CFM e Royal College do Canadá discutem padrões internacionais de avaliação médica

O Conselho Federal de Medicina (CFM) recebeu nesta terça-feira (31) Tai Telesco e Carlos Gomes, representantes do Royal College of Physicians and Surgeons do Canadá para uma reunião com o foco no intercâmbio de experiências sobre formação e avaliação médica e na cooperação para o desenvolvimento do Exame Nacional de Proficiência (Profimed).
O CFM apresentou o panorama atual do ensino médico no Brasil: de 115 escolas em 2002, o Brasil saltou para 494 instituições em 2025. A preocupação central reside na infraestrutura, já que 78% das escolas que sediam cursos de medicina não possuem as condições mínimas necessárias, como hospitais de ensino, laboratórios de anatomia e equipes de atenção primária adequadas.
Outro ponto crítico levantado na reunião foi a defasagem entre o número de formandos (cerca de 50 mil por ano) e as vagas de residência médica (aproximadamente 25 mil), o que lança anualmente no mercado milhares de médicos generalistas sem especialização.
ProfiMed
Para enfrentar a queda na qualidade da formação, o CFM trabalha na implementação do ProfiMed. O exame, que já conta com apoio de 90% dos médicos e 96% da população brasileira, terá duas etapas fundamentais:
1- Avaliação de Conhecimento: prova objetiva de múltipla escolha.
2- Avaliação de Habilidades e Atitudes: Utilização do modelo VOSCE (Virtual Objective Structured Clinical Examination – Exame Clínico Objetivo Estruturado Virtual).
Diferente do sistema canadense, que exige exames rigorosos após a graduação e após a residência para a obtenção da licença profissional para a atuação médica, no Brasil o registro médico é atualmente concedido de forma vitalícia logo após a faculdade.
A partir disso, houve uma discussão sobre modelos de avaliação de competências médicas, especialmente em contextos que envolvem múltiplas etapas de verificação de habilidades. No Canadá, o processo inclui uma segunda fase avaliativa, aplicada após a formação, com foco prático e na aferição da capacidade clínica dos profissionais.
Parceria com o Royal College
A diretoria do CFM reforçou a importância do suporte técnico do Royal College na elaboração da matriz de competências e no desenvolvimento dos testes. No Canadá, o sistema é estritamente regulado pelo governo e por instituições como o Royal College, garantindo que ninguém pratique a medicina de forma independente sem a devida residência e certificação.
“No Canadá, sabemos que não temos todas as respostas, mas temos muita vivência para compartilhar e esperamos trocar conhecimentos para apoiar a melhoria da educação médica em todo o mundo. Atualmente, o Royal College possui parcerias com cerca de 30 países, incluindo muitos na América Latina, como o próprio Brasil.”, disse Tai Telesco, líder de Sistemas de Saúde e Parcerias Internacionais do Royal College.
O diretor tesoureiro do CFM, Mauro Ribeiro, destacou a necessidade de proteger o exame de interferências externas e garantir que a avaliação reflita a realidade da prática médica de excelência. “O intercâmbio com instituições de renome como o Royal College garante que o Profimed nasça com independência técnica e credibilidade internacional. O exame deve ser a referência de que o médico possui o mínimo de competência para exercer a profissão com ética e segurança em qualquer cenário”, ressaltou Ribeiro.
Profimed do CFM recebe o apoio da ANM
O Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed) é necessário e deve ser realizado sob a coordenação do Conselho Federal de Medicina (CFM). Esta é a posição da Academia Nacional de Medicina (ANM), que divulgou nesta segunda-feira (30) uma nota de apoio ao exame, previsto para ser implementado no Projeto de Lei nº 2.294/24, em tramitação no Senado Federal.
Acesse AQUI a nota da ANM.
A ANM argumenta que nos últimos anos foi observado no Brasil uma expansão significativa de escolas médicas, “nem sempre acompanhada da necessária garantia de qualidade”. Para a entidade bicentenária, há uma acentuada heterogeneidade na formação, com centros de excelência de um lado e, do outro, cursos que enfrentam limitações relevantes quando ao corpo docente, aos cenários de prática e à integração com o sistema de saúde.
“Tal desigualdade transcende o âmbito acadêmico e representa potencial risco à assistência prestada à população”, alerta a ANM na nota. Nesse contexto, a entidade defende a implementação de exame nacional único ao final do curso de medicina, destinado a avaliar, de forma padronizada, se os egressos atingiram competência necessária ao exercício profissional e a ser “realizado sob a coordenação do Conselho Federal de Medicina”.
Além do Profimed, a ANM defende o fortalecimento dos processos de acreditação e reavaliação periódica das escolas médicas, a valorização do corpo docente, a integração qualificada entre ensino e prática assistencial e a atualização curricular.
“A Academia Nacional de Medicina ressalta que o desafio do ensino médico ultrapassa a esfera educacional, configurando-se como questão ética, social e civilizatória. Preservar e renovar a tradição da medicina brasileira exige compromisso coletivo, responsabilidade institucional e visão de futuro (…) Formar bem médicos é garantir melhor cuidado à sociedade brasileira”, conclui a nota da ANM.
Para o CFM, o apoio da ANM ao Profimed é mais uma demonstração da unidade da classe médica em prol da qualidade da formação dos médicos brasileiros e da saúde da população.
Fonte: CFM, em 31.03.2026