Resolução Conjunta 18 do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional, que já entrou em vigor, prevê rastreabilidade e controles dos dados reportados pelas IFs, além de responsabilidade de diretor estatutário pela qualidade dessas informações
As instituições financeiras (IFs) estão pressionadas a tornar mais eficiente sua gestão de dados por dois motivos principais: exigência da Resolução Conjunta 18/2025 e ascensão da inteligência artificial. Essa normativa do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional, que já entrou em vigor com prazo final de adequação no dia 31 de dezembro, estabelece diretrizes para governança e garantia da qualidade dos dados mantidos e reportados pelas IFs e demais entidades autorizadas.
Elas precisam comprovar que suas informações contábeis, operacionais e de risco não estão sujeitas a distorções ou manipulações desprovidas de rastreamento. O objetivo do BC e do CMN é garantir que toda a esteira de transformação dos dados, desde a origem nos sistemas transacionais até consolidação em relatórios regulatórios, seja documentada, protegida e possa ser auditada contra alterações manuais não controladas.
“Essa resolução pretende fazer com que os regulados estabeleçam controles para fortalecimento da governança e melhora da qualidade dos dados. Por ser uma agenda regulatória, o BC exige que as IFs e demais entidades enviem evidências de que têm um programa de qualidade muito bem estabelecido voltado para a integridade dos dados”, disse Telma Luchetta, sócia-líder de Tecnologia, IA e Dados para o setor financeiro da EY Brasil, que palestrou no Febraban Tech 2026.
Ainda segundo a executiva, esse continua sendo um tema crítico para as empresas, já que os dados, especialmente em setores altamente regulados como o financeiro, sempre foram tratados de forma burocrática. “Ganhar velocidade em inteligência artificial é saber fazer a gestão eficiente dos dados, que representam a matéria-prima da IA. Estudo recente que fizemos com CDOs (Chief Data Officers) constatou que as iniciativas de IA falham por causa de problemas na qualidade dos dados, o que provoca nas organizações uma perda de confiança nessa tecnologia”, completou.
Nos últimos anos, as instituições financeiras investiram fortemente em tecnologia, estando entre os setores líderes na adoção de IA. O uso da automação, por meio de agentes de IA, se tornou uma realidade em processos como análise de score de crédito, mensuração de riscos das operações e definição dos juros aplicados nos empréstimos e financiamentos.
“É nesse contexto que a qualidade dos dados assume ainda mais relevância. Dados incompletos ou equivocados sobre os clientes podem trazer prejuízos financeiros e reputacionais para as instituições”, disse Telma. “As empresas precisam de um programa de qualidade de dados construído em uma base tecnológica que sustente a operação como um todo. Temos essa solução em parceria com a Databricks para garantir confiança nos dados, uso com segurança, entrega com resiliência e capacidade de evidenciar todo o ciclo, por meio de rastreabilidade e trilhas auditáveis”, finalizou.
Auditabilidade dos dados
Para João Herculano Rocha Jr., sócio-líder de riscos digitais para o setor financeiro da EY Brasil, o objetivo do regulador com a Resolução Conjunta 18/2025 é assegurar a integridade, rastreabilidade e auditabilidade de dados cruciais para a supervisão do sistema financeiro. “Passa por isso saber quem transformou os dados ao longo do seu ciclo”, disse.
Isso porque, ainda segundo o executivo, quando os dados são extraídos de um data lake e manipulados em planilhas ou relatórios de business intelligence com fórmulas e ajustes sem histórico, sua integridade fica comprometida, prejudicando a inspeção e o monitoramento do mercado pelo BC. “É justamente o como que também interessa ao regulador no sentido de saber quem transformou os dados. Para isso, as instituições reguladas precisam ter o controle de quem acessa, quando acessa e por que acessa, tendo a rastreabilidade das alterações nesses dados enviados ao BC”, completou.
Para assegurar o cumprimento das regras, o Banco Central exige a indicação de um diretor estatutário (do nível C-Level) para responder pela qualidade dos dados encaminhados. “Embora a função possa ser assumida por cargos como CDO ou CFO (Chief Financial Officer), a maioria das instituições de maior maturidade atribui essa responsabilidade ao CRO (Chief Risk Officer) ou às áreas de compliance”, disse João. A escolha, de acordo com o executivo, está baseada no princípio da segregação de funções ("feito e conferido"), garantindo que a área responsável por auditar e controlar os dados seja independente da área de tecnologia, que é responsável por produzi-los.
A inteligência artificial tem sido cada vez mais utilizada pelas empresas para inovar e tornar mais produtivo o dia a dia dos seus negócios. Há, no entanto, diversas dúvidas sobre como desenvolver e operacionalizar esses sistemas evitando os riscos que podem comprometer os resultados financeiros e a reputação das organizações. Nesse contexto, a EY lançou a série “IA aplicada aos negócios: Como utilizar essa tecnologia com segurança e governança para gerar inovação”, que, além desta reportagem, já publicou as seguintes:
- IA generativa para fins tributários atende às obrigações fiscais e gera inteligência
- Empresas adotam IA generativa na gestão do contencioso tributário
- Monitoramento por IA das emissões de metano já é realidade na indústria de gás e petróleo
- Indústria de mineração encontra alternativas à abertura de minas por meio da IA
- IA possibilita uso inteligente da rede de energia para aproveitar potencial das fontes renováveis
- Educação é a base da governança em inteligência artificial
- Engajamento dos C-Levels e diretores é característica em comum das empresas bem-sucedidas em IA
- Conselheiros de administração no Brasil têm o desafio de inserir IA generativa na agenda de curto prazo
- Uso da IA generativa pelas empresas começa com identificação do problema a ser resolvido
- Cultura de dados aliada à IA melhora gestão de riscos corporativos
- Erro ou criatividade da IA generativa, mesmo em nível baixo, traz riscos para as empresas
- IA exige olhar para as transformações que serão viabilizadas pela tecnologia
- Empresas consideram que IA generativa será complementar às iniciativas já existentes
- IA generativa: 73% das empresas já estão investindo ou planejam investir dentro de um ano
- Estruturação dos dados é desafio da área de gestão de riscos das organizações
- IA registra mais de 90% de precisão na detecção de ameaças cibernéticas, diz estudo da EY
- 86% dos CIOs pretendem adquirir ou fechar parceria com plataforma de IA generativa
- Uso da IA pelas varejistas traz ganhos em relação aos clientes, colaboradores e cadeia de suprimentos
- Uso da IA na infraestrutura viabiliza projetos com monitoramento em tempo real
- CEOs concordam que capacitação da força de trabalho vai definir liderança em IA
- Geopolítica, tecnologia e ambiente regulatório desafiam departamentos jurídicos
- 85% dos departamentos jurídicos usam ou pretendem usar IA generativa para buscar jurisprudência
- Uso da IA pelo agronegócio pode tornar Brasil ainda mais competitivo no cenário global
- Sistemas de IA generativa precisam ser continuamente confrontados ou testados
- Empresas podem obter incentivos fiscais com seus investimentos em IA
- Uso da IA contra ameaças cibernéticas cresce entre empresas de tecnologia
- IA agêntica já é realidade nas empresas de tecnologia, diz estudo da EY
- Estudo da EY indica que 76% da Geração Z já usa IA na vida pessoal e no trabalho
- Geração Z considera que uso da IA generativa seria desestimulado pelos professores
- Geração Z sabe onde usar IA generativa, mas tem dificuldades de tirar o melhor dela
- Redes sociais são principal fonte de informação sobre IA para Geração Z
- 63% da Geração Z considera que IA traz impacto positivo para a vida
- Letramento em IA é passo inicial para implantação bem-sucedida da tecnologia
- Adoção efetiva da IA nas empresas depende do engajamento dos colaboradores
- Brasil está entre os líderes em índice de população confortável com uso de IA
- Maioria dos brasileiros usou IA de forma consciente nos últimos seis meses
- 47% dos consumidores ainda não fizeram compra recomendada por IA
- Detecção de ameaças e monitoramento estão entre principais usos da IA para cibersegurança
- Entusiasmo sobre o futuro da IA entre os brasileiros está acima da média global
- Governo tem índice mais baixo de confiança para gestão de IA
- Em meio à incerteza, empreendedores focam em IA e fortalecimento da cultura
- CISOs têm a oportunidade de liderar estratégia de IA das organizações
- Uso de IA para prevenção de crimes financeiros ainda é incipiente, indica estudo da EY
- Cresce busca por profissionais tributários com fluência em IA, aponta estudo da EY
- Dificuldades com IA e cibersegurança são principais riscos para telecom neste ano, diz estudo da EY
- 45% das empresas reconhecem que dificuldade com tecnologia prejudica função tributária
- Uso da IA na auditoria viabiliza testagem de 100% das transações dos clientes
- Nove em cada dez CEOs no Brasil esperam por impacto decisivo da IA no negócio
- CEOs no Brasil consideram que IA atende ou excede expectativas, diz estudo da EY-Parthenon
- Para gerir milhares de agentes de IA, empresas adotam novo modelo de governança
- Mercado já usa IA na concessão e gestão de crédito, diz estudo da EY-Parthenon
- Bancos pretendem usar IA na gestão de riscos de fraudes e crimes financeiros
- Sete em cada dez executivos no Brasil pretendem elevar investimentos em IA
- IA já aparece em 31% dos títulos de cargos de líderes da área de dados, diz estudo da EY
- Gestores de riscos avaliam que tecnologia e cibersegurança estarão no centro da supervisão bancária
- Empresas estão mudando foco da IA para obtenção efetiva de resultados
- Busca por talentos que dominem IA e outras tecnologias é prioridade do agro
- CDOs relatam controle total sobre IA em apenas 33% dos casos nas empresas
- Ferramentas de IA para saúde mudam forma como consumidores buscam cuidados
Fonte: Agência EY, em 01.09.2026.