Relatório de Sustentabilidade de 2020 da CNseg aponta que cerca de 90% das seguradoras afirmam já integrar questões ASG em seus planejamentos estratégicos, masnormativo da Susep vai intensificar a agenda de sustentabilidade no Setor de Seguros
As seguradoras, entidades abertas de previdência complementar e sociedades de capitalização consideram o normativo com os requisitos de sustentabilidade – publicado no Diário Oficial e que entra em vigor hoje – um marco regulatório das questões Ambiental, Social e Governança (ASG) para o setor, estimulando a evolução de forma padronizada dessa pauta.
“O setor de seguros reconhece que a atuação do regulador é fundamental para construção de políticas que fomentem melhor gestão de questões ASG. A harmonia entre os conceitos da Circular Susep nº 666/2022 com a Resolução CMN nº 4.944 – que compõem o arcabouço financeiro ASG e climático para instituições financeiras – mitiga custos operacionais para cumprimento regulatório”, avalia Solange Beatriz Palheiro Mendes, diretora- executiva da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg).
Para facilitar o entendimento das exigências regulatórias, os requisitos da minuta de Circular Susep são divididos em quatro etapas. A de aculturamento abrange a Política de Sustentabilidade, as ações relacionadas e a definição de uma governança. Já a análise qualitativa compreende exigências relacionadas a gestão de riscos, critérios para precificação e subscrição para seleção de investimentos e para seleção de fornecedores e prestadores de serviços.
Na terceira etapa, que trata de performance, as empresas enquadradas como S1 e S2, conforme segmentação da Susep, deverão adotar metodologias quantitativas de mensuração de riscos que considerem eventos associados aos riscos de sustentabilidade. Por último, o documento prevê o registro e divulgação das informações em um Relatório de Sustentabilidade, descrevendo as ações das supervisionadas no desenvolvimento e oferta de produtos e serviços, assim como o desempenho de suas atividades e operações relacionadas à Política de Sustentabilidade.
Para Solange Beatriz, o nível de maturidade com o qual as empresas tratam e desenvolvem ações sobre o tema ainda é diferente. “Segundo a última edição do Relatório de Sustentabilidade da CNseg, publicado com dados de 2020, cerca de 90% das empresas participantes afirmaram que já integram questões ASG em seus planejamentos estratégicos e 47,4% incluem critérios de sustentabilidade na gestão de investimentos e nos processos de subscrição de riscos. Apesar de muitas empresas possuírem políticas socioambientais consolidadas, ao criar regras gerais e definir elementos mínimos para todas supervisionadas, a Susep estabelece condições para que o setor como um todo evolua e desenvolva ações de sustentabilidade mais concretas”.
A Circular Susep nº 666, de 29.06.2022, que estava em consulta pública de dezembro de 2021 até março de 2022, foi amplamente discutida pelo setor de seguros.
Sustentabilidade, inovação e tecnologia em debate na reunião de julho da Comissão de Inteligência de Mercado
“Inteligência Artificial (IA) pode ser definida como todo sistema computacional que simula a capacidade humana de raciocinar e resolver problemas, por meio de tomadas de decisão baseadas em análises probabilísticas (Caitlin Mulholland)”, explicou a professora de Direito do Consumidor Angélica Carlini em apresentação sobre Inovação nas Relações de Consumo, realizada durante a reunião de 28 de julho da Comissão de Inteligência de Mercado (CIM).
E, à semelhança da Inteligência Artificial, o setor segurador também atua por meio de decisões baseadas em análises probabilísticas, evidenciando a utilidade dessa poderosa ferramenta para esse segmento de negócio. “Para uma seguradora, é importante saber quando um estabelecimento segurado poderá pegar fogo, mas também é importante mensurar qual será a extensão do impacto desse fogo e os algoritmos podem ser utilizados para isso”, afirmou. Os algoritmos, cabe lembrar, são sequências de instruções bem definidas, normalmente usadas para resolver problemas de matemática específicos, executar tarefas, ou para realizar cálculos e equações, sendo largamente utilizados nos programas de IA. Eles podem auxiliar a indústria de seguros na elaboração dos cálculos atuariais, na automação dos processos de gestão, na prevenção de enfermidades, na alocação de recursos, no alerta de eventos naturais e, também, na previsão da conduta e gestão de consumidores, entre outras inúmeras utilidades.
Entretanto, alertou Carlini, a Inteligência Artificial precisa ser administrada com responsabilidade para se evitar problemas como vieses discriminatórios, falta de transparência, decisões excessivamente automatizadas e dificuldade de identificação de autoria de danos. Mas, informou a professora, felizmente as instituições estão atentas à questão, como é o caso da Autoridade Europeia de Seguros e Pensões (EIOPA, na sigla em inglês), que no ano passado elaborou um relatório levando em conta as especificidades do setor segurador, estabelecendo governança para que o uso da inteligência artificial seja ético e confiável.
Como ASG e Inovação se conectam?
Essa foi a pergunta que serviu de mote para a apresentação seguinte, realizada por Luís Gustavo Lima, CEO da consultoria de inovação Ace Cortex. ASG, cuja sigla representa as palavras Ambiental, Social e Governança, na definição de Luís, significa “conduzir os negócios de forma ética, transparente e com consciência dos impactos, gerando valor para a sociedade e os stakeholders em toda a cadeia de relações”.
Entretanto, afirmou, de acordo com pesquisa feita junto a 300 startups de inovação, a maioria ainda foca no “A” de ambiental e pouco no “G” de governança. Outro problema identificado é o greenwhasing, que é uma apropriação errônea de virtudes ambientais, estando muito presente no marketing, mas pouco nos processos.
Essa mentalidade, entretanto, parece estar mudando, com o surgimento de lideranças e consumidores mais conscientes, levando a agenda ASG muito mais a sério. “Empresas que não entenderem isso agora, viverão dias difíceis no futuro”, declarou. Já a respeito de inovação, o CEO afirmou que ela deve ser incorporada em todos os sistemas de gestão de negócios, não cabendo mais hoje em dia “o uso de práticas do século XX”. “A partir de agora, o foco deve estar no negócio, com a exploração das capacidades existentes e, com o mesmo peso, na inovação, com a exploração de novas oportunidades”, concluiu.
Não bastassem esses argumentos, Luís listou mais outros três para que as empresas incorporem as questões ASG aos negócios: a rentabilidade, pois as empresas ASG possuem uma maior valorização na bolsa; a regulação, que fortalece a tendência de adoção dessas práticas, e o engajamento da geração Z, nascida após 1990, que já representa ¼ da população mundial e valoriza mais as questões ambientais, sociais e tecnológicas.
Como o setor segurador encara os riscos ASG?
A última apresentação da reunião foi feita pelo professor Flávio Nogueira, da COPPE/UFRJ, que trouxe algumas informações sobre a pesquisa “Sustentabilidade em seguros – riscos climáticos – de onde viemos e para onde vamos”, que está sendo realizada por ele, junto com Roberto Nogueira e Paula Chimenti. A pesquisa, na verdade, é uma revisão da que foi feita em 2015, com o apoio da CNseg, e pretende, entre outros objetivos, atualizar a revisão da literatura sobre sustentabilidade em seguros, especialmente em relação às mudanças climáticas, além de refinar o instrumento de mensuração de subscrição de risco ASG e diagnosticar a percepção do setor segurador sobre os impactos de riscos climáticos. Para isso, serão entrevistados diversos profissionais da área para avaliar as suas opiniões a respeito dos riscos ASG. Em um “spoiler” da pesquisa, o professor adiantou que as seguradoras já se entendem mais sustentáveis que o mercado como um todo, mas os consumidores gostariam que essa preocupação com os fatores ASG fosse ainda maior.
Apesar das incertezas no Brasil e no mundo, desempenho do setor segurador é recorde até maio de 2022
“A guerra continua a gerar incertezas, com a crise de energia na Europa desgastando diversos governos. Por outro lado, as perspectivas de retorno das exportações de grãos pela Ucrânia tendem a reduzir as pressões inflacionárias”, explicou o professor e economista Luiz Roberto Cunha, durante a reunião do Centro de Estudos de Mercado (CEM) da CNseg, realizada em 27 de julho. A China, com sua desaceleração e problemas nos mercados financeiro e imobiliário, também é fonte de preocupação, assim como os EUA, que enfrentam a possibilidade de inflação alta junto com crescimento baixo.
No Brasil, explicou Pedro Simões, da Superintendência de Estudos e Projetos (SUESP) da CNseg, apesar do bom resultado das contar externas, a incerteza eleitoral e a fragilidade fiscal geram riscos para 2023, quando deve ocorrer uma desaceleração do crescimento mais forte que a da inflação, convivendo com juros em patamares ainda elevados.
O setor segurador, explicou Pedro, é fortemente impactado pelos fatores econômicos, sendo que alguns produtos são mais impactados que outros. O VGBL, por exemplo, tem uma correlação positiva com a inflação, enquanto a Capitalização é afetada negativamente. Já o Seguro Viagem, por ser voltado a pessoas com maior poder aquisitivo, não é tão afetado pelos indicadores econômicos.
Arrecadação do setor segurador é recorde em 2022, até maio
Em seguida, foi a vez de Priscila Aguiar, também da Superintendência de Estudos e Projetos, apresentar os resultados da série histórica de arrecadação, em termos reais, isto é, descontando a inflação, do setor segurador no acumulado até maio deste ano. No estudo apresentado, a arrecadação alcanço nesses 5 primeiros meses do ano, R$ 137,9 bilhões, quase o dobro, em termos reais, do que o número de 2008. Pelo lado das indenizações, benefícios, resgates e sorteios, o valor alcançado no ano de 2022 até maio, de R$ R$ 94,1 bilhões, é quase duas vezes e meia os valores de 2008.
Em Danos e Responsabilidade, o desempenho em valores reais de Ramos Elementares no acumulado até maio em 2022 foi o maior desde 2008, apesar de, no Seguro de Automóveis, a arrecadação ainda se encontrar no patamar de 2018. Isso se deve, entre outros fatores, ao recuo na venda de veículos novos gerado pela falta de insumos na cadeia produtiva. E, mesmo a comercialização de carros usados, que teve um bom desempenho em 2021, voltou a cair, impactada pelo aumento dos preços desses veículos.
Já em relação ao Seguro Residencial, também com desempenho recorde em 2022, a percepção é de que ele foi ‘descoberto’ pela população e veio para ficar”. O Seguro Habitacional, por sua vez, que é uma proteção obrigatória nos financiamentos imobiliários, manteve, em 2022, o desempenho positivo de 2021, apesar do aumento da inflação, que fez reduzir a busca pelo crédito imobiliário.
O Seguro de Transportes foi beneficiado pelo retorno da atividade econômica, mas o câmbio e o aumento do preço das mercadorias transportadas também impactaram o preço do seguro. Por outro lado, a arrecadação do Seguro Garantia Estendida, no acumulado até maio e em valor real, voltou ao patamar de 2010, ainda muito impactado pela pandemia e pela redução na venda de eletrodomésticos.
Na Saúde Suplementar, os planos médico-hospitalares ainda apresentam o mesmo número de beneficiários de 2016, diferentemente dos planos odontológicos, que apresentam crescimento no número de beneficiários desde o início da série história em 2008.
Estimativa de IGP-M mais baixo não afeta trajetória de nova alta da Selic, diz CNseg
A forte desaceleração da inflação projetada pelo IGP-M está entre os destaques do novo Boletim de Acompanhamento das Expectativas Econômicas (AEE), da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), publicado nesta segunda-feira, com base em projeções compiladas no relatório Focus do Banco Central. “É interessante observar a estatística de mínima da projeção para o IGP-M este ano que, influenciada pela expectativa de desaceleração da economia mundial e seu impacto nos preços de commodities, vem caindo e sofreu uma queda abrupta na última semana, de 2,5p.p., com agentes agora projetando que o índice pode ficar em 6,6% no ano que vem. A mediana é de 11,34%”, assinala o economista Pedro Simões, do Comitê de Estudos de Mercado da CNseg.
Ainda assim, afirma ele, os agentes esperam que o Banco Central aumente a Selic em 0,50 ponto percentual nesta semana, levando os juros básicos a 13,75%, patamar em que – segundo a projeção mediana – permaneceriam até o final do ano. Entretanto, para o ano que vem, ainda que o ajuste de juros já realizado desde o ano passado tenha sido relevante, o cenário mais deteriorado faz com que se espere a Selic em patamar mais alto por mais tempo: a projeção mediana para os juros básicos ao final de 2023 subiu de 10,75% para 11,00%.
O relatório Focus divulgado nesta segunda-feira (01/08) constata que as projeções para o PIB melhoram este ano e caem para o ano que vem: para 2022, subiu de 1,93% para 1,97%. Para o ano que vem, entretanto, nova queda, de 0,49% para 0,4%. Por outro lado, as projeções para o IPCA fazem movimento contrário: caiu de 7,3% para 7,15% em 2022 e subiu de 5,3% para 5,33% em 2023. O IPCA-15 de julho, de fato, desacelerou para 0,13%, com queda significativa no grupo de transportes, principalmente pela redução de 5,01% no preço da gasolina e de 8,16% no do etanol. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses até julho pelo IPCA-15 caiu de 12,04% para 11,39%.
Pedro Simões afirma que será interessante acompanhar não apenas a decisão, “mas o tom do próximo comunicado do Copom, que, como vimos comentando desde pelo menos o mês passado, por conta da excepcional incerteza que envolve ainda eleições presidenciais em outubro, deve indicar uma autoridade monetária mais data-dependent, ou seja, com menos compromisso em assumir uma trajetória futura para a política monetária, respondendo mais aos dados conforme forem sendo divulgados (exatamente como fizeram o FED e o BCE – afinal, a incerteza não tem sido exclusividade do Brasil)”.
No calendário econômico da semana, além do Copom, na quarta-feira (03/08), destaque para produção industrial de junho, amanhã (02/08), segundo o boletim, cuja íntegra pode ser acompanhada a seguir.
Fonte: CNseg, em 01.08.2022.