
*Edição nº 464 (maio e junho de 2026) da Revista da Previdência Complementar – publicação da Abrapp, ICSS, Sindapp, UniAbrapp e Conecta.
Entrevista com Felipe Nunes, por Débora Diniz
“O brasileiro não aguenta mais o conflito permanente. O que ele quer é mais resultado.” A frase do cientista político Felipe Nunes sintetiza uma das conclusões centrais de Brasil no Espelho, obra construída a partir de mais de 10 mil entrevistas. Em entrevista à Revista da Previdência Complementar, ele analisa um país marcado pelo cansaço diante da polarização, pela desconfiança nas instituições e pela dificuldade crescente de olhar para o longo prazo em meio às pressões do presente.
Ao longo da conversa, Nunes afirma que o Brasil real é muito mais complexo do que as leituras binárias sugerem. “Uma mesma pessoa pode ser economicamente liberal e socialmente conservadora”, observa. Para ele, compreender o comportamento social do brasileiro exige reconhecer contradições, mudanças geracionais e permanências históricas que seguem moldando escolhas individuais, políticas e econômicas.
Sócio-fundador da Quaest, Ph.D. em ciência política e mestre em estatística pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), além de professor da Escola de Economia da FGV-SP, Nunes discute ainda os impactos da longevidade, os desafios da Previdência Complementar e a relação entre confiança, reputação e planejamento de futuro.
O livro “Brasil no Espelho” propõe um encontro entre o país que imaginamos e o país que de fato somos. O que mais surpreende quando se olha o Brasil pelos dados, e não pelos clichês?
Felipe Nunes – O que mais surpreende é a distância entre a autoimagem coletiva e a realidade mensurável. O brasileiro tende a se ver como um povo tolerante, cordial, aberto à diferença, e os dados mostram um quadro muito mais complexo e contraditório. A maioria das pessoas reconhece que o racismo existe no país, mas uma parcela significativa de homens brancos ainda nega ter qualquer responsabilidade nisso. Há uma tolerância crescente em relação a novas configurações familiares, entre os jovens que convivem com valores conservadores profundamente enraizados em outras faixas. O que os dados revelam não é um Brasil melhor nem pior do que o imaginado. É um Brasil mais fragmentado, mais plural e, sobretudo, mais honesto consigo mesmo em comparação ao que predomina na percepção coletiva. Essa constatação provoca um estranhamento, e isso é produtivo porque nos obriga a sair do conforto das narrativas prontas.
Depois dessa investigação ampla, qual Brasil aparece com mais nitidez: o da mudança ou o da permanência?
Felipe Nunes – Os dois, e essa é exatamente a tensão que organiza o livro. Há transformações inequívocas: os jovens, que eu chamo de geração.com, têm valores distintos das anteriores em praticamente todos os campos: família, trabalho, religião, política. A urbanização acelerada, o acesso à internet e a ascensão e queda de uma nova classe média nos últimos vinte anos produziram um país diferente em muitos aspectos. Mas, ao mesmo tempo, certas estruturas permanecem com uma resiliência impressionante: a desconfiança interpessoal, a desconfiança nas instituições, a percepção de que o Estado é distante ou hostil, o peso da informalidade no cotidiano econômico. O Brasil muda na superfície com velocidade, mas nos fundamentos há uma permanência que desafia qualquer otimismo apressado. Entender essas duas camadas e como elas coexistem é o que separa a análise séria do comentário de ocasião.
O debate público costuma reduzir o país a rótulos simples. O que se perde quando o Brasil é interpretado de forma binária?
Felipe Nunes – Perde-se o Brasil real. Quando você reduz o país a dois campos, progressistas e conservadores, ricos e pobres, Norte e Sul, favela e condomínio, você captura talvez uma fração da realidade e descarta o resto. Os dados mostram que a maioria dos brasileiros não cabe em nenhuma caixinha. Uma mesma pessoa pode ser economicamente liberal e socialmente conservadora, ou defender a família tradicional e ao mesmo tempo apoiar políticas redistributivas. Esse embaralhamento é a norma, não a exceção. O problema da interpretação binária é duplo: ela distorce o diagnóstico e, consequentemente, compromete qualquer resposta institucional. Quando uma organização, seja ela um partido, uma empresa, um fundo de pensão ou o próprio governo, trabalha com um mapa errado do território, tende a falar apenas com um grupo, ignorando a maioria.
(Continua…)
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Fonte: Abrapp em Foco, em 24.06.2026.