum sistema sofisticado e caro de governança, controle, compliance, gestão de riscos e de anticorrupção funcionará se o ser humano que finge criá-lo, adotá-lo e segui-lo continuar sem controle de suas características de personalidade, não se libertar de conceitos e preconceitos estabelecidos, não praticar o desapego, não deixar de ser inconsciente e continuar se achando o “rei da cocada”. Portanto, bom trabalho individual a cada um de nós.
Fonte: Artigo publicado originalmente na revista Opinião.Seg nº 12 - Agosto de 2016.
