
*Edição nº 466 (setembro e outubro de 2026) da Revista da Previdência Complementar – publicação da Abrapp, ICSS, Sindapp, UniAbrapp e Conecta.
Caderno Técnico do Seminário Internacional UniAbrap, por Flávia Silva
Em maio de 2026, a UniAbrapp realizou, em Bogotá, na Colômbia, mais uma edição de seu Seminário Internacional, desta vez com olhos voltados para os vizinhos latino-americanos. Em comum, o desafio de fomentar a Previdência Complementar em meio a sistemas estatais de repartição por vezes “generosos” e altas taxas de informalidade no mercado de trabalho.
Os principais pontos das palestras realizadas ao longo dos três dias de evento são disponibilizados neste caderno técnico, no intuito de subsidiar, como de costume, o tão necessário debate doméstico sobre o fomento do setor.
Manuel García-Huitrón, sócio fundador e Chief Economist da Nuovalo (México)
Brasil e México caminham para o mesmo destino demográfico, ainda que por trajetórias institucionais bastante diferentes. Essa foi a principal mensagem transmitida por Manuel García-Huitrón durante sua apresentação no Seminário Internacional da UniAbrapp. Embora ambos os países enfrentem um cenário de menor crescimento da força de trabalho, maior longevidade e períodos mais longos de pagamento de benefícios, cada país optou por uma resposta distinta ao desafio previdenciário.
Enquanto o Brasil oferece proteção na velhice por meio de um amplo sistema público, com gastos próximos de 12% do PIB, o México reorganizou seu segundo pilar em torno de contas individuais obrigatórias administradas pelas Afores (Administradoras de Fondos para el Retiro), com custo direto para o Estado equivalente a cerca de 4,5% do Produto Interno Bruto.
“Nenhuma das duas rotas escolhidas é gratuita”, sintetiza o economista. A capitalização tende a ampliar a formação de poupança, reduzir custos e aprimorar a gestão dos investimentos, mas não resolve, por si só, questões como cobertura, adequação dos benefícios ou a fase de desacumulação. “A principal reflexão para o Brasil, portanto, não é importar modelos, mas adaptar mecanismos capazes de fortalecer o Regime de Previdência Complementar, desenvolver estratégias de ciclo de vida, ampliar o escopo e desenvolver uma fase de pagamento de benefícios mais robusta”, argumenta Huitrón.
Duas economias, mesma “tesoura” – Brasil e México partiram, nas décadas de 1950 e 1960, de condições demográficas muito semelhantes, com elevadas taxas de fecundidade e expectativa de vida relativamente baixa. Ao longo das décadas seguintes, percorreram trajetórias quase paralelas e caminham hoje para um mesmo cenário de envelhecimento populacional e crescente pressão sobre os sistemas previdenciários. “Até 2050 observa-se uma tendência de convergência não apenas entre Brasil e México, mas em toda a região”, assinala o especialista.
Números apresentados na exposição ilustram esse movimento. O crescimento da população em idade ativa deverá chegar a zero no Brasil por volta de 2034 e no México em 2049. Já a população com 65 anos ou mais alcançará 20% do total em 2046 no Brasil e pouco mais de uma década depois no México. “Esses cenários ‘de Japão’, que pareciam bastante distantes, já não estão tão longe assim”, observou.
O ambiente macroeconômico dos dois países também é semelhante. Segundo Huitrón, Brasil e México enfrentam crescimento econômico moderado, restrições fiscais crescentes e uma mesma “tesoura previdenciária”. De um lado, a queda estrutural das taxas de juros; de outro, o aumento contínuo da longevidade, que amplia o período de pagamento dos benefícios.
O palestrante lembra ainda que Brasil e México ocupam a 10ª e a 13ª posições entre as maiores economias do G20 e representam juntos cerca de 3,6% do PIB mundial. Apesar de sua relevância econômica, nenhum dos dois países conseguiu sustentar crescimento real superior a 3% ao ano desde 2010, o que reduz ainda mais o espaço para reformas previdenciárias e amplia as restrições fiscais comuns às duas economias.
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Fonte: Abrapp em Foco, em 23.10.2026.