Luis Stuhlberger, da Verde Asset, e Pedro Parente, da eB Capital, compartilharam expectativas, falaram de desafios que o próximo governo enfrentará e salientaram como ESG vem ganhando força
Há perspectivas positivas para o cenário econômico brasileiro ainda neste ano, como o aumento no PIB e a redução do desemprego, mas há também pontos de cautela. E, indo além do financeiro, empresas comprometidas com boas práticas ambientais, sociais e de governança atraem investimentos. Foram esses alguns dos principais pontos levantados por Luis Stuhlberger, CEO e CIO da Verde Asset, e Pedro Parente, cofundador e sócio da eB Capital, durante o MKBR22, evento organizado pela ANBIMA e pela B3, nesta terça-feira, dia 20, em São Paulo.

Presidentes da B3 e da ANBIMA, Stuhlberger e Parente veem perspectivas positivas para o cenário econômico brasileiro
Para Stuhlberger, a expectativa de o PIB fechar com aumento de 3% “surpreendeu até os mais céticos” e a formação bruta de capital fixo subindo por meio da iniciativa privada mostra que os investimentos estão acontecendo. Ele destacou ainda a taxa de 9% de desemprego. “O que é mais preocupante do lado ruim é a gente ter ficado refém do populismo, com austeridade fiscal e o teto de gastos como inimigo público do Brasil. Quando as reformas do [Michel] Temer e do [Jair] Bolsonaro foram feitas, como a trabalhista, da previdência e do teto de gastos, foi prometido que passaríamos por momento difícil e depois iríamos crescer, mas, como crescimento não veio, hoje, ficou isso de que governar é gastar”, disse. Stuhlberger acrescentou que, se eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, pretende reativar investimentos públicos a exemplo do que o candidato do Partido dos Trabalhadores já fez no passado.
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Visão internacional e ESG – Ambos os debatedores compartilharam a opinião de que o Brasil pode voltar aos holofotes dos investidores estrangeiros. Parente destacou que, no caso da vitória de Lula, a relação com a China deve melhorar. “Isso é algo extremamente relevante, porque o Brasil vive um momento que tem oportunidade única, a luz da guerra entre Rússia e Ucrânia, de recuperar a atratividade do Brasil como escolha de investimentos”, disse, explicando que o Brasil tem condições de atender à alta demanda por alimentos e, em especial, por proteína animal e “sem derrubar árvore”.
Para Luis Stuhlberger, da Verde Asset, o aceno moderado com a China, caso o Lula ganhe, pode representar ganhos para o Brasil. Segundo Parente, a preocupação do agronegócio com Lula é a instabilidade de inovações em áreas produtivas.
Com relação às pautas ESG, tanto Parente quanto Stuhlberger, apontaram que o mercado acena positivamente a empresas com práticas sustentáveis, sociais e de boa governança. “Não tenho dúvidas de que a pauta está aí para ficar, mas existe um longo estágio para a crença verdadeira do setor empresarial como um todo nesta pauta”, disse Parente. “Estamos inseridos e acreditamos nisso como gestor de portfólio de ações listadas, mas no Brasil não temos tantas opções assim”, acrescentou Stuhlberger.
Agenda do MKBR22
MKBR22: Favoritismo nas pesquisas eleitorais não é garantia de vitória
Analistas políticos apontam números favoráveis ao candidato Lula, mas lembram dificuldade de prever como abstenções, voto útil e melhora econômica impactam na reta final da campanha
A pouco mais de 10 dias para o primeiro turno das eleições presidenciais, a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) segue com uma boa margem nas pesquisas eleitorais em favor do petista, mas sem que isto possa sugerir uma vitória já no primeiro turno. Temas relevantes no debate, como a melhora recente da economia, que pode favorecer Bolsonaro na reta final, e a dificuldade de medir o eventual impacto do voto útil e das abstenções no resultado do pleito deixam especialistas ainda cautelosos ao prever um resultado.
Na visão dos cientistas políticos, não há espaço para surpresas fora da polarização. “A terceira via não se organizou para se tornar competitiva, não se esforçou em tempo hábil para isto. O que temos de concreto é hoje um certo favoritismo do candidato Lula. No dia da eleição serão 135 milhões de brasileiros apertando o botão para decidir o próximo candidato”, comenta Silvio Cascione, diretor da consultoria Eurasia, em painel no MKBR22. Ele acrescenta que pesa a rejeição que Bolsonaro construiu ao longo de quatro anos, principalmente junto ao eleitorado feminino.

Lucas Aragão, da Arko Advice (centro), e Sivio Cascione, da Eurasia (dir), participaram do painel "Eleições 22: o que nos aguarda em outubro?", mediado pela jornalista Thais Oyama.
A dificuldade em apontar um possível vencedor, diz Cascione, se sustenta também pelo histórico do Brasil em eleições. “Tivemos um eleito para caçar marajás, desconhecido, depois um PHD formado na Sorbonne, na sequência um presidente quase sem instrução formal, mas muito popular, depois elegemos uma mulher, e na última um capitão do Exército. Tem um favoritismo sim de Lula, mas com tanta polarização só o dia do voto vai decidir.”
O discurso de Lucas de Aragão, sócio da Arko Advice, vai na mesma direção. “O favoritismo de Lula está posto, mas o Bolsonaro segue na disputa. Para virar o jogo precisa de fatos. A economia está melhorando e sempre foi tema relevante das campanhas o que ao lado dos estímulos monetários pode reservar alguma surpresa na reta final”, comenta Aragão.
Abstenção e voto útil no radar
O voto útil, que ajudou a eleger Jair Bolsonaro, agora tem sido relevante nos indicadores em favor do candidato do PT. A dúvida, apontam os especialistas, é se ainda há margem para que Lula cresça mais na reta final. “Em agosto, a Arko realizou uma pesquisa que apontou que 53% de quem votou no Ciro Gomes (PDT) em 2018 já havia decidido votar agora no Lula, já no primeiro turno. Isto indicava que boa parte do voto útil já está computado nos índices de Lula nas pesquisas. Difícil saber se ainda tem voto útil a disputar”, comenta Aragão.
Por outro lado, aponta o cientista, pesquisas mostram que o eleitor de Lula tem menos vontade de votar do que o de Bolsonaro, o que pode elevar as abstenções.
Para os dois cientistas políticos não há risco de uma ruptura institucional, mesmo que haja questionamentos no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a respeito do resultado ou algum ato de violência localizado. “Violência sempre preocupa, mas se ocorrer será algo isolado, radicalizações pontuais e apenas isto”, diz Cascione.
Independentemente de quem for o eleito, a dificuldade de formar uma coalisão para governar em um Congresso com partidos fragmentados será uma constante. Aragão lembra que o Congresso tem cada vez mais poder. “Hoje os vetos presidenciais vão a voto e, se não forem votados, trancam a pauta. Além disso os partidos não punem mais quem vota contra a orientação, ou seja, tudo muito mais difícil para o governo.”
Cascione observa que qualquer eleito terá que negociar com as moedas de troca conhecidas, como espaço nos ministérios e apoio a emendas. “Os primeiros seis meses são importantes para o governo formar uma base, se organizar porque depois a popularidade do eleito cai e o Congresso passa a pedir mais. É sempre assim. O PT sabe que se Lula for eleito não terá tanta margem política e econômica e, por isso, Geraldo Alckmin é o vice.”
O futuro de Jair Bolsonaro
Mesmo que não consiga se reeleger, afirmam especialistas, Bolsonaro deve seguir relevante no mundo político e será o candidato natural a uma oposição em 2026. “Diferente de Lula que tem um partido, o Bolsonaro não tem, isto é ruim, não ter uma casa faz com que ele não participe do debate econômico e político, mas, mesmo assim, terá seu espaço”, comenta Aragão. Ele vê como positivo novos nomes ao centro que começam a surgir, citando Romeu Zema (Partido Novo), ACM Neto (União Brasil), Eduardo Leite (PSDB).
MKBR22: Olivier Blanchard avalia inflação e taxas de juros nos EUA e na Europa
Ao abrir o MKBR, o ex-economista-chefe do FMI explicou o cenário econômico, ponderando situação pós-covid e com guerra na Ucrânia
Quatro fatores têm determinado o que está acontecendo com a inflação, destacou Olivier Blanchard, que foi economista-chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional), ao palestrar no primeiro dia do MKBR 22, evento organizado pela ANBIMA e pela B3, nesta terça-feira, 20, em São Paulo. O economista francês falou sobre inflação e taxas de juros nos Estados Unidos e na Europa, temas que têm sido suas principais áreas de atuação.
O primeiro fator é o superaquecimento da economia, que reflete nas taxas de desemprego. O segundo está ligado aos efeitos diretos dos preços de energia e de commodities, com ruptura de estoque e interrupções nas cadeias de suprimentos. O terceiro é o chamado efeito secundário, pois, uma vez que os preços da energia subiram, as empresas passaram a usar insumos intermediários produzidos com energias mais caras, o que impacta em aumento de preços. E o quarto e último fator é a ancoragem de expectativas no longo prazo.
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Olivier Blanchard conversou com Ana Paula Vescovi do Santander
“Você tem esses quatro fatores nesta fase, e a questão é como eles vão se somar e quais serão os resultados”, ressaltou. Para os Estados Unidos, acrescentou o economista, uma boa notícia no curto prazo é o fato de os preços das commodities estarem caindo, o que levará a uma queda na inflação. Já na Europa, a questão tende a ser diferente, com inflação geral não tão boa.
Traduzindo o que isso significa e implica para as taxas de juros e um possível risco de recessão para os dois lados do oceano, Blanchard disse que, em geral, uma situação como essa tende a desacelerar a inflação. “Para se livrar da inflação, você precisa de alguma diminuição na atividade. Agora, existem duas maneiras pelas quais você obtém uma diminuição na atividade. Pode ser que a demanda diminua por conta própria e, nesse caso, o banco central não precisa fazer muita coisa, porque simplesmente acontece, e, assim, não precisa aumentar muito as taxas de juros. Ou pode ser que a demanda seja muito forte e, então, o banco central tem realmente que usar as taxas de juros como freios para desacelerar a economia”, detalhou.
Nos Estados Unidos, o antigo economista-chefe do FMI explicou que, apesar de estar acontecendo uma consolidação fiscal, as pessoas acumularam muitas economias, estão gastando e não há nenhum sinal nesta fase de que a economia esteja desacelerando. “Minha impressão é que a economia está forte; nesse caso, o que vai ter que acontecer é que, se a demanda não desacelerar por conta própria, o FED vai ter de aumentar as taxas de juros”, apontou.
Com relação à Europa, o ajuste necessário de demanda é menor, facilitando, segundo Blanchard, o trabalho do BCE (Banco Central Europeu). Outro ponto que ajuda é que o mercado de trabalho não é tão organizado quanto nos Estados Unidos, o que diminui a chance de reajustes por conta da inflação. Ele disse acreditar na possibilidade de que a demanda diminua por conta própria, devido à incerteza na Ucrânia, à preocupação com energia e à perda de poder aquisitivo da renda real, que foi parcialmente compensada por medidas fiscais dos governos. Além disso, a valorização do dólar contribuiu para a diminuição da renda na Europa. “Eu acho que há uma boa chance de que a demanda desacelere por conta própria. O BCE tem um trabalho mais fácil, não precisando aumentar muito as taxas de juros. Ele não precisa fazer isso para ter uma grande diminuição na demanda em primeiro lugar.”
MKBR22: importância das novas tecnologias para o mercado é destaque na abertura do evento
Temas como blockchain, metaverso, política e muitos outros marcarão os três dias do congresso este ano
O debate de temas que impactam a diferentes atores do mercado e a sociedade marcou os discursos de abertura do MKBR22, maior evento do mercado de capitais promovido em parceria com a B3, nesta terça-feira, na capital paulista.
O presidente da B3, Gilson Finkelsztain, destacou a relevância do formato híbrido do MKBR22 para que o tradicional evento, que no passado reunia algo entre 600 e 800 participantes, chegue a milhares de pessoas. “É muito importante o alcance cada vez maior do evento, que neste ano também lança uma nova marca, o MKBR, que era o antigo Congresso ANBIMA, agora mais amplo em termos de participantes e de temas relevantes para o Brasil, a economia e a sociedade”, comentou o executivo.

Gilson Finkelsztain e Carlos André abriram o MKBR22, evento que substitui o tradicional Congresso Brasileiro de Mercado de Capitais
O presidente da ANBIMA, Carlos André, fez coro ao destacar assuntos a serem abordados nos próximos dias, relevantes para toda a sociedade, citando ainda que a união da B3 com a ANBIMA é importante porque são vozes de peso “abordando temas importantes para o desenvolvimento do mercado de capitais, para a economia e a sociedade”. O executivo mencionou o espaço para as novas tecnologias que impactam a sociedade e o mercado como blockchain e metaverso.
Na visão deles, reflexões econômicas e sociais do que teremos pela frente, nos próximos anos, não ficam de lado. A ANBIMA e a B3 têm papéis atuantes e são interessadas em acompanhar e influenciar grandes temas do Brasil e do mercado.
Fonte: Anbima, em 20.09.2022.