A atuária diante dos novos desafios de risco, dados e inteligência realizado de 13 a 14 de agosto na cidade do Rio de Janeiro contou com a presença de mais de 650 atuários, audiência recorde, além da presença de autoridades do governo e do judiciário. Os painéis foram apresentados simultaneamente no mesmo palco e consolidou-se como um importante espaço de reflexão sobre os novos caminhos da profissão atuarial.
Sob o tema “Risco, Dados e Inteligência - O Papel Estratégico do Atuário na Sociedade Brasileira”, o Congresso reuniu diferentes segmentos da atividade atuarial em uma programação que contemplou diversos painéis, abordando regulação, previdência, benefícios a empregados, solvência, saúde, longevidade, inteligência artificial, sustentabilidade e riscos climáticos.
Um dos grandes eixos do Congresso foi a discussão sobre *regulação e supervisão*. Os painéis “Regulação 360°” abordou diferentes mercados — previdência complementar, seguros, saúde e previdência pública — mostrando que os desafios regulatórios possuem cada vez mais pontos de convergência. A mensagem central desses debates foi a necessidade de integrar dados, riscos e inteligência atuarial. O atuário deixa de ser visto apenas como o profissional responsável pela elaboração de cálculos e passa a ocupar uma posição relevante na avaliação da sustentabilidade financeira, na identificação de riscos e no suporte às decisões dos gestores.
Na saúde suplementar, a judicialização, a regulação, a perícia atuarial, a sustentabilidade e a acessibilidade também estiveram no centro das discussões. O Congresso mostrou que a complexidade crescente dos sistemas de saúde exige modelos atuariais capazes de incorporar comportamento, utilização, custos, longevidade e mudanças regulatórias.
Outro tema recorrente foi a inteligência artificial. Os painéis “Previdência Inteligente - IA na Gestão do Futuro” e “IA – Inteligência Atuarial - Como transformar dados em sustentabilidade e decisão” demonstraram que a discussão deixou de ser sobre se a inteligência artificial será utilizada pela atuária. A questão passou a ser como utilizá-la de maneira responsável, tecnicamente consistente e capaz de gerar valor. A inteligência artificial poderá ampliar a capacidade do atuário de trabalhar com grandes volumes de dados, identificar padrões, construir cenários e desenvolver modelos preditivos. Entretanto, o Congresso também reforçou, ainda que de forma transversal, que tecnologia não substitui conhecimento atuarial. Ao contrário, aumenta a importância da capacidade profissional de formular hipóteses, avaliar riscos, interpretar resultados e questionar modelos. Nesse contexto, a combinação entre conhecimento atuarial e ciência de dados* tende a constituir uma das principais competências do atuário do futuro.
Ainda no primeiro dia do Congresso, mereceu destaque especial o painel “A CVM e o Atuário nas Companhias Abertas - Governança, Riscos e Transparência no Sistema Financeiro Nacional”, que trouxe o Sr. Rafael Vieira de Lima, da CVM e as atuárias Andrea Mente e Mariana Aleixo como palestrantes. A participação dessas duas profissionais permitiu aos presentes estabelecer uma conexão direta entre a informação atuarial e a qualidade das informações disponibilizadas aos investidores. Já a presença de Rafael Vieira de Lima, gerente de acompanhamento de empresas da CVM, trouxe ao debate a perspectiva do órgão regulador do mercado de capitais.
A mediação do painel coube ao atuário Marco Pontes que ao longo de 2025 conduziu o processo de aproximação do IBA com a CVM com a finalidade de aproximar a Ciência Atuarial do mercado de capitais, ampliando a discussão sobre o papel do atuário dentro das companhias abertas e de seus mecanismos de governança. A sua mediação deu ao painel uma característica adicional - a discussão não ficou restrita ao universo da contabilidade ou da regulação do mercado de capitais, mas procurou explorar qual deve ser o espaço ocupado pelo atuário nesse ambiente. Segundo Pontes essa questão é estratégica para a profissão. O Sr. Rafael Lima destacou “que o mercado de capitais exige informações confiáveis para avaliar empresas, riscos e perspectivas futuras”. Neste sentido, a Ciência Atuarial, por sua própria natureza, trabalha exatamente na fronteira entre a incerteza, projeção, mensuração e decisão. Portanto, existe uma oportunidade concreta para que o conhecimento atuarial seja incorporado de forma mais ampla às estruturas de governança das companhias abertas. A principal contribuição desse painel foi a de mostrar que a informação atuarial não deve ser tratada como uma informação meramente técnica ou acessória. “Obrigações de longo prazo, benefícios pós-emprego, premissas atuariais, riscos de longevidade e demais estimativas podem produzir efeitos relevantes sobre a posição econômica e financeira das companhias e, consequentemente, sobre a tomada de decisão dos investidores”, destacou Rafael Lima. Nesse sentido, a participação do atuário pode contribuir para três dimensões fundamentais do mercado de capitais: governança, gestão de riscos e transparência. A própria estrutura regulatória da CVM atribui importância à natureza e à qualidade das informações divulgadas pelas companhias abertas, incluindo demonstrações financeiras, relatórios e informações relevantes ao mercado.
A longevidade recebeu destaque especial no segundo dia do Congresso. O painel “Longevidade - Tendências que redefinem o futuro” colocou em evidência um dos maiores desafios da sociedade contemporânea: as pessoas estão vivendo mais, mas isso exige profundas mudanças nos modelos de previdência, seguros, saúde e planejamento financeiro. O painel contou com a presença de Nilton Molina, Celina da Costa Silva e Cléa Klouri. O tema é particularmente relevante para a atuária porque a longevidade afeta simultaneamente passivos previdenciários, seguros de pessoas, planos de saúde e benefícios pós-emprego. Mais do que calcular expectativas de vida, será necessário compreender como mudanças demográficas, sociais, econômicas e comportamentais alteram a trajetória dos riscos.
Também foram discutidos os riscos climáticos, o “S” da agenda ESG e a sustentabilidade. Esses debates reforçaram que os modelos atuariais precisam incorporar riscos emergentes e cenários em que o comportamento histórico pode deixar de ser um indicador suficiente do futuro.
O painel “Atuária sem fronteiras - Gerando valor em mercados não tradicionais” trouxe outra mensagem relevante. O campo de atuação do atuário está se expandindo para além dos mercados tradicionalmente associados à profissão. Tecnologias como blockchain, tokenização de ativos, inteligência artificial e novos modelos de negócios estão criando oportunidades para profissionais capazes de combinar conhecimento quantitativo, gestão de riscos e visão estratégica. Essa tendência reforça uma característica essencial da ciência atuarial, isto é, sua capacidade de lidar com a incerteza. Onde existe risco, incerteza, necessidade de projeção e tomada de decisão de longo prazo, existe potencial para a atuação do profissional.
A palestra magna foi realizada pelo navegador Amyr Klink que estabeleceu uma forte correlação com a profissão atuarial. Ele apresentou diversas situações que vivenciou ao longo de sua trajetória, dentre eles: “os grandes desafios começam muito antes de sua partida”. Ele enfatizou que suas expedições não foram aventuras improvidas, mas de anos de pesquisa, preparação, planejamento da embarcação, estudo das condições ambientais para antecipar-se aos possíveis problemas que poderia encontrar. Portanto, a preparação é, parte essencial do próprio sucesso. Em outra passagem, Klink destacou que “resiliência é consequência da preparação e não deve ser entendida simplesmente como a capacidade de "aguentar" dificuldades. Ela nasce da preparação anterior, da capacidade de manter a racionalidade sob pressão e de adaptar o plano sem perder o objetivo”.
O conjunto dos debates do XV Congresso permite identificar uma mensagem comum - O futuro da atuária não está apenas na evolução dos modelos matemáticos, mas na capacidade de transformar conhecimento técnico em inteligência para a tomada de decisões. O XV Congresso Brasileiro de Atuária, portanto, não foi apenas uma oportunidade de atualização técnica. Foi, sobretudo, um exercício de reflexão sobre o futuro da profissão e sobre a responsabilidade que o atuário poderá assumir diante dos grandes desafios econômicos, sociais e financeiros do Brasil.
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(17.08.2026)



