Três em cada dez entrevistados consideram esse o principal problema do Open Finance, mas desafio pode estar na transformação dos dados em valor
A qualidade dos dados disponíveis no Open Finance é vista como o principal problema dessa iniciativa para 30% dos entrevistados na nova edição do estudo OpenTalks realizado pela EY. No entanto, de acordo com o Dashboard do Cidadão, do Open Finance Brasil, nenhum participante reportou ter recebido dados inconsistentes nos últimos 12 meses. Algumas hipóteses foram formuladas pela pesquisa da EY depois da realização das entrevistas.
A primeira delas é que talvez o problema não seja a qualidade dos dados, mas a baixa capacidade dos participantes de transformar esses dados em valor. Ou ainda talvez essa baixa qualidade de dados exista de fato, mas ficou latente por quase cinco anos pela demora dos participantes em trabalhar esses dados. O estudo também levantou uma terceira hipótese: a de que os dados têm realmente baixa qualidade, o que está sendo percebido, mas não há um monitoramento eficiente para combater esse problema.
Esse cenário se conecta ao segundo desafio mais citado na pesquisa: o monitoramento ineficiente, que foi mencionado por 25% dos respondentes. "Após quatro anos de operação do Open Finance, ainda há carência de mecanismos ágeis e transparentes que permitam rastrear, corrigir e reportar falhas de forma automatizada e integrada", diz Chen Wei Chi, sócio de transformação digital e inovação para serviços financeiros da EY. O resultado, ainda segundo o executivo, é um ambiente onde problemas são sentidos, mas não necessariamente diagnosticados com precisão, o que compromete a confiança entre os participantes e a velocidade de resposta do ecossistema.
Outro fator que vem sendo cada vez mais debatido é o ritmo das mudanças. Quando questionadas sobre qual seria o principal pedido ao presidente do Banco Central, 38% das instituições financeiras entrevistadas afirmaram que pediriam a desaceleração da agenda regulatória. A velocidade da evolução técnica tem sido intensa: uma análise feita pela EY no changelog das APIs do ecossistema mostra que, desde a primeira publicação, uma nova especificação é lançada a cada cinco dias.
“Em um ambiente que exige alta coordenação técnica e conformidade regulatória, esse ritmo desafia a capacidade de implementação dos times de tecnologia, negócios e compliance, principalmente pela concorrência de outras agendas regulatórias paralelas”, observa Chen.
Maior do mundo
Inspirado no Open Banking lançado em 2018 no Reino Unido, o Open Finance brasileiro já é o maior ecossistema regulado de compartilhamento de dados financeiros do mundo, com mais de 55 milhões de usuários conectados em apenas quatro anos de operação, ou seja, quase quatro vezes o volume do Open Banking UK (14,6 milhões). Só nos últimos 12 meses, o ecossistema brasileiro cresceu quase sete vezes mais rápido do que o britânico, com dois milhões de novos usuários por mês.
Apesar do avanço, quase dois terços dos bancos ainda não percebem retorno significativo, e menos de 15% dos investidores e 3% das empresas utilizam o Open Finance. Também há lacunas de inclusão: cerca de 8 milhões de brasileiros têm contas em bancos e fintechs fora do ecossistema, o que representa 220 milhões de relacionamentos financeiros invisíveis.
Fonte: Agência EY, em 28.01.2026.