Por Walter Longo (*)
Dentre todos os setores que serão impactados pelo desenvolvimento e implantação dos carros autônomos, o segmento de seguros está entre os primeiros da lista. Por isso, tem muita gente preocupada com o impacto dessa inovação, enquanto o mercado avança celeremente na direção dos automóveis sem motorista com previsão para iniciar já em 2020.
Segundo os especialistas que se reuniram recentemente em Las Vegas, a principal mudança no comportamento social e de consumo será um decréscimo dos carros pessoais e individuais e a forte expansão de frotas que passarão a prestar um serviço personalizado de transporte.
Hoje, dos três trilhões de milhas anuais percorridas por automóveis nos EUA, apenas 2% são taxi, Uber, Lyft e outros serviços correlatos. Mas esse percentual deve mudar radicalmente no futuro próximo. Por isso, caberá às seguradoras de auto uma alteração do esforço de vendas, focando mais em empresas do que em pessoas físicas.
Outra grande alteração prevista será sobre a responsabilização no caso de acidente. Se eu possuo um automóvel que se autodirige, a quem caberá a culpa num eventual sinistro? Legisladores afirmam que haverá uma grande transferência de responsabilidade do proprietário para a montadora ou fabricante, com sensível aumento de custo originado por "product liability", o que poderia se transformar numa nova área de negócios a ser explorada pelas seguradoras.
É bem verdade que, com os carros sem motorista os acidentes diminuirão. A empresa de consultoria Deloitte estima que o volume de sinistros será reduzido gradativamente conforme a frota autônoma for se ampliando nos próximos 25 anos, passando de 14 acidentes por milhão de milhas percorridas para apenas 5 por milhão. Mas jamais estaremos livres dos hackers que poderão interferir na acuidade dos controles e equipamentos autônomos do veículo.
Com tudo isso, talvez tenhamos de estabelecer uma cobrança do seguro por hora ou milhas percorridas, no caso de o motorista estar dirigindo, ou a indenização do sinistro caberá à montadora quando o carro estiver autônomo. Sendo assim, cada carro deverá estar aparelhado para identificar claramente essa distinção. E, muitas das vezes, essas duas possibilidades poderão ocorrer na mesma viagem, numa espécie de responsabilidade híbrida.
Pesquisa recente realizada pela Gartner, em aliança com a Acord, revelou que as seguradoras estão totalmente despreparadas para esse novo momento do mercado e apenas 6% delas já se preparam para as adaptações necessárias ao seu modelo de negócio.
Enquanto isso, contrariando o silêncio da indústria automobilística sobre o tema, a Volvo declarou recentemente que assumirá total responsabilidade no caso de acidentes com modelos autônomos por ela produzidos. Apesar de caladas, as demais montadoras sabem que o que vem por aí é disruptivo e muitas delas estão reforçando ou se equipando para entrarem firmes no negócio de seguro de automóveis.
Sem dúvida os próximos anos nos trarão enormes novidades e alterações completas no cenário mercadológico. Quem viver, verá...
(*) Walter Longo é Presidente Executivo no Grupo Abril.
Fonte: Linkedin, em 10.01.2017.