Avaliação clínica é a principal aliada contra a dor na coluna

A dor na coluna vertebral é uma das queixas mais frequentes na prática médica e nos serviços de pronto atendimento, representando um importante desafio diagnóstico e terapêutico. Na maioria dos casos, entre 90% e 95%, trata-se de dor de origem mecânica e inespecífica, com boa evolução clínica quando conduzida de forma adequada. Ainda assim, uma pequena parcela pode estar relacionada a condições graves que exigem investigação imediata.
O tema foi debatido hoje, durante o 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da AMB (4º CBMG), realizado em São Paulo, reunindo especialistas para discutir os principais desafios relacionados ao diagnóstico, à identificação de sinais de alerta e às estratégias mais atuais para o manejo da dor na coluna vertebral.
Durante as discussões, os especialistas reforçaram a importância da avaliação clínica criteriosa, baseada principalmente na anamnese e no exame físico, como pilares fundamentais para a condução adequada desses pacientes. A interpretação dos exames de imagem também foi destacada como etapa essencial, já que muitos achados podem não ter relação direta com os sintomas apresentados.
O tema contou com a participação do Dr. Miguel Akkari, presidente eleito da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) 2026, que destacou a relevância da correta identificação dos padrões de dor na coluna e seu impacto na tomada de decisão clínica.
A dra. Fernanda Silber Caffaro, diretora do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de São Paulo – Pavilhão Fernandinho Simonsen e membro Titular da Sociedade Brasileira de Coluna e da SBOT, falou sobre a necessidade de integrar achados clínicos e exames complementares, evitando interpretações isoladas. Também comentou a importância da análise biomecânica e de ferramentas modernas de avaliação funcional, incluindo dispositivos vestíveis, especialmente em atletas e indivíduos com alta demanda física.
Já o Dr. Renato Hiroshi Salvioni Ueta, chefe do Grupo da Coluna do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Escola Paulista de Medicina da UNIFESP (2016–2022), abordou os principais sinais de alerta associados à dor na coluna. Ele reforçou que a identificação de “red flags” é fundamental para diferenciar quadros benignos de condições potencialmente graves, como tumores, infecções, fraturas e síndromes neurológicas, especialmente em idosos.
O especialista lembrou ainda que a dor na coluna tem alta prevalência, podendo atingir até 80% da população mundial ao longo da vida, o que reforça seu impacto em saúde pública.
No manejo clínico, o Dr. Robert Meves, chefe do Grupo de Coluna da Santa Casa de São Paulo, destacou que a maioria dos pacientes evolui bem com tratamento conservador, baseado em orientação, reabilitação e fortalecimento muscular. Destacou que a anamnese e o exame físico continuam sendo ferramentas essenciais para a tomada de decisão, mesmo diante dos avanços em exames complementares.
Ainda foi reforçado que a lombalgia permanece entre as principais causas de absenteísmo laboral, enquanto a dor cervical se destaca como uma das queixas mais comuns na prática médica. Os especialistas também foi enfatizaram a importância de estratégias de prevenção na atenção primária, com foco em educação em saúde, ergonomia e atividade física, além da atenção às quedas em idosos como fator relevante de morbimortalidade.
Diretriz de Dislipidemia 2025 destaca metas mais intensivas e reforço no controle do risco cardiovascular
O 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral (CBMG), promovido pela AMB no Distrito Anhembi (SP), promove até 13 de junho uma série de debates relevantes na área da Medicina Geral. No primeiro dia do evento, um dos destaques foi a atualização da Diretriz de Dislipidemia 2025, com foco em metas mais rigorosas de controle lipídico, estratificação de risco e estratégias terapêuticas mais intensivas.
A coordenação do painel esteve sob responsabilidade do Dr. Bento José Bezerra Neto, presidente da Associação Médica de Pernambuco (AMB-PE) e vice-presidente da AMB para o Nordeste, ao lado do Dr. Álvaro Avezum Júnior, coordenador do Comitê de Pesquisa e Inovação da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
“A atualização da diretriz reforça a importância de estratégias mais precoces e intensivas no controle do risco cardiovascular, diante do aumento da carga das doenças ateroscleróticas na população”, afirmou o Dr. Bento.
Com o tema “Estratificação de risco e metas”, o Dr. Márcio Hiroshi Miname, médico assistente da Unidade Clínica de Lípides do InCor-HC-FMUSP, destacou a importância da identificação precisa do risco cardiovascular, reforçando que pacientes com fatores como hipertensão, diabetes e doença renal crônica devem ser classificados como de alto ou muito alto risco. Segundo ele, a abordagem terapêutica deve buscar reduções expressivas de LDL-colesterol, frequentemente superiores a 50%.
O Dr. Fernando Henpin Yue Cesena, cardiologista do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (SP), ressaltou que o colesterol permanece como um dos principais determinantes do risco aterotrombótico, ao lado dos triglicérides. Ele reforçou o papel central das estatinas como base do tratamento, com benefícios consistentes na redução de infarto, acidente vascular cerebral e trombose, superando possíveis eventos adversos. Também foram discutidas estratégias não farmacológicas e terapias complementares.
Sobre o “Manejo da intolerância à estatina”, o Dr. Remo Holanda de Mendonça Furtado, diretor de Pesquisa Clínica no Brazilian Clinical Research Institute e médico assistente da Universidade de São Paulo, enfatizou que a intolerância às estatinas é frequentemente superestimada, com grande parte dos casos não confirmados em estudos controlados. Destacou fatores precipitantes como hipotireoidismo e consumo de álcool, além da importância do diagnóstico diferencial. Também mencionou avanços terapêuticos recentes e o papel de exames de imagem, como a avaliação de carótidas e a tomografia de coronárias, na estratificação de risco.
O debate reforçou a integração entre evidências científicas e prática clínica. Os participantes destacaram que a diretriz atualizada traz maior precisão na definição de metas, com redução mais intensiva do LDL-colesterol em pacientes de alto risco e maior valorização do não-HDL como marcador complementar.
Psiquiatria forense estabelece os limites da normalidade mental e da loucura: “o condutopata é sempre egoísta”, afirma Guido Palomba

A empatia, a identidade com o outro, o sentimento de compaixão, de piedade, de altruísmo são expressões que se encontram fora do entendimento de psicopatas, ou condutopatas, que protagonizam crimes. Segundo o psiquiatra forense Guido Palomba, essas pessoas “só pensam no que interessa a elas e nada mais, o que faz com que sejam absolutamente egoístas”.
Palomba palestrou na manhã desta quinta-feira (11) sobre o tema “Conceito de normalidade mental existe? Qual é?”, no primeiro dia de trabalhos do 4º Congresso de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (AMB), realizado no Anhembi, em São Paulo.
O evento foi coordenado pelo presidente da AMB, Cesar Eduardo Fernandes, que destacou o “brilhantismo” da abordagem de Palomba. “A mim, o que mais me encanta é um médico falar como médico. Há muitas ferramentas, mas nós não somos vítimas dessas ferramentas”, afirmou, em crítica aos protocolos de diagnóstico, que atualmente levam por exemplo a um excesso de classificações de pessoas como autistas.

A psiquiatria forense é uma especialidade que auxilia o sistema de justiça e seus especialistas realizam perícias para avaliar a capacidade mental de pessoas envolvidas em processos judiciais. O médico Guido Palomba é referência nesse campo. Ele atuou em casos de grande repercussão, como os de Suzane Von Richthofen, a chacina da família Bovo Pesseghini, em 2013, e o caso de tortura e homicídio do menino Henry Borel, em 2021, pelo ex-vereador do Rio de Janeiro Jairo Souza Santos Júnior (Dr. Jairinho).
Na sua exposição, Palomba fez uma retrospectiva da abordagem de corpo e alma na história da medicina para defender que é preciso lidar com o ser humano integral. Ele também explicou que entre a doença mental, como a esquizofrenia, e a pessoa normal, sem patologias de estreitamento da consciência, há um espaço intermediário, ou fronteiriço, onde se inserem as pessoas que têm comportamento anômalo, sem os freios éticos e morais que no dia a dia guiam as nossas escolhas.
Esse é o caso de psicóticos, ou condutopatas, que a princípio parecem seguir os padrões das normas sociais de comportamento, já que mantêm laços com a realidade.
“É fácil saber o que é um doente mental para dar um diagnóstico”, afirmou, referindo-se ao fato de que essa pessoa rompe com os ditames da realidade, escapando para delírios de perseguição, por exemplo, entre outras possibilidades, que nada têm a ver com a situação vivida.
Já no caso do psicótico ou do condutopata, como prefere Palomba, falta a consideração do outro, ou da empatia que regula as relações sociais. Essa falta de referência ao outro faz com que o condutopata não tenha arrependimento dos crimes cometidos. “Ele joga a culpa de seus atos no outro”, afirma o médico.
Palomba afirmou que essa ausência de culpa foi patente no caso de Suzane Von Richtofen que depois de matar os pais a pauladas com o auxílio de “dois laranjas” foi para o motel relaxar e beber vinho. Outro exemplo, lembrou, foi o caso de Elize Araújo Kitano Matsunaga, que esquartejou o marido e ao transportar o corpo em seu carro em alta velocidade para ocultá-lo foi abordada um guarda de trânsito, que não percebeu nada em função de sua insensibilidade e frieza. “São pessoas geladas”, afirmou.
Para o médico, os crimes de condutopatas e doentes mentais são sempre bizarros. É um universo bastante distinto daquela pessoa que, por exemplo, não tem dinheiro, tem fome e vai bater uma carteira, ou algo que o valha, para resolver sua sobrevivência.
Critico também ao excesso de domínio de protocolos que norteiam os diagnósticos de sanidade mental, Palomba termina com uma referência ao psiquiatra e psicoterapeuta Carl Gustav Jung (1875-1961): “Domine todas as técnicas, mas quando tocar uma alma humana, seja apenas uma alma humana”.

Muito além do CRM: o que os jovens médicos precisam construir para o futuro da carreira

A formação médica contemporânea precisa mais do que técnica e inovação. Em meio ao aumento expressivo do número de escolas médicas, à competitividade crescente e às novas exigências do mercado de trabalho, jovens médicos e estudantes têm sido desafiados a repensar o que significa, de fato, construir uma carreira sólida.
Esse foi o eixo central do painel “Além do CRM: Construindo a carreira do médico jovem”, realizado pela Comissão Nacional do Médico Jovem (CNMJ), da Associação Médica Brasileira (AMB), durante programação do 4º CBMG.
A coordenação esteve a cargo do Dr. Zeus Tristão dos Santos, presidente da CNMJ da AMB, e da Dra. Ana Cristina Ribeiro Zollner, responsável pela Residência Médica da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), reforçando a integração entre entidades médicas e a formação de novas lideranças.
Logo no início das discussões, ficou evidente um ponto de convergência entre os palestrantes: a distância entre o volume de informação disponível e a capacidade real de absorção pelos estudantes de Medicina.
O Dr. Marcos Aurélio Silva Oliveira, diretor de Projetos acadêmico-científicos da CNMJ e membro do Núcleo de Atuação Parlamentar da AMB, chamou atenção para esse paradoxo. Segundo ele, o estudante contemporâneo vive sob uma pressão constante de produtividade, tentando equilibrar graduação, produção científica e atividades extracurriculares em um tempo cada vez mais escasso. Para ele, porém, o risco está justamente no excesso.
A ideia de que tudo precisa ser feito ao mesmo tempo, observou, tem levado muitos estudantes ao limite. A construção de carreira, nesse sentido, passa também por escolhas e por renúncias.
Esse mesmo equilíbrio apareceu na fala sobre saúde mental e competências comportamentais. O Dr. Ângelo Fajardo Almeida, coordenador da CNMJ-AMRIGS, reforçou que o desempenho médico não se sustenta apenas no conhecimento técnico. Habilidades como empatia, comunicação, resiliência e trabalho em equipe, afirmou, são determinantes no exercício da profissão, e, muitas vezes, negligenciadas durante a formação.
Também chamou atenção para o impacto crescente do esgotamento emocional entre jovens médicos e estudantes, destacando que o burnout já se tornou uma realidade presente na rotina acadêmica e profissional.
Na mesma linha de formação ampliada, o debate sobre experiências extracurriculares trouxe as atléticas universitárias como um espaço relevante de desenvolvimento. O Dr. Pedro Pires Mayer Milanez, coordenador de Projetos com Atléticas e Esportes da CNMJ, ressaltou que esses ambientes extrapolam o caráter esportivo e funcionam como laboratório de habilidades humanas.
Liderança, tomada de decisão sob pressão, convivência em equipe e inteligência emocional, segundo ele, são competências frequentemente desenvolvidas nessas vivências e que acabam acompanhando o médico ao longo da carreira.
Futuro profissional
O olhar para o futuro profissional foi abordado pelo Dr. Caio Botelho Brito, especialista em Gestão da Qualidade e Segurança do Paciente e conselheiro suplente do CRM-PA. Ele comentou que a construção de carreira começa muito antes da residência médica e que o mercado exige cada vez mais preparo precoce.
Produção científica, participação em projetos, construção de rede de contatos e busca por mentores foram apontadas como peças fundamentais dessa trajetória. Em um cenário de alta competitividade, ressaltou, não basta apenas concluir a graduação – é preciso construir percurso.
A dimensão mais institucional e emocional do encontro foi apresentada pela vice-presidente da CNMJ, Dra. Amanda Stephanie Sousa dos Santos, e o Dr. Lucas de Brito Costa, vice-presidente da Associação dos Médicos Residentes do Estado de São Paulo, que destacaram o papel do associativismo como espaço de acolhimento e construção coletiva entre médicos jovens.
“O associativismo nos transformou em uma família. A CNMJ está aqui para mostrar que os médicos jovens e os futuros médicos terão apoio. Independentemente do estado ou da especialidade, os desafios são muito semelhantes, e ninguém precisa enfrentá-los sozinho”, disse a médica.
Ao final, o Dr. Zeus Tristão dos Santos reforçou a ampliação da representatividade nacional da CNMJ e o avanço dos projetos desenvolvidos pela comissão.
“Tínhamos uma concentração de profissionais no Sudeste. Hoje temos jovem médicos do Nordeste, do Sul e de várias regiões do país participando ativamente da CNMJ. Ver ideias saindo do papel e se tornando projetos reais é o que dá sentido a esse movimento. O associativismo existe para fortalecer a nossa profissão e apoiar quem está começando.”
Diagnóstico da anemia é fundamental para o sucesso das estratégias de gerenciamento do sangue

O diagnóstico da anemia é uma ação fundamental para otimizar as estratégias de gerenciamento de sangue em pacientes. Com base nesse conceito, o médico Carlos Eduardo Panfilio, especialista em Gerenciamento de Sangue do Paciente (PBM – Patient Blood Management, na sigla em inglês) defende que a partir do diagnóstico os outros pilares ou desfechos da abordagem da PBM tornam-se mais fáceis.
Panfilio coordenou os debates sobre ‘Gerenciamento do Sangue no Paciente’, na manhã desta quinta-feira (11), primeiro dia do 4º Congresso de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (AMB), realizado no Distrito Anhembi, em São Paulo.
Ao defender a importância do diagnóstico, os especialistas lembram que 30% da população mundial, quase 2 bilhões de pessoas no mundo, são anêmicas. “Diante de qualquer profissional de saúde, essa porcentagem é um número razoável. Então, se você trabalhar o primeiro pilar corretamente, ou seja, diagnosticar e tratar essa anemia, os outros pilares, os desfechos, são bem melhores”, afirma Panfilio.
Hoje, as doações de sangue têm caído, em média, de 4% a 6% ao ano. O uso racional de sangue é muito importante. Em 2036, a expectativa de vida do Brasil é que haja um colapso entre doadores e estoque de sangue. Quem mais vai precisar – no caso os idosos, não vai mais poder doar. O sangue é um recurso finito, e como o petróleo, o sangue é uma commodity extremamente cara para empresas.
PMB
O PBM é um programa com 38 estratégias divididas em três pilares: otimização da eritropoiese e prevenção da anemia; minimização da perda sanguínea e aumento da tolerância à anemia. Desde o seu surgimento em 2008, a ciência vem mostrando que hoje não transfundir ou o uso racional de sangue é muito mais eficaz do que a própria transfusão de sangue.
A pesquisadora da Escola Paulista de Medicina Unifesp, Isabel Cristina Céspedes, diz que o PBM vai além da transfusão: é uma realidade internacional e uma nova linha de cuidado que melhora desfechos clínicos, reduz tempo de internação, diminui infecções, mortalidade e ainda tem impacto direto nos custos hospitalares.
“Hoje na medicina há uma mudança de conceito, que é usar o sangue da própria pessoa, esse é um fundamento do PBM”, completou Isabel.
Já a Dra. Maria Stella de Figueiredo, renomada hematologista e professora titular da UNIFESP, defende que o Patient Blood Management é um divisor de águas fundamental na medicina moderna, transformando a forma como a hematologia e a hemoterapia enxergam as transfusões de sangue.
A especialista em transplante de fígado e cirurgia do aparelho digestivo na EPM/UNIFESP, Dra. Barbara Burza Benini defende que o Patient Blood Management (PBM) deve ser encarado como um pilar central na segurança e no cuidado cirúrgico. A médica destaca que o gerenciamento do sangue não é apenas uma prática de hematologia, mas sim uma estratégia cirúrgica multidisciplinar essencial.
“A cirurgia é um movimento que usa o hospital inteiro. É como se fosse uma dança, tem que coordenar as partes para trazer uma mesma ideia. O paciente vem com uma anemia, faz-se necessário entender qual é o seu estado real. Será que ele precisa de sangue mesmo quando tem um HB Basal (quantidade de hemoglobina no sangue) mais baixo?”, questiona Benini.
Atualização contínua e foco no paciente são essenciais para a atuação do médico generalista

Na manhã do primeiro dia do 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral (CBMG), promovido pela Associação Médica Brasileira (AMB), em São Paulo, a Clínica Médica foi um dos destaques da programação. Especialistas de diferentes áreas discutiram temas essenciais para a prática do médico generalista, reforçando a importância da atualização contínua e de um olhar abrangente para o atendimento de pacientes em diferentes níveis de complexidade.
A programação foi coordenada pelo Dr. Fernando Sabia Tallo, diretor-tesoureiro da Associação Médica Brasileira (AMB), e pelo Dr. Carlos Vicente Serrano Júnior, diretor de Relações Internacionais da AMB.
Na abertura da sessão, Serrano Júnior destacou a relevância do evento para o fortalecimento da Medicina Geral no país.
“É uma honra participar do CBMG. Eventos como este fortalecem a formação médica, promovem a atualização científica e valorizam o papel do médico generalista como peça fundamental na assistência à saúde da população”, afirmou.
Durante sua participação, Tallo ressaltou a necessidade de fortalecer a formação médica no Brasil, com foco na qualidade do ensino e no planejamento adequado da formação de especialistas.
“O fortalecimento da Clínica Médica é fundamental para a assistência hospitalar e para o atendimento de pacientes complexos. Precisamos investir em formação de qualidade e em um planejamento mais eficiente da residência médica para garantir um sistema de saúde mais preparado para os desafios atuais e futuros”, destacou.
Emergências hematológicas exigem reconhecimento precoce
A Dra. Tereza Cristina de Brito Azevedo, especialista em Clínica Médica, Hematologia e Hemoterapia, apresentou as principais urgências e emergências hematológicas que o médico generalista deve conhecer. Segundo a especialista, muitas dessas condições têm como porta de entrada os serviços de urgência e emergência, tornando o reconhecimento precoce decisivo para o prognóstico dos pacientes.
“Quem atende inicialmente emergências como a neutropenia febril é, na maioria das vezes, o médico generalista. O reconhecimento rápido e o início do tratamento adequado nas primeiras horas fazem toda a diferença”, ressaltou.

Novas diretrizes ampliam o olhar sobre a hipertensão arterial
As atualizações trazidas pelas novas diretrizes brasileiras e americanas, publicadas recentemente, evidenciam a necessidade de um controle cada vez mais rigoroso dos níveis pressóricos. A avaliação foi apresentada pelo Dr. Wallace André Pedro da Silva, presidente da Associação de Medicina Intensiva do Tocantins (AMIB-TO) e da Associação Médica do Tocantins.
Segundo o especialista, a hipertensão arterial continua sendo um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares e um dos maiores desafios de saúde pública. Dados apresentados durante a palestra mostram que cerca de 38% da população brasileira vive com hipertensão arterial e que aproximadamente 60% desses pacientes não mantêm a doença sob controle adequado.
Wallace reforçou que as medidas não medicamentosas permanecem como base do tratamento, incluindo alimentação saudável, prática regular de atividade física, controle do peso corporal, redução do consumo de álcool e abandono do tabagismo.
Outro ponto enfatizado foi a importância da aferição correta da pressão arterial e da realização dos exames de Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) e Monitorização Residencial da Pressão Arterial (MRPA) para o diagnóstico e acompanhamento dos diferentes fenótipos da hipertensão, como a hipertensão do avental branco e a hipertensão mascarada. Apesar dos avanços diagnósticos, o especialista destacou que a anamnese continua sendo um dos principais pilares da avaliação clínica.
Diplopia pode sinalizar condições neurológicas graves
O Dr. João Cláudio da Costa Urbano, neurologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), abordou a diplopia e os principais aspectos que o médico generalista deve considerar durante a avaliação inicial desses pacientes.
O médico explicou que a avaliação neurológica cuidadosa é indispensável para identificar situações potencialmente graves, como compressões nervosas secundárias a aneurismas intracranianos.
“A diplopia pode ser o primeiro sinal de doenças neurológicas importantes. Reconhecer os sinais de alerta é fundamental para garantir um diagnóstico precoce e evitar desfechos mais graves”, finalizou.
Auditoria médica deve proteger o paciente e valorizar a atuação técnica do médico, defendem especialistas
Ao final da manhã do primeiro dia do 4º Congresso de Medicina Geral da AMB, a sessão “Auditoria Médica” discutiu temas ligados à segurança do paciente, às prerrogativas médicas e ao papel do auditor na relação entre médicos assistentes, operadoras de saúde e instituições.
A atividade foi coordenada pelo Dr. José Eduardo Lutaif Dolci, Diretor Científico da Associação Médica Brasileira (AMB), Conselheiro do Conselho Federal de Medicina e professor titular de Otorrinolaringologia da Santa Casa de São Paulo. Na abertura, ele destacou a relevância do tema para a prática médica atual. “É um assunto extremamente importante que vocês vão realmente perceber o quanto nós precisamos estar engajados nisso”, afirmou.
Medicina Segura e combate ao exercício ilegal da medicina
A primeira apresentação foi conduzida pela Dra. Rosylane Nascimento das Mercês Rocha, médica do trabalho, doutora em Bioética, diretora científica adjunta da Associação Nacional de Medicina do Trabalho, professora supervisora de residência em Medicina do Trabalho, professora assistente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em Portugal, e segunda vice-presidente do Conselho Federal de Medicina.
Com o tema “Medicina Segura”, a médica apresentou a plataforma criada pelo CFM para reunir informações sobre práticas que coloquem pacientes em risco, especialmente quando procedimentos privativos da medicina são realizados por profissionais não médicos. “É muito importante que os médicos compreendam essa ação do CFM, principalmente que se envolvam nela e façam a divulgação”, afirmou.
Segundo a palestrante, a plataforma reúne dados sobre o paciente, o procedimento realizado, complicações, danos, local do atendimento, denúncias formais e profissionais envolvidos. A proposta é transformar essas informações em relatórios, notas técnicas e encaminhamentos às autoridades competentes. “Periodicamente, então, o CFM vai divulgar o relatório para a população e para as autoridades apresentando dados e sugestões de encaminhamento”, explicou.
A médica também alertou para a dificuldade da população em reconhecer quem está habilitado a realizar determinados procedimentos. “A população não sabe quem é médico, quem não é, o que é ato médico, o que é ato privativo de médico e por que outro profissional não pode fazer”, disse.
Responsabilidade dos diretores técnicos
Na sequência, a Dra. Rosylane Nascimento das Mercês Rocha também abordou a responsabilidade dos diretores técnicos dos planos de saúde, seguros de saúde, cooperativas médicas e prestadores de serviços em autogestão. A especialista explicou que toda operadora precisa ter um médico responsável perante o Conselho Regional de Medicina. Esse diretor técnico deve zelar pela qualidade da assistência, pela supervisão das auditorias e pela relação formal com médicos e prestadores.
A palestrante também comentou a resolução do CFM sobre auditoria médica e destacou que o objetivo da norma é proteger o paciente e fortalecer as prerrogativas dos médicos. Segundo ela, a auditoria de procedimentos médicos deve ser feita por médicos. “Apenas o médico pode avaliar a conduta médica”, ressaltou.
Auditor não deve ser agente de contenção de custos
A terceira apresentação foi conduzida pelo Dr. Carlos Magno Pretti Dalapicola, conselheiro federal pelo Espírito Santo, médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo, especialista em Medicina do Trabalho e Clínica Médica, e médico do trabalho no Hospital Universitário Federal do Espírito Santo.
Com o tema “Qual o papel do auditor médico?”, o palestrante defendeu que a auditoria médica deve ser baseada em critérios técnicos, evidências científicas e segurança do paciente, e não em interesses econômicos. “O médico-auditor em suma ele não deve ser visto como agente de contenção de custos, mas sim como garantidor da qualidade, adequação e segurança da assistência ao paciente”, afirmou.
O especialista explicou que o auditor não substitui o médico assistente, mas avalia a consistência técnica da solicitação, a conformidade com as diretrizes e a adequação dos recursos indicados. “O auditor nunca vai substituir o médico-assistente”, disse.
Segundo Carlos Magno, o auditor pode questionar indicações, exames, materiais e procedimentos, mas sempre com fundamentação objetiva, clara e científica. Ele também destacou que a função exige equilíbrio entre evitar desperdícios e não comprometer o cuidado.
“A auditoria deve eliminar o desperdício sem eliminar o benefício, incorporar a inovação sem adotar modernismos sem evidência científica, e proteger os recursos sem comprometer os resultados clínicos”, afirmou.
Debate reforça importância da atuação técnica
Por fim, a sessão mostrou que a auditoria médica tem um papel estratégico na proteção do paciente, na defesa das prerrogativas médicas e na organização dos serviços de saúde. As apresentações também reforçaram a necessidade de ampliar a divulgação das normas e plataformas disponíveis, para que médicos, assistentes, auditores, diretores técnicos e entidades atuem de forma alinhada. A auditoria deve ser exercida com autonomia, responsabilidade ética e base científica.
Especialistas discutem desafios frequentes da otorrinolaringologia na prática do médico generalista durante o CBMG 2026

Problemas relacionados aos ouvidos, nariz, garganta e vias aéreas superiores estão entre as queixas mais frequentes nos consultórios, unidades básicas de saúde, pronto-atendimentos e serviços de emergência em todo o país. Por isso, o reconhecimento precoce, o diagnóstico adequado e a definição da melhor conduta inicial são fundamentais para garantir segurança e efetividade no atendimento dos pacientes.
Com foco na atualização prática dos profissionais que atuam na linha de frente da assistência, o 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (CBMG 2026) promove a sessão “Dia a Dia da Otorrinolaringologia para o Generalista – Parte 1”, reunindo especialistas para abordar situações clínicas comuns e de grande relevância na rotina médica.
A atividade, coordenada pelos médicos André Alencar Araripe Nunes, que reforçou a importância dos médicos generalistas em terem conhecimentos sobre otorrinolaringologia, queixas frequentes de 60% a 70% dos casos em prontos-socorros e UBS e por José Eduardo Lutaif Dolci.

Ao iniciar o tema, o Dr. Luiz Fernando Lourençone abordou sobre a diferença em tratar otite externa, pois neste caso a limpeza de forma cuidadosa é importante para fazer o diagnóstico de forma segura. Segundo ele, a otite na criança é mais curta e horizontal e no adulto mais vertical. “Aspiração, cuidado e limpeza incialmente ajudam”, diz. “Você não precisa de um exame complementar, mas de uma boa autoscopia”, completa.
Ao abordar sobre o manejo das otites médias (OMA), uma das condições mais prevalentes, especialmente na população pediátrica, que são divididas em OMA Recorrente, Serosa, com Efusão e Média Crônica. “Cada uma delas tem um tratamento específica e todas elas são passíveis de tratamento”, diz.
Em seguida, o Dr. Vitor Guo Chen abordou a avaliação e o manejo da criança com estridor, um importante sinal clínico que pode indicar diferentes graus de comprometimento das vias aéreas e que exige atenção imediata dos profissionais de saúde. Segundo o especialista, a identificação correta dos sons respiratórios é fundamental para o diagnóstico precoce e para a definição da conduta adequada.
Durante a apresentação, o médico explicou que, de forma prática, existem três principais ruídos respiratórios observados com frequência na população pediátrica: os roncos, o estridor e o sibilo. Embora apresentem características distintas, o estridor e o sibilo podem ser confundidos, porém, como ele explica, o estridor é um som respiratório audível, semelhante a um chiado agudo, produzido pela passagem do ar através de uma via aérea superior estreitada.
O palestrante destacou que as causas do estridor podem ser classificadas em congênitas e adquiridas e a rapidez na identificação da causa é essencial. Por fim, o especialista apresentou os principais métodos diagnósticos utilizados na investigação do estridor.
Na sequência, para apresentar sobre o Novo Paradigma do Refluxo Faringolíngeo, Dr. André Alencar Araripe Nunes conta que recentemente houve uma reunião entre gastrologistas e otorrinolaringologistas para se definir a teoria do refluxo, pois há também a teoria do reflexo.
“Há o refluxo ácido, gasoso e alcalinos e boa parte dos refluxos são não-acidos”, diz. “A doença do refluxo precisa ser confirmada, não se admite mais exame empírico”. Ele explica que é necessária uma documentação, que a PHmetria de dois canais e a PHdesiometria é a que se define o refluxo alcalino e que é necessário ter a certeza que o paciente realmente tem refluxo. Porém, como esses exames nem sempre são acessíveis, ele reforça que hoje em dia é recomendável que o paciente passe por um exame de endoscopia a partir do momento que ele apresenta sintomas.
Por fim, ele mostra que a maior parte dos refluxos são os alcalinos e gasosos e os pacientes precisam ser tratados adequadamente, serem neuromodulados. “Futuramente o tema será síndrome da laringe hiperestável”, finaliza.
Ao final da sessão, os participantes aprofundaram os temas discutidos durante um debate entre eles e a mesa de palestrantes. A atividade reforçou o compromisso do Congresso em oferecer conteúdo científico atualizado, baseado em evidências e diretamente aplicável ao cotidiano dos profissionais que atuam na atenção primária, nos serviços ambulatoriais e nas urgências médicas.
Oncologia Clínica em foco: sessão do CBMG 2026 destaca o papel do médico generalista no acompanhamento do paciente com câncer

Na manhã do primeiro dia do 4º Congresso de Medicina Geral da AMB – CBMG 2026, a palestra ‘Diretrizes 2025: Tratamento da Obesidade’ discutiu uma mudança importante na abordagem da obesidade: a avaliação do paciente não deve se limitar ao Índice de Massa Corporal (IMC), mas considerar também o risco cardiovascular, as comorbidades e os possíveis benefícios clínicos de cada estratégia terapêutica.
Coordenada pelos médicos Itamar Ribeiro de Oliveira e Álvaro Avezum Junior, a mesa-redonda reuniu três especialistas para discutir as novas diretrizes, a farmacoterapia moderna e as metas de perda de peso capazes de modificar o prognóstico dos pacientes.
Na abertura, o Dr. Álvaro Avezum Junior, coordenador do Comitê de Pesquisa e Inovação da Sociedade Brasileira de Cardiologia destacou que o tema reúne três pontos centrais para a prática médica atual: alta prevalência, evidências científicas robustas e dificuldade de implementação no cuidado cotidiano. “O que eu preciso é de implementar o conhecimento existente”, afirmou.
IMC isolado não explica todo o risco do paciente
A primeira apresentação foi conduzida pela Dra. Viviane Zorzanelli Rocha Giraldez. A médica explicou que o IMC ainda tem valor populacional, mas apresenta limitações importantes quando aplicado à avaliação individual. Segundo a especialista, pessoas com o mesmo IMC podem ter distribuição de gordura e riscos clínicos muito diferentes. Por isso, medidas como circunferência abdominal, relação cintura-quadril e relação cintura-altura ajudam a compreender melhor o impacto da adiposidade sobre desfechos cardiovasculares.
“Mas, a nível individual, o índice de massa corpórea não explica tudo. Populacionalmente, ele nos dá muita informação, mas individualmente, um pouco menos”, afirmou a Dra.
A médica também reforçou que a obesidade se associa a diferentes tipos de doença cardiovascular, incluindo doença aterosclerótica, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e tromboembolismo venoso. Em sua apresentação, destacou ainda que pacientes de maior risco cardiovascular podem precisar de metas mais intensivas de perda de peso e de terapias com benefícios cardioprotetores. “Indivíduos absolutamente distintos com o mesmo índice de massa corpórea podem ter vistos muito diferentes”, completou.
Farmacoterapia moderna amplia possibilidades de tratamento
Na sequência, o Dr. Luciano Ferreira Drager abordou o avanço dos tratamentos farmacológicos, especialmente os agonistas de GLP-1 e os agonistas duais GIP/GLP-1, que vêm ganhando espaço pela capacidade de reduzir peso e atuar sobre outros mecanismos metabólicos.
O especialista ressaltou que a obesidade deve ser entendida como doença crônica, recidivante e multifatorial, o que exige acompanhamento contínuo e combate a soluções simplistas. Para ele, o tratamento farmacológico faz sentido especialmente diante da dificuldade de manter, no longo prazo, os resultados obtidos apenas com mudança intensiva de estilo de vida.
Ao comentar o estudo Select, o palestrante destacou que pacientes de alto risco com obesidade, mas sem diabetes, tratados com semaglutida apresentaram redução de eventos cardiovasculares combinados. A partir desse dado, ele defendeu que as novas terapias não sejam tratadas de forma banalizada. “É por isso que nós estamos pregando para pararem de falar sobre caneta emagrecedora. Não use esse termo”, disse. “A gente não pode banalizar chamando dessa forma pois é um tratamento muito, muito importante.”
Quanto emagrecer para mudar o prognóstico?
O terceiro tema foi apresentado pelo Dr. Marcio Corrêa Mancini, que detalhou recomendações das diretrizes para diferentes perfis de pacientes, considerando risco cardiovascular, presença de complicações e benefícios esperados.
O especialista explicou que a redução sustentável de pelo menos 5% do peso pode contribuir para a melhora de fatores de risco cardiovascular, como hipertensão e dislipidemia, além de ajudar a atrasar ou evitar o surgimento de diabetes tipo 2 em adultos com sobrepeso ou obesidade e risco moderado.
Para pacientes com risco cardiovascular moderado ou alto, a meta pode ser maior. “Então, deve ser considerada redução sustentável de pelo menos 10% do peso máximo já atingido na vida em indivíduos adultos com sobrepeso ou obesidade com risco de doença terasperiótica cardiovascular moderado ou alto para redução de eventos cardiovasculares”, afirmou O Dr. Marcio Corrêa Mancini.
O palestrante também destacou que metas devem ser individualizadas. Pacientes com IMC mais baixo, idade avançada, fragilidade ou obesidade sarcopênica podem ter alvos menores, enquanto pessoas com IMC mais elevado ou doenças passíveis de remissão podem se beneficiar de perdas mais expressivas. “Para a maioria dos adultos com obesidade, uma perda de pelo menos 10% é um alvo razoável”, resumiu.
Diretrizes reforçam tratamento individualizado
Por fim, a sessão mostrou que o tratamento da obesidade em 2025 passa por uma abordagem menos centrada no peso isolado e mais voltada à avaliação do risco global do paciente. O IMC segue como uma ferramenta útil, mas precisa ser combinado a outros indicadores clínicos para orientar decisões mais precisas.
Os especialistas também reforçaram que a perda de peso deve ser analisada pelo impacto sobre saúde, qualidade de vida e redução de risco cardiovascular. Nesse contexto, mudança de estilo de vida, farmacoterapia, acompanhamento contínuo e definição de metas individualizadas formam a base de uma estratégia mais efetiva para o manejo da obesidade.

Cirurgia Digestiva alerta para investigação adequada de cistos pancreáticos, dispepsias e sangramento intestinal

Na manhã do primeiro dia do 4º Congresso de Medicina Geral da AMB, a sessão “Cirurgia Digestiva” abordou temas frequentes na rotina médica: cistos pancreáticos encontrados em exames de rotina, investigação das dispepsias e avaliação do sangramento intestinal baixo. As apresentações reforçaram a importância de diferenciar achados de baixo risco de situações que exigem encaminhamento especializado, além de reconhecer sinais de alerta capazes de mudar a conduta e evitar atrasos no diagnóstico.
Cistos pancreáticos exigem classificação de risco
A primeira apresentação foi conduzida pelo Dr. Andre Luis Montagnini, médico do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. O especialista destacou que as lesões císticas pancreáticas têm sido identificadas com mais frequência, principalmente pelo aumento do uso de exames de imagem e pela melhora da resolução dos métodos diagnósticos. “Lesões pequenas, subcentimétricas, 3, 4, 5 milímetros, hoje são diagnosticadas com muita facilidade”, afirmou.
Segundo o médico, esse cenário gera preocupação para pacientes e clínicos. Por isso, a conduta depende da correta classificação da lesão, considerando tipo, localização, características radiológicas, sintomas e potencial de malignidade. “As lesões císticas pancreáticas são achados frequentes”, resumiu Andre Luis Montagnini.
O palestrante explicou que nem todo cisto pancreático exige cirurgia ou vigilância prolongada. Lesões simples e assintomáticas podem não demandar acompanhamento, enquanto alterações com características de alto risco devem ser encaminhadas para centros de referência e avaliadas de forma multidisciplinar. “A ressonância, ou ressonância dinâmica, é um exame de escolha para nos ajudar”, destacou.
Dispepsia deve ser investigada com atenção aos sinais de alerta
Na sequência, o Dr. Osvaldo Antonio Prado Castro,médico da Santa Casa de São Paulo, chamou atenção para a necessidade de não banalizar sintomas dispépticos, especialmente diante do risco de doença maligna no trato gastrointestinal alto. “Quando a gente está lidando com uma dispepsia, a nossa preocupação é de que não seja uma doença péptica e sim seja uma malignidade”, afirmou.
A apresentação abordou sinais de alarme como perda de peso não intencional, sangramento digestivo, disfagia, anemia, vômitos persistentes, massa palpável e histórico familiar de câncer gastrointestinal. Para o especialista, a história familiar merece atenção especial. “Mas tem um sinal de alarme que, na minha concepção, é o mais importante. Que é o histórico familiar de câncer gastrointestinal”, disse.
O palestrante também alertou para o risco de adiar a investigação endoscópica, sobretudo quando há uso prolongado de inibidores de bomba de prótons, que podem melhorar sintomas sem resolver a causa do problema.
Sangramento intestinal baixo pede avaliação rápida da gravidade
A terceira apresentação foi conduzida pelo Dr. Caio Nahas, docente e médico do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. O especialista explicou que a hemorragia digestiva baixa ocorre, na maior parte das vezes, no intestino grosso, reto e ânus, podendo variar de pequenos sangramentos a quadros de emergência.
Entre as principais causas citadas estão doença diverticular, doenças anorretais, angiodisplasias, doenças inflamatórias intestinais, colite isquêmica, retite actínica, neoplasias e lesões relacionadas ao uso de anti-inflamatórios ou anticoagulantes. O especialista reforçou a importância de investigar medicações em uso. “Há uma ampla anamnese em relação às medicações atuais da situação”, disse.
Na investigação, Caio Nahas também destacou o papel da colonoscopia em pacientes estáveis e da angiotomografia nos casos de instabilidade. “Todos os guidelines recomendam o primeiro exame hoje: a angiotomografia”, afirmou, “Graças a esse fluxo conseguimos evitar grande parte de cirurgias hoje em dia”, completou.
Sessão reforça investigação bem indicada
A sessão mostrou que quadros comuns da cirurgia digestiva podem esconder situações de maior risco. Nos cistos pancreáticos, a classificação correta evita intervenções desnecessárias e atrasos no encaminhamento. Nas dispepsias, a suspeição clínica e a qualidade da endoscopia são decisivas. No sangramento intestinal baixo, a estabilidade do paciente orienta a sequência de exames e tratamentos.
Obesidade passa a ser tratada pelo risco cardiovascular, defendem especialistas em congresso

Na manhã do primeiro dia do 4º Congresso de Medicina Geral da AMB, a palestra “Diretrizes 2025: Tratamento da Obesidade” discutiu uma mudança importante na abordagem da obesidade: a avaliação do paciente não deve se limitar ao Índice de Massa Corporal (IMC), mas considerar também o risco cardiovascular, as comorbidades e os possíveis benefícios clínicos de cada estratégia terapêutica.
Coordenada pelos médicos Itamar Ribeiro de Oliveira e Álvaro Avezum Junior, a sessão reuniu três especialistas para discutir as novas diretrizes, a farmacoterapia moderna e as metas de perda de peso capazes de modificar o prognóstico dos pacientes.
Na abertura, o Dr. Álvaro Avezum Junior destacou que o tema reúne três pontos centrais para a prática médica atual: alta prevalência, evidências científicas robustas e dificuldade de implementação no cuidado cotidiano. “O que eu preciso é de implementar o conhecimento existente”, afirmou.
IMC isolado não explica todo o risco do paciente
A primeira apresentação foi conduzida pela Dra. Viviane Zorzanelli Rocha Giraldez. A médica explicou que o IMC ainda tem valor populacional, mas apresenta limitações importantes quando aplicado à avaliação individual. Segundo a especialista, pessoas com o mesmo IMC podem ter distribuição de gordura e riscos clínicos muito diferentes. Por isso, medidas como circunferência abdominal, relação cintura-quadril e relação cintura-altura ajudam a compreender melhor o impacto da adiposidade sobre desfechos cardiovasculares.
“Mas, a nível individual, o índice de massa corpórea não explica tudo. Populacionalmente, ele nos dá muita informação, mas individualmente, um pouco menos”, afirmou a Dra.
A médica também reforçou que a obesidade se associa a diferentes tipos de doença cardiovascular, incluindo doença aterosclerótica, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e tromboembolismo venoso. Em sua apresentação, destacou ainda que pacientes de maior risco cardiovascular podem precisar de metas mais intensivas de perda de peso e de terapias com benefícios cardioprotetores. “Indivíduos absolutamente distintos com o mesmo índice de massa corpórea podem ter vistos muito diferentes”, completou.
Farmacoterapia moderna amplia possibilidades de tratamento
Na sequência, o Dr. Luciano Ferreira Drager abordou o avanço dos tratamentos farmacológicos, especialmente os agonistas de GLP-1 e os agonistas duais GIP/GLP-1, que vêm ganhando espaço pela capacidade de reduzir peso e atuar sobre outros mecanismos metabólicos.
O especialista ressaltou que a obesidade deve ser entendida como doença crônica, recidivante e multifatorial, o que exige acompanhamento contínuo e combate a soluções simplistas. Para ele, o tratamento farmacológico faz sentido especialmente diante da dificuldade de manter, no longo prazo, os resultados obtidos apenas com mudança intensiva de estilo de vida.
Ao comentar o estudo Select, o palestrante destacou que pacientes de alto risco com obesidade, mas sem diabetes, tratados com semaglutida apresentaram redução de eventos cardiovasculares combinados. A partir desse dado, ele defendeu que as novas terapias não sejam tratadas de forma banalizada. “É por isso que nós estamos pregando para pararem de falar sobre caneta emagrecedora. Não use esse termo”, disse. “A gente não pode banalizar chamando dessa forma pois é um tratamento muito, muito importante.”
Quanto emagrecer para mudar o prognóstico?
O terceiro tema foi apresentado pelo Dr. Marcio Corrêa Mancini, que detalhou recomendações das diretrizes para diferentes perfis de pacientes, considerando risco cardiovascular, presença de complicações e benefícios esperados.
O especialista explicou que a redução sustentável de pelo menos 5% do peso pode contribuir para a melhora de fatores de risco cardiovascular, como hipertensão e dislipidemia, além de ajudar a atrasar ou evitar o surgimento de diabetes tipo 2 em adultos com sobrepeso ou obesidade e risco moderado.
Para pacientes com risco cardiovascular moderado ou alto, a meta pode ser maior. “Então, deve ser considerada redução sustentável de pelo menos 10% do peso máximo já atingido na vida em indivíduos adultos com sobrepeso ou obesidade com risco de doença terasperiótica cardiovascular moderado ou alto para redução de eventos cardiovasculares”, afirmou O Dr. Marcio Corrêa Mancini.
O palestrante também destacou que metas devem ser individualizadas. Pacientes com IMC mais baixo, idade avançada, fragilidade ou obesidade sarcopênica podem ter alvos menores, enquanto pessoas com IMC mais elevado ou doenças passíveis de remissão podem se beneficiar de perdas mais expressivas. “Para a maioria dos adultos com obesidade, uma perda de pelo menos 10% é um alvo razoável”, resumiu.
Diretrizes reforçam tratamento individualizado
Por fim, a sessão mostrou que o tratamento da obesidade em 2025 passa por uma abordagem menos centrada no peso isolado e mais voltada à avaliação do risco global do paciente. O IMC segue como uma ferramenta útil, mas precisa ser combinado a outros indicadores clínicos para orientar decisões mais precisas.
Os especialistas também reforçaram que a perda de peso deve ser analisada pelo impacto sobre saúde, qualidade de vida e redução de risco cardiovascular. Nesse contexto, mudança de estilo de vida, farmacoterapia, acompanhamento contínuo e definição de metas individualizadas formam a base de uma estratégia mais efetiva para o manejo da obesidade.

Neurologia na Emergência: especialistas apresentam atualizações sobre AVC, neuroinfecções e epilepsia no CBMG 2026

Com foco na qualificação da assistência e na discussão de condutas práticas para situações de alta complexidade, o 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (CBMG 2026) promoveu a sessão “Neurologia na Emergência”, reunindo especialistas para abordar temas fundamentais da neurologia aplicada ao atendimento de urgência e emergência. A atividade foi coordenada pelos médicos Delson José da Silva e Andre Sobierajski dos Santos, responsáveis pela condução dos debates e pela integração dos conteúdos apresentados.
As emergências neurológicas estão entre os cenários clínicos que mais exigem rapidez diagnóstica. Ao abordar o tema “Doenças cerebrovasculares – Atualização em Acidente Vascular Cerebral (AVC) Isquêmico”, a Dra. Eva Carolina Rocha Ramos destacou que o AVC é a segunda principal causa de morte no mundo e responde por cerca de 10% de todas as internações.
Segundo a especialista, a mais recente diretriz publicada em 2026 traz avanços importantes, entre eles a possibilidade de atendimento móvel especializado para AVC, especialmente com o objetivo de reduzir o tempo até o tratamento e evitar a progressão da trombose.
“Uma recomendação nova é a unidade móvel de AVC, com equipe treinada e aparelho próprio”, afirmou. “Também é importante identificar se há suspeita de oclusão de grande vaso, pois, nesses casos, a avaliação e a conduta são diferentes”, complementou.
Outra novidade destacada foi a utilização da tenecteplase, uma versão modificada da alteplase, que tem se mostrado eficaz no tratamento agudo do AVC e passou a ser recomendação Classe I. “Esse medicamento já era utilizado no tratamento agudo do infarto do miocárdio e agora também tem indicação para o AVC agudo”, explicou.
Sobre a decisão de realizar ou não a trombólise, a especialista ressaltou que, com o avanço das técnicas de neuroimagem, tornou-se possível avaliar com maior precisão a janela terapêutica para o procedimento. Já nos casos de oclusão de grande vaso, a trombectomia mecânica, realizada por meio de cateterismo, permanece como uma importante estratégia terapêutica.
Neuroinfecção: abordagem ao paciente com meningoencefalite
Ao abordar o tema, o Dr. Augusto Cesar Penalva de Oliveira discutiu os principais desafios relacionados ao reconhecimento precoce das neuroinfecções, à investigação diagnóstica e ao início oportuno do tratamento.
O especialista apresentou as diferentes formas de encefalite, que podem se manifestar de maneira focal, multifocal ou difusa, além de quadros de encefalomielite e meningoencefalite.
“Há uma divisão dos agentes baseada no padrão de resposta e nos achados tomográficos que demonstram essa inflamação”, explicou.
Segundo ele, aproximadamente 50% dos casos de encefalite no mundo permanecem sem etiologia definida. No Brasil, o aumento da atenção para essas condições ocorreu especialmente durante o surto associado ao nascimento de crianças com microcefalia e, posteriormente, durante a pandemia de SARS-CoV-2.
“Nos últimos 20 anos, tivemos importantes viroses no Ocidente, como a dengue, por exemplo. Além disso, o herpes é responsável por cerca de 75% dos casos de encefalite viral”, afirmou.
O especialista reforçou a importância da rapidez na condução dos casos. “Tempo é cérebro, e é preciso tratar o paciente da maneira mais apropriada possível”, destacou.
Segundo ele, embora haja um número crescente de doenças infecciosas, também houve avanços significativos na disponibilidade de marcadores diagnósticos.
Para concluir, ressaltou que a encefalite deve ser suspeitada em qualquer paciente que apresente febre associada a alteração neurológica aguda. Além disso, a punção lombar deve ser realizada, idealmente, nas seis primeiras horas, salvo contraindicações.
Epilepsia
O terceiro convidado da sessão foi o Dr. Lécio Figueira Pinto, que abordou a epilepsia e seu manejo no contexto das emergências, destacando que a condição está entre as principais causas de atendimento neurológico de urgência.
Segundo ele, a primeira abordagem deve seguir o protocolo CALMA:
C – Calma: manter a serenidade;
A – Afastar: retirar objetos que possam causar lesões;
L – Lateralizar: virar a pessoa suavemente de lado;
M – Monitorar: observar e registrar o tempo de duração da crise;
A – Acompanhar: permanecer ao lado do paciente até a recuperação.
O especialista observou que, muitas vezes, acredita-se que o paciente esteja vivenciando a primeira crise epiléptica da vida, quando, na realidade, episódios anteriores podem ter ocorrido sem reconhecimento adequado.
Durante a apresentação, foram discutidos aspectos essenciais da epilepsia no contexto da emergência, incluindo o manejo das crises convulsivas, a avaliação clínica e as condutas diante das principais situações de risco.
Ao encerrar sua participação, o médico reforçou que a epilepsia é uma condição frequente, cujo diagnóstico é essencialmente clínico. Os exames complementares auxiliam na investigação e no acompanhamento, mas não substituem a avaliação clínica.
Por fim, palestrantes e participantes participaram de um debate voltado à troca de experiências e ao aprofundamento dos temas apresentados, promovendo uma discussão prática sobre os desafios enfrentados pelos profissionais nos serviços de urgência e emergência.
A atividade reforçou o compromisso do CBMG 2026 com a educação médica continuada e com a disseminação de conhecimentos atualizados para o aprimoramento da assistência.
Residência Médica: crescimento de formandos e limite de vagas desafiam formação de especialistas no Brasil
O 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral (4º CBMG) promoveu, no primeiro dia do evento (26/6), um painel sobre a situação do médico generalista frente à deficiência de vagas na Residência Médica no país, reunindo especialistas para discutir o cenário atual da formação médica, os modelos de seleção e os desafios futuros do sistema.
A coordenação foi do Dr. Fernando Sabia Tallo, diretor tesoureiro da Associação Médica Brasileira (AMB), especialista em Clínica Médica, Anestesiologia, Medicina de Emergência e Terapia Intensiva, que destacou a relevância do tema diante das transformações do ensino médico no país. “O descompasso entre a formação médica e a capacidade de absorção da residência médica é hoje um dos principais desafios estruturais do sistema de saúde brasileiro.”
O Dr. Alcindo Cerci Neto, diretor clínico do Hospital Universitário de Londrina e conselheiro do Conselho Federal de Medicina (CFM), chamou atenção para o crescimento acelerado do número de cursos e egressos de Medicina. O Brasil já conta com mais de 485 cursos de Medicina, e em 2024 cerca de 41% dos médicos atuavam como generalistas, cenário que evidencia a limitação da oferta de vagas de residência frente ao volume de formandos.
Reiterando a análise, Dr. Gustavo Salata Romão, membro da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM/MEC) e consultor da Associação Médica Brasileira (AMB) em Educação Médica, apresentou um estudo comparativo dos processos seletivos no Brasil e em outros países. Segundo ele, o modelo brasileiro ainda se baseia predominantemente em provas cognitivas, enquanto sistemas internacionais incorporam avaliações práticas e de competências clínicas.
O Dr. Fernando Sabia Tallo também destacou o desequilíbrio entre o número de médicos formados e a oferta de vagas de residência. Atualmente, há aproximadamente 58 mil vagas de residência ocupadas, enquanto mais de 80 mil médicos seguem sem acesso direto à especialização, o que mantém uma parcela significativa da categoria atuando como generalista.
O painel apontou ainda temas como a heterogeneidade da formação médica, a expansão das escolas de Medicina, a necessidade de regulação do ensino e o papel da residência médica como padrão-ouro para a especialização no país.
Os participantes reforçaram a importância de maior integração entre instituições formadoras, entidades médicas e órgãos reguladores, com o objetivo de equilibrar formação profissional, qualidade assistencial e demandas do sistema de saúde brasileiro.
Segurança do paciente começa na formação médica, defendem especialistas em congresso
No período da tarde do primeiro dia do 4º Congresso de Medicina Geral da AMB, a mesa-redonda “Clínica Médica” discutiu a segurança do paciente e os desafios da formação médica no Brasil. A atividade foi coordenada pelo Dr. Fernando Sabia Tallo, Diretor Tesoureiro da AMB, que também participou como palestrante.
A primeira apresentação foi conduzida pelo Dr. Carlos Magno Pretti Dalapicola, conselheiro federal pelo Espírito Santo. O especialista destacou a importância de identificar, investigar e comunicar falhas assistenciais para evitar que incidentes se repitam.
Segundo o médico, o efeito adverso não deve ser tratado como motivo de punição automática, mas como oportunidade de aprimorar processos e proteger o paciente. “A segurança do paciente deve estar acima de qualquer receio. O importante é ter medidas, plano de ação e comunicação entre as equipes para que o evento não volte a acontecer”, afirmou.
Durante a apresentação, Carlos Magno diferenciou efeito colateral, que é uma resposta conhecida e esperada de um medicamento ou procedimento, de efeito adverso, que ocorre de forma não intencional e pode gerar dano ao paciente. O especialista citou exemplos como erro de dose, falha na identificação de alergias, medicação administrada ao paciente errado e complicações evitáveis durante a internação.
“A prevenção de efeito adverso e a promoção de segurança do paciente exigem uma atuação contínua”, reforçou. Para ele, a gestão de riscos passa por medidas simples, como identificação correta do paciente, comunicação entre equipes, checagem de procedimentos e atenção constante aos sinais de falha na assistência.
Na sequência, o Dr. Fernando Sabia Tallo, Diretor Tesoureiro da AMB, propôs uma reflexão sobre a expansão das escolas médicas no país e a necessidade de valorizar a docência como parte essencial da qualidade da formação. “Isso está muito na nossa consciência hoje em dia, com essa política expansiva que houve na graduação médica brasileira”, afirmou. Para ele, o debate não deve se limitar ao número de cursos ou vagas, mas também à qualidade dos professores responsáveis por formar os futuros médicos.
A apresentação destacou que saber exercer a medicina não significa, necessariamente, saber ensiná-la. Fernando Sabia Tallo defendeu que o professor precisa traduzir o conhecimento prático, reconhecer dificuldades dos estudantes e adaptar a forma de ensinar. “Ensinar é uma profissão, não é uma atividade acessória”, disse.
No debate, os especialistas relacionaram diretamente a formação médica e segurança do paciente. Para Carlos Magno, falhas básicas na avaliação clínica ainda aparecem na prática e podem comprometer diagnósticos. A mesa reforçou que a segurança do paciente depende tanto de processos assistenciais bem estruturados quanto de uma formação médica sólida.
O tema mostrou que prevenir danos, reconhecer riscos e formar bons profissionais fazem parte da mesma agenda: garantir uma medicina mais segura, responsável e preparada para responder às necessidades da população.
Arenas Silenciosas ampliam experiências práticas, inovação e debates estratégicos no 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da AMB
Um dos espaços mais dinâmicos da programação do 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (AMB) será a Arena Silenciosa. Concebida para proporcionar uma experiência mais próxima entre palestrantes e participantes, a iniciativa reunirá especialistas, gestores públicos, educadores, empresários e lideranças do setor da saúde para debater temas diretamente relacionados ao cotidiano do médico generalista.
Ao longo dos dias 11, 12 e 13 de junho, os congressistas terão acesso a apresentações objetivas e altamente práticas, abordando desde políticas públicas de saúde e educação médica até inteligência artificial, inovação tecnológica, gestão de carreira, planejamento financeiro e assistência em populações específicas.
A programação do dia 11 da Arena Silenciosa teve início com a participação do Ministério da Saúde, que apresentou o tema “Mais Médicos: Conhecendo os Programas de Provimento e seus Incentivos”. A palestra foi conduzida por Nara Arruda, consultora técnica, que apresentou aos participantes as principais estratégias de fortalecimento da assistência médica em regiões prioritárias do país, além dos incentivos e oportunidades oferecidos aos profissionais que ingressam nos programas federais.
Na sequência, o IDOMED levou à Arena o tema “Avaliação e Conduta no Abdome Agudo para o Não Especialista”. A atividade foi conduzida por Fabio Barbosa, diretor do IDOMED/Yduqs, que discutiu abordagens práticas para o reconhecimento e manejo inicial de uma das situações clínicas mais frequentes e desafiadoras enfrentadas por médicos da atenção primária e dos serviços de urgência.
A transformação digital da Medicina ganhou espaço com a palestra promovida pela Primeira Escolha, intitulada “Amplificando a Inteligência Clínica: A IA na Prática Médica”. O especialista Tadeu da Ponte apresentou aplicações concretas da inteligência artificial voltadas à tomada de decisão clínica, apoio diagnóstico e otimização da rotina médica.
Ainda dentro do universo da inovação, a BNG Hub promoveu a apresentação “Do Plantão à Prescrição: Soluções de Tecnologia para a Jornada Médica”. O palestrante Diogo dos Santos demonstrará como plataformas digitais e novas ferramentas tecnológicas podem contribuir para tornar mais eficiente a atuação profissional em diferentes cenários assistenciais.
A agenda da tarde abordou um dos temas mais relevantes da saúde pública brasileira. A Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) apresentará a palestra “Nova Era do Tratamento do Diabetes no SUS: Tecnologia, Sustentabilidade e o Futuro da Insulinoterapia no Brasil (2026–2030)”, conduzida por Arthur Fernandes, servidor da Secretaria de Saúde do Distrito Federal. A apresentação discutiu perspectivas para a incorporação de novas tecnologias e modelos de cuidado voltados ao controle do diabetes na rede pública.
Também ocorreu a participação da SEIDIGI, ampliando o debate sobre inovação e transformação digital em saúde, fortalecendo a integração entre tecnologia e assistência médica.
Encerrando a programação do primeiro dia, o Grupo MedCof apresentou a palestra “ENAMED 2026 – O que Esperar?”, conduzida pelo médico e professor Alexandre Hamada. O encontro abordou as expectativas em torno do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica e seus impactos na formação e qualificação profissional.
Eventos com propósito: uma proposta ESG para gerar impacto social
Grupo Primavera estará com um estande com uma proposta inovadora de parceria voltada à integração entre eventos corporativos e ações ESG
Durante o Congresso Brasileiro de Medicina Geral (CBMG) da Associação Médica Brasileira, o Grupo Primavera estará com um estande com uma proposta inovadora de parceria voltada à integração entre eventos corporativos e ações ESG (Ambiental, Social e Governança).
Trata-se de uma organização da sociedade civil que atua na assistência de proteção básica, atendendo crianças e adolescentes de 6 a 18 anos que vivem em situação de alta vulnerabilidade social, no contra turno escolar.
São oferecidas atividades culturais, de apoio escolar, trabalhos manuais, projeto de vida, tecnologia, entre outras. Atuando em Campinas, região norte, no Jardim São Marcos. Atualmente são atendidas 482 crianças e adolescentes e suas famílias.
Proposta
A iniciativa propõe que empresas organizadoras de eventos e seus clientes possam destinar, de forma conjunta, um percentual previamente definido do valor contratado para projetos sociais desenvolvidos pela organização.
Os recursos seriam aplicados em programas educacionais, sociais e de inclusão, com prestação de contas e apresentação de relatórios de impacto, garantindo transparência e mensuração dos resultados alcançados.
Ao final de cada projeto, as empresas participantes receberiam certificados e relatórios demonstrando os benefícios gerados para a comunidade, fortalecendo suas estratégias ESG e sua contribuição para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas.
Entre os benefícios da proposta estão a geração de impacto social mensurável, o fortalecimento da reputação institucional, o engajamento de colaboradores e stakeholders, além da criação de um ecossistema colaborativo que une empresas, organizadores de eventos e entidades sociais em torno de objetivos comuns.
A participação do Grupo Primavera no Congresso Brasileiro de Medicina Geral demonstra que a promoção da saúde vai além dos consultórios e hospitais, envolvendo também iniciativas capazes de transformar comunidades, reduzir desigualdades e construir um futuro mais inclusivo para todos.
Pesquisa inédita revela desafios para a ascensão feminina na Medicina e reforça necessidade de ampliar a presença de mulheres em cargos de liderança
Estudo apresentado pela vice-presidente da AMB mostra que, apesar de as mulheres já serem maioria entre estudantes e jovens médicos, a ocupação dos principais espaços de poder institucional ainda permanece predominantemente masculina
A crescente feminização da Medicina brasileira ainda não se traduz em igualdade de oportunidades nos espaços de liderança. Essa é uma das principais conclusões de uma ampla pesquisa apresentada pela Dra. Luciana Rodrigues Silva, 1ª vice-presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), durante o 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (AMB). O trabalho reúne resultados inéditos sobre representatividade, liderança e carreira médica das mulheres no Brasil.
Com base em três grandes frentes de investigação – análise institucional de entidades médicas e escolas de Medicina, entrevistas qualitativas com médicas líderes e um survey nacional ainda em andamento – o estudo traça um panorama abrangente sobre os desafios enfrentados pelas mulheres ao longo da carreira médica.
Atualmente, o Brasil conta com mais de 635 mil médicos em atividade, e as mulheres já representam a maioria entre estudantes de Medicina, residentes e profissionais mais jovens. No entanto, quando o tema é liderança institucional, os números ainda evidenciam um cenário de desigualdade.
“O crescimento da participação feminina na Medicina é uma realidade irreversível e extremamente positiva. Porém, ainda observamos uma distância importante entre a presença das mulheres na profissão e sua participação nos espaços de decisão. Nosso objetivo é transformar percepções e experiências individuais em evidências concretas que possam orientar mudanças institucionais e promover maior equidade”, destacou a Dra. Luciana Rodrigues.
Homens ainda predominam nos cargos de maior autoridade
A pesquisa analisou a composição de diretorias de 468 instituições, entre entidades médicas, conselhos profissionais, sindicatos e escolas de Medicina, envolvendo 2.187 médicos e médicas de todas as unidades da federação.
Os resultados demonstraram que os homens continuam ocupando, de forma mais frequente, os cargos de presidência e vice-presidência. Após análise estatística multivariada, o sexo masculino apresentou 48% mais chances de ocupar posições de liderança institucional de alto nível.
“O estudo mostra que a liderança médica no Brasil ainda está fortemente associada a trajetórias históricas construídas em um contexto predominantemente masculino. Isso não significa falta de competência ou qualificação das mulheres, mas a existência de barreiras estruturais que precisam ser reconhecidas e enfrentadas”, afirmou a vice-presidente da AMB.
Segundo Luciana, fatores como senioridade, redes institucionais consolidadas ao longo da carreira e determinadas especialidades médicas influenciam diretamente o acesso aos postos de maior poder.
Relatos revelam barreiras invisíveis
Além dos dados quantitativos, o estudo ouviu 24 médicas que ocupam posições de liderança em universidades, sociedades médicas, conselhos profissionais, hospitais e instituições de saúde.
As entrevistas revelaram experiências marcadas por desafios relacionados a estereótipos de gênero, preconceito velado, dificuldades de conciliar maternidade e carreira e a necessidade constante de validação profissional.
“Os relatos mostram que muitas mulheres precisam equilibrar expectativas contraditórias. Frequentemente são cobradas para demonstrar firmeza, mas são criticadas quando exercem autoridade. Trata-se de um fenômeno complexo que impacta a trajetória profissional e o acesso às posições de liderança”, explicou Dra. Luciana.
Entre os principais temas identificados estão a escassez de referências femininas em cargos de poder, a invisibilidade do trabalho realizado nos bastidores, o desencorajamento para disputar posições de destaque e os impactos da maternidade na progressão profissional.
“A maternidade ainda é tratada por muitas instituições como um obstáculo e não como uma dimensão legítima da vida profissional. Precisamos avançar na construção de ambientes mais inclusivos, que permitam às mulheres desenvolver plenamente suas carreiras sem precisar abrir mão de projetos pessoais e familiares”, ressaltou.
Survey nacional amplia debate sobre desigualdades
A terceira etapa do projeto consiste em um levantamento nacional com médicos e médicas de diferentes especialidades e regiões do país. A pesquisa já ultrapassou 2.700 respostas, superando a meta inicial de 2.200 participantes.
O questionário investiga temas como remuneração, vínculos profissionais, acesso a cargos de chefia, equilíbrio entre trabalho e vida familiar, discriminação, assédio, sexismo e expectativas em relação às entidades médicas.
“Estamos construindo um dos mais amplos diagnósticos já realizados sobre a carreira médica no Brasil. Os resultados permitirão compreender de forma mais aprofundada como fatores como gênero, maternidade, formação profissional e condições de trabalho influenciam as oportunidades e os desafios enfrentados ao longo da trajetória médica”, afirmou a dirigente da AMB.
Caminho para uma Medicina mais representativa
Para a Associação Médica Brasileira, os estudos representam uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento de políticas voltadas à promoção da equidade, transparência, mentoria e formação de novas lideranças.
“A diversidade fortalece as instituições. Quanto mais representativas forem as lideranças médicas, mais legítimas, inovadoras e preparadas estarão para responder às necessidades da profissão e da sociedade. Nosso compromisso é contribuir para uma Medicina cada vez mais justa, plural e inclusiva”, concluiu a Dra. Luciana Rodrigues.
Os resultados completos das pesquisas deverão subsidiar futuras iniciativas da AMB voltadas ao fortalecimento da participação feminina na Medicina brasileira e à redução das desigualdades ainda presentes no exercício profissional.
Simpósios patrocinados ampliam atualização científica e debates estratégicos no 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral da AMB
Além de uma programação científica abrangente voltada à prática do médico generalista, a 4ª edição do Congresso Brasileiro de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (AMB), realizada entre os dias 11 e 13 de junho, no Distrito Anhembi, em São Paulo, conta com uma série de simpósios patrocinados que abordarão temas de grande relevância para a Medicina contemporânea.
Promovidos por importantes instituições, empresas da área da saúde e órgãos governamentais, os encontros proporcionaram aos participantes a oportunidade de aprofundar conhecimentos em áreas que vão desde doenças crônicas e imunização até saúde indígena, desenvolvimento infantil, educação médica e inovação tecnológica aplicada à prática profissional.
Primeiro dia reúne debates sobre Alzheimer, doenças respiratórias, anticoncepção e formação médica
No dia 11 de junho, a programação dos simpósios patrocinados terá início com importantes atualizações sobre a doença de Alzheimer. Promovido pela Lilly – A Medicine Company, o encontro “Atualizações sobre a Doença de Alzheimer: Nova Era no Diagnóstico e Tratamento” será conduzido pelo médico Diogo Haddad, que apresentará os avanços mais recentes no diagnóstico precoce e nas novas estratégias terapêuticas para uma das doenças neurodegenerativas de maior impacto na população idosa. O simpósio será destinado exclusivamente a prescritores.
Também no primeiro dia, a GSK promoverá o simpósio “Quebrando o Ciclo das Exacerbações: Uma Nova Perspectiva para a Asma e a DPOC”. O debate contará com a participação de Angela Honda, diretora executiva e líder de programas educacionais da Fundação ProAR, além dos especialistas Paulo Tonidandel e Renato Miranda Lima, que discutirão abordagens inovadoras para o manejo das doenças respiratórias crônicas, buscando reduzir exacerbações e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
A área da saúde da mulher terá destaque com o simpósio promovido pela GENOM/Grupo União Química, que abordará o tema “Anticoncepção Hormonal Oral: Da Revolução Científica à Prática Real”. Coordenado pelo presidente da AMB, Dr. César Eduardo Fernandes, o encontro reunirá especialistas para discutir a evolução histórica, os avanços científicos e os desafios atuais da contracepção hormonal.
A programação contará com a palestra “A História da Anticoncepção por Meio da Música”, apresentada por Rogério Bonassi, diretor científico da Sobrac; “Atualizações na Anticoncepção Oral Combinada”, ministrada por Amanda Oliveira; além da discussão sobre a importância do planejamento familiar, tema central para a promoção da saúde reprodutiva e autonomia dos pacientes. O médico Eliano Pellini, chefe do setor de Saúde e Medicina Sexual da Faculdade de Medicina do ABC Paulista, também participará das atividades abordando a evolução científica da anticoncepção hormonal.
Outro tema de grande interesse para os profissionais da atenção primária será o simpósio da Pfizer, “Infecções Respiratórias: Da Prevenção ao Tratamento”, conduzido por João Garreta Prats, que abordará estratégias de prevenção, diagnóstico e manejo das principais infecções respiratórias que impactam a prática clínica cotidiana.
A formação médica também ganhará espaço na programação. O Ministério da Saúde promoverá o simpósio “Desafios e Oportunidades para a Formação do Médico Generalista”, ministrado por Marcos Pedrosa, assessor especial da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. A atividade discutirá os caminhos para fortalecer a formação dos profissionais que atuam na linha de frente da assistência à saúde no Brasil.
Na área pediátrica, a Sanofi apresentará o tema “Nirsevimabe e a Proteção Contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR)”, com a participação de Flávia Almeida, trazendo evidências sobre uma das principais estratégias de prevenção das infecções respiratórias graves em recém-nascidos e lactentes.
Já a Roche promoverá o simpósio “Acompanhamento do Desenvolvimento Infantil na Atenção Primária à Saúde”, com as especialistas Denise Pacheco Ramos e Karina Soares, destacando a importância da vigilância do desenvolvimento infantil, do diagnóstico precoce de alterações e do papel estratégico da atenção primária no cuidado integral às crianças.
Fonte: AMB, em 11.06.2026.