I Webinar de Cirurgia Pediátrica do CFM destaca importância do diagnóstico precoce e do atendimento especializado à criança

O Conselho Federal de Medicina (CFM) realizou, nesta sexta-feira (17), o I Webinar de Cirurgia Pediátrica, dedicado ao tema “Diagnóstico Precoce e o Manejo Oportuno de Patologias Cirúrgicas na Infância”. Durante o evento, especialistas ressaltaram que o reconhecimento precoce das doenças cirúrgicas e o encaminhamento oportuno são determinantes para reduzir complicações, sequelas e mortalidade entre crianças e adolescentes.
Ao abrir o webinar, a 2ª vice-presidente do CFM, Rosylane Rocha, destacou que o cuidado com o paciente pediátrico exige conhecimento técnico, sensibilidade e atualização permanente. “A medicina evolui em ritmo acelerado e o aprimoramento é um dever ético. Identificar precocemente uma patologia e intervir no momento exato não apenas salva vidas: transforma o prognóstico e garante um futuro saudável para os pequenos pacientes”, afirmou.
Na sequência, a coordenadora da Câmara Técnica de Cirurgia Pediátrica do CFM, Ana Jovina Bispo, lembrou que muitas doenças cirúrgicas da infância são tempo-dependentes, tornando essencial o reconhecimento rápido dos sinais de alerta, e reforçou que crianças não são adultos em miniatura. “Elas possuem características anatômicas, fisiológicas e clínicas próprias, que exigem profissionais capacitados e uma abordagem específica em todas as etapas do cuidado. Compreender essas particularidades é indispensável”.
Corroborando o argumento de particularidades da criança cirúrgica, o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Pediátrica, Fábio Antônio Perecim Volpe, defendeu, na conferência de abertura, que a criança deve receber assistência especializada, fundamentada tanto em aspectos legais quanto científicos e éticos. “O cuidado pediátrico deve ser realizado por especialistas em Pediatria e Cirurgia Pediátrica, em razão da complexidade clínica envolvida”, enfatizou.
Volpe chamou atenção para o maior risco de perda de calor durante procedimentos cirúrgicos, além do rigor no controle hídrico, já que pequenas variações de volume podem provocar repercussões importantes no organismo infantil. Outro aspecto abordado foi a resposta orgânica ao trauma cirúrgico. Segundo o especialista, falhas na condução clínica e cirúrgica podem aumentar a ocorrência de complicações, reinternações e até óbitos, muitos deles potencialmente evitáveis com assistência especializada e manejo adequado desde o primeiro atendimento.
Além das diferenças fisiológicas, Volpe destacou que fatores emocionais exercem influência importante sobre a recuperação das crianças. Ansiedade, medo e estresse elevam a resposta hormonal ao trauma e podem repercutir na evolução clínica. Ao encerrar a conferência, ele reforçou que tratar uma criança como um adulto pode trazer consequências graves, incluindo aumento do risco de complicações, reinternações e mortalidade.
Urgências cirúrgicas não traumáticas na infância – Na sequência da programação, especialistas destacaram que o sucesso no tratamento das principais emergências cirúrgicas pediátricas está diretamente relacionado à capacidade de reconhecer precocemente os sinais de alerta e encaminhar a criança, sem demora, para avaliação especializada.
Ao abordar os alarmes cirúrgicos no recém-nascido, o cirurgião e urologista pediátrico Francisco Nicanor Araruna Macedo ressaltou que manifestações como dispneia, cianose, distensão abdominal, salivação excessiva e dificuldade para passagem de sonda gástrica devem ser reconhecidas imediatamente pelas equipes que atuam na sala de parto e nas unidades neonatais. Segundo ele, assim como ocorre na oncologia, o diagnóstico precoce é determinante para aumentar as chances de sobrevida e evitar a evolução para quadros potencialmente fatais.
O especialista reforçou a importância do exame físico inicial e do reconhecimento das principais malformações e urgências neonatais, destacando que, embora técnicas minimamente invasivas representem uma importante evolução da cirurgia pediátrica, a escolha da abordagem deve considerar a experiência da equipe e a estrutura disponível, tendo como prioridade a segurança e os melhores resultados para o paciente.
Na sequência, a cirurgiã pediátrica Wellen Canesin apresentou as principais urgências cirúrgicas na criança e no adolescente, enfatizando que a dor abdominal continua sendo uma das causas mais frequentes de atendimento em pronto-socorros pediátricos e exige avaliação criteriosa. A palestrante alertou que sinais como dor de início súbito, despertares noturnos, vômitos persistentes, distensão abdominal e alterações do hábito intestinal podem indicar um abdome agudo cirúrgico e não devem ser subestimados.
A especialista revisou as características clínicas, os métodos diagnósticos e as condutas indicadas para diferentes doenças, ressaltando que o atraso no diagnóstico pode resultar em complicações graves e comprometer o prognóstico. Segundo ela, embora exames complementares sejam importantes em situações específicas, uma anamnese detalhada e o exame físico permanecem fundamentais para o reconhecimento precoce dessas condições.
Encerrando a mesa-redonda, a conselheira Ana Jovina reforçou que o primeiro atendimento exerce papel decisivo na evolução dos pacientes e ressaltou que a percepção da família, especialmente das mães, deve ser valorizada durante a avaliação clínica.“Se a mãe traz pra gente uma preocupação, isso configura um sinal de alerta”, defendeu. Para a coordenadora da Câmara Técnica de Cirurgia Pediátrica do CFM, otimizar a conduta inicial e garantir o acesso oportuno ao especialista são medidas capazes de modificar significativamente o prognóstico das crianças com doenças cirúrgicas.
No I Webinar de Cirurgia Pediátrica, especialistas enfatizam a necessidade de uma escuta atenta para a fala dos pais

A segunda parte do I Webinar de Cirurgia Pediátrica, realizado na manhã desta sexta-feira (17), que tinha como tema as cirurgias ambulatoriais, debateu o manejo clínico cirúrgico de algumas enfermidades, como as hérnias inguinais, e o papel dos exames de imagens no diagnóstico dessas doenças. Os dois palestrantes, o cirurgião pediátrico Fábio Volpe, e o radiologista Robertson Bernardo, foram enfáticos em defender um exame clínico criterioso e uma escuta atenta às queixas apresentadas pelos familiares da criança.
O evento, que foi transmitido pelo Canal do CFM no YouTube, já pode ser visto AQUI.
“No caso da hérnia, por exemplo, quando não conseguimos identificá-la na apalpação, mas a mãe diz que existe, temos de dar crédito ao que ela diz”, defendeu o cirurgião pediátrico Fábio Volpe, que desenvolveu o mnemônico HMA, para enfatizar a necessidade de que o médico escute a História da Mãe.
Em sua apresentação, Volpe apresentou vários tipos de hérnias inguinais e as melhores formas e momentos de tratamento, se por cirurgia aberta ou por videolaparoscopia, a depender da situação. “Não existe uma idade ideal para o procedimento. É melhor que o problema seja resolvido no menor tempo possível após o diagnóstico, antes de gerar outras comorbidades”, aconselhou.
Imagens – Na palestra “Exames de imagem no Diagnóstico das Doenças Ambulatoriais”, o radiologista Robertson Correia Bernardo defendeu prudência na indicação de exames de imagens em crianças. Em diálogo com a apresentação de Fábio Volpe ele afirmou que, no caso de indicação cirúrgica da hérnia inguinal, a cirurgia não deve ser adiada devido à falta do exame. “Não devemos esperar por imagens só para confirmar o diagnóstico feito no exame clínico e na anamnese”, defendeu.

Após explicar indicações de uso dos exames de imagem no diagnóstico de doenças infantis, Bernardo deixou uma mensagem para o atendimento a ser feito em consultórios. “Entre os exames complementares, a ultrassonografia é o mais indicado, pois não há radiação; o exame físico é o padrão-ouro; cada exame complementar deve ser justificado; não atrase uma urgência na espera que uma confirmação do seu diagnóstico”, aconselhou. Ele também enfatizou que os exames de tomografia e ressonância só devem ser solicitados em situações muito específicas.
A moderadora da mesa, cirurgião pediátrica Elisângela de Mattos e Silva enfatizou a complementaridade entre as duas palestras. “Há hoje uma realização exacerbada de exames em crianças, muitas vezes por pressão dos pais. Por isso é importante que estejamos fazendo essa discussão aqui”, afirmou.
“Foi uma mesa fantástica, em que enfatizamos o protagonismo da história clínica do paciente. Adorei o mnemônico HMA apresentado do Volpe e da preocupação do Bernardo para que não sejam feitos exames desnecessários”, afirmou a coordenadora da Câmara Técnica de Cirurgia Pediátrica e presidente da mesa, Ana Jovina Barreto.
Fonte: Portal CFM, em 17.07.2026.