Organização elencou seis iniciativas para proteger os investidores, manter a concorrência leal e mitigar os riscos sistêmicos do mercado
A Iosco, organização que reúne reguladores de mercado de capitais do mundo todo, divulgou suas prioridades para 2020. Dos seis temas, um é inédito: o debate sobre dívida corporativa e empréstimos alavancados.
+ Confira a agenda da Iosco 2020
Com as baixas nas taxas de juros no mundo, os emissores captaram mais no mercado de capitais e os investidores buscaram produtos com maior rentabilidade, assumindo mais risco. A Iosco está preocupada com uma possível piora na qualidade das emissões, o maior endividamento das companhias e a exposição ao risco dos clientes do varejo com investimentos que não sejam adequados para seus perfis. O desafio é identificar se há má conduta dos profissionais do mercado nesses processos.
“Muitas das prioridades da Iosco estão relacionadas ao nosso plano de ação para 2020. Isso mostra que a ANBIMA está alinhada e concentrará esforços em temas que são ponto de atenção do mundo todo”, afirma Zeca Doherty, nosso superintendente-geral e membro do AMCC (Comitê Consultivo de Membros Afiliados) da Iosco.
Com relação à prioridade inédita, temos ações relacionadas ao suitability, como o aprimoramento do processo de venda de crédito privado e a revisão nos critérios de qualificação do investidor.
As outras cinco prioridades são: criptoativos; distribuição no varejo e digitalização; fragmentação dos mercados; inteligência artificial e machine learning; e investimento passivo e gestão de índices. Elas começaram a ser trabalhadas no ano passado e seguem como temas relevantes.
Saiba mais sobre elas e o que temos feito sobre elas por aqui:
Criptoativos
Nos últimos anos, a Iosco concentrou seu trabalho em ações relacionadas às ofertas primárias de criptoativos (ativos virtuais protegidos por criptografia e mantidos por meio da tecnologia DLT - Distributed Ledger Technology), chamadas de ICOs. Em 2019, foram divulgados diversos alertas para o mercado, lançado um repositório de informações e realizadas reuniões mensais sobre o assunto com reguladores, chamadas de ICO Network. Essa disseminação de conteúdo contribuiu para a redução de emissões. O foco agora é o desenvolvimento de stablecoin, ou seja, a criação de mecanismos para reduzir a volatilidade do preço destes criptoativos.
Na ANBIMA: no ano passado, fizemos um estudo para disseminar conhecimento sobre criptoativos e, em 2020, está em discussão a chamada tokenização – representação de ativos tradicionais via tecnologia DLT.
Distribuição no varejo e digitalização
A digitalização mudou a forma de comercialização de produtos de investimento, principalmente por conta do crescimento das redes sociais. Esse movimento gera novas oportunidades, mas também riscos. A Iosco dará continuidade ao estudo sobre produtos alavancados no mercado de balcão para discutir os riscos das transações online e, se necessário, elaborar medidas preventivas.
Na ANBIMA: trabalharemos para aprimorar as informações de remuneração das atividades, serviços prestados e riscos dos produtos. O objetivo é dar mais transparência aos investidores.
Fragmentação dos mercados
Também uma das prioridades do G-20, a fragmentação dos mercados é quando as operações de um país ficam concentradas apenas nele. Isso pode ser positivo em alguns momentos, como em ações para proteger os investidores, mas pode gerar riscos em outros. A Iosco formou um grupo para identificar quando a fragmentação existe por conta de entrave regulatório e, nesses casos, discutirá possíveis medidas como a implementação de acordos de cooperação entre diferentes países.
Na ANBIMA: será feito um estudo de medidas para facilitar o investimento estrangeiro, aumento do limite para investimento de fundos no exterior e outras ações para internacionalização do mercado brasileiro.
Inteligência artificial e machine learning
Serão avaliados os impactos dessas inovações em diferentes atividades do mercado, como intermediação, enforcement e gestão de recursos. Até o momento, as iniciativas foram concentradas na identificação do uso dessas tecnologias pelo mercado e pelos reguladores.
Na ANBIMA: inovação é um dos principais temas do nosso plano de ação 2020. Entre as iniciativas, está a adoção de novas tecnologias em atividades internas, por exemplo, para supervisionar as instituições autorreguladas e para a precificação de ativos do mercado.
Investimento passivo e provedores de índices
Os investimentos passivos ganharam espaço, especialmente com o boom dos ETFs (Exchange Traded Funds). A Iosco discutirá os impactos do crescimento desse tipo de estratégia no mercado e as vantagens da gestão passiva com relação aos custos para os investidores.
Paralelamente, será feita uma revisão para definir de forma mais clara o papel dos administradores dos índices, especialmente com relação à conduta.
Na ANBIMA: nosso processo de precificação será modernizado. Serão avaliadas melhorias no recebimento e no tratamento das informações recebidas das instituições.
Entenda a definição da agenda da Iosco
Para elaborar suas prioridades, a Iosco conta com um amplo processo de consulta desde outubro do ano anterior. O primeiro passo inclui rodadas nos grupos para coletar a percepção dos participantes sobre os principais riscos emergentes relacionados aos mercados e às suas atividades.
O AMCC, fórum do qual participamos junto com outros autorreguladores, órgãos reguladores, associações de classe, bolsas e infraestruturas de mercado, participa dessa consulta. Paralelamente, a organização pode receber sugestões de qualquer entidade membro sobre qualquer assunto. Um relatório interno que reúne todo esse material é apresentado para a diretoria, que define as prioridades até fevereiro do ano seguinte.
Fonte: ANBIMA, em 30.01.2020