El Niño testa a capacidade do SUS de manter o cuidado funcionando

O Ministério da Saúde apresentou aos gestores estaduais o Plano de Preparação e Resposta a Emergências em Saúde Pública Associadas a Eventos Climáticos Extremos, estruturado para organizar a atuação do Sistema Único de Saúde (SUS) em frentes estratégicas que contemplam salas de situação, kits de assistência farmacêutica e o fortalecimento da Força Nacional do SUS.
Os cenários de volatilidade climática alternando secas severas em determinadas regiões com temporais e enchentes em outras trazem impactos que extrapolam o perfil epidemiológico tradicional. Além do aumento nas demandas assistenciais decorrentes de doenças respiratórias, cardiovasculares e arboviroses, os eventos extremos impõem severos riscos operacionais à infraestrutura física e logística de todo o ecossistema de saúde.
Diretrizes estratégicas como o AdaptaSUS que estabelece metas e ações de adaptação do sistema de saúde até 2035 evidenciam que a continuidade do atendimento hospitalar exige resiliência energética e hídrica. A interrupção no fornecimento de eletricidade ou água compromete o funcionamento de equipamentos eletromédicos de suporte à vida, paralisa os processos de higienização e esterilização nos Centros de Material e Esterilização (CME) e afeta diretamente pacientes em tratamento domiciliar, como os dependentes de oxigenoterapia.
Paralelamente, as adversidades logísticas provocadas pela vazante de rios navegáveis ou pelo colapso de malhas viárias terrestres ameaçam o abastecimento contínuo de insumos, dispositivos e equipamentos médicos. O gargalo na distribuição de tecnologias essenciais atua como um fator limitante para a capacidade de resposta de toda a rede assistencial em momentos de crise.
Nesse contexto, o alinhamento com as diretrizes do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) consolida-se como um vetor crucial para a resiliência nacional, estimulando a inovação e a segurança na cadeia produtiva. Para o setor de tecnologia médica, a preparação para emergências climáticas deixa de ser uma pauta puramente ambiental e assume o papel central de pilar de governança e continuidade do cuidado. A sustentabilidade do sistema de saúde depende, fundamentalmente, de regras e estruturas que garantam que a infraestrutura hospitalar permaneça operacional e abastecida no momento em que a população mais necessita.
Compliance na contratação de influenciadores

A contratação de criadores de conteúdo e influenciadores digitais por empresas de tecnologia médica tornou-se uma realidade consolidada no ecossistema da saúde, impulsionada pela busca crescente dos pacientes por informações em canais digitais. Contudo, essa estratégia expõe as corporações a riscos reputacionais e regulatórios específicos. Em um ambiente digital onde a disseminação de dados sobre saúde ocorre em ritmo acelerado, a gestão de compliance enfrenta o desafio de adaptar processos tradicionais historicamente estruturados para avaliar pessoas jurídicas à dinâmica da contratação de indivíduos.
Do ponto de vista da governança, o influenciador atua como um terceiro de alto risco ao vincular sua imagem pública à marca. As ferramentas convencionais de integridade, centradas em quadros societários, certidões e históricos financeiros, mostram-se insuficientes na avaliação de pessoas físicas. Aspectos cruciais para o segmento sanitário como a aderência à evidência científica, o histórico de posicionamentos do criador e a autenticidade de sua audiência exigem uma análise qualitativa integrada entre as áreas de marketing, jurídico e compliance desde a fase de prospecção.
Na área da saúde, inconsistências na escolha do porta-voz ou na mensagem veiculada geram impactos diretos na cadeia assistencial. Promessas exageradas ou informações imprecisas sobre dispositivos médicos extrapolam a esfera virtual e chegam aos consultórios e hospitais. Nesses cenários, impõe-se à comunidade médica a necessidade de alinhar expectativas irrealistas, esclarecer riscos omitidos na comunicação digital e orientar o paciente sobre as reais indicações técnicas da tecnologia, evidenciando a elevada responsabilidade associada à divulgação em saúde.
Esse contexto exige rigor na construção dos roteiros, na menção clara à contra indicações e na identificação ostensiva do caráter publicitário do conteúdo. A escolha do formato conteúdos pré-gravados versus transmissões ao vivo e o controle sobre o impulsionamento pago demandam salvaguardas que garantam a conformidade com as diretrizes do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR), do Conselho Federal de Medicina (CFM), da Anvisa e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Paralelamente, a estruturação contratual deve prever cláusulas operacionais e de mitigação proporcionais à realidade dos contratados, assegurando instrumentos eficazes de proteção reputacional.
A gestão de riscos não implica o isolamento das mídias sociais, canal indispensável na jornada de informação do paciente contemporâneo. A resposta estratégica reside no alinhamento prévio e transparente entre as equipes de comunicação e compliance. A atuação coordenada e o controle técnico garantem que a inovação em tecnologia médica seja promovida com ética, previsibilidade e compromisso inegociável com a segurança do paciente.
Anvisa revisa regras de reuso de dispositivos médicos em vigor desde 2006

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu um passo decisivo ao aprovar a abertura de consultas públicas para a atualização do arcabouço regulatório de processamento de dispositivos médicos no Brasil. Durante o período de 120 dias, a sociedade e o setor produtivo debaterão a revisão das normas vigentes desde 2006 (RDC nº 156 e Resoluções nº 2.605 e 2.606), em uma agenda aguardada há mais de uma década pelo ecossistema da saúde.
A Análise de Impacto Regulatório (AIR) conduzida pela agência evidenciou o descompasso entre a norma atual e a rápida evolução tecnológica do setor. A ausência de revisões periódicas na lista de produtos proibidos de reprocessar, somada ao surgimento de tecnologias complexas classificadas como de uso único sem uma fundamentação técnica clara, expôs lacunas que exigem padronização e segurança jurídica.
A principal evolução das propostas está na mudança de paradigma: supera-se a lógica estritamente prescritiva baseada em listas estáticas e rotulagens para estabelecer um modelo fundamentado na evidência científica, na gestão de risco e na rastreabilidade dos processos. O debate desloca-se para a validação técnica, pois exige-se a demonstração clara de quem reprocessa, por quais métodos e com qual comprovação de que o dispositivo mantém seu desempenho e integridade original.
As propostas estruturam-se em quatro frentes complementares: o enquadramento regulatório formal dos produtos; a atualização das Boas Práticas nos Centros de Material e Esterilização (CME) hospitalares; o estabelecimento de regramento próprio para empresas terceirizadas de reprocessamento; e a exigência de validação científica alinhada a padrões internacionais para cada etapa do ciclo.
O setor reconhece a relevância do debate sobre os custos de adaptação e a sustentabilidade operacional dos hospitais e clínicas. No entanto, o balizamento por critérios técnicos rigorosos coloca-se como a única via para assegurar a mitigação de riscos sanitários, como infecções e falhas estruturais nos equipamentos.
A ABIMED acompanha a discussão regulatória e participará do processo de consulta pública, contribuindo com análises técnicas e com a experiência acumulada em diferentes mercados internacionais. “O interesse de todo o segmento e da Anvisa é manter a eficácia dos produtos submetidos à reutilização e garantir a segurança dos pacientes”, destaca Fernando Silveira Filho, presidente-executivo da entidade.
Segurança do paciente e sustentabilidade financeira não devem ser tratadas como forças antagônicas. Ao exigir comprovação científica e responsabilidades delimitadas em cada elo da cadeia, o reprocessamento deixa de ser uma escolha orientada isoladamente pelo custo e passa a ser uma decisão estritamente técnica, fortalecendo a governança e a confiabilidade do sistema de saúde.
Presidenciáveis concordam com o diagnóstico da saúde e divergem nos instrumentos

Segundo dados do Ministério da Saúde, a espera média por atendimento especializado no SUS chegou a 57 dias em 2024. Filas extensas, fragmentação das informações assistenciais e a necessidade de tornar o sistema mais eficiente ajudam a explicar por que os principais planos de governo convergem no diagnóstico dos desafios da saúde no país.
As diferenças aparecem quando o debate passa das causas para as soluções.
Ainda assim, há pontos de convergência relevantes. A substituição da ordem de chegada pela gestão baseada em risco clínico, sob conceitos como fila única digital, regulação inteligente ou estratificação de risco, ganhou espaço em diferentes propostas. O mesmo ocorre com a interoperabilidade do prontuário eletrônico e a expansão da telessaúde, temas presentes em campos políticos distintos.
A primeira divergência estrutural está em quem deve prestar os serviços. Algumas propostas defendem o fortalecimento do programa “Agora Tem Especialistas”, com o uso da infraestrutura hospitalar privada para ampliar o atendimento no SUS por meio de compensações financeiras ou abatimento de débitos. Outras sugerem a contratação de exames ociosos da rede privada e a ampliação de concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs). Há também correntes que mantêm a defesa de um sistema exclusivamente estatal.
A segunda divergência envolve a estratégia de implementação. De um lado, está a aposta na expansão gradual de programas já consolidados. De outro, a defesa de mudanças mais estruturais, como a reformulação dos sistemas de regulação, incentivos ao cumprimento de metas, revisão da tabela SUS e alterações na regulamentação da saúde suplementar.
Essas escolhas também definem diferentes papéis para a tecnologia médica. O aproveitamento de equipamentos privados ociosos depende de dinamismo contratual e segurança jurídica. Já a modernização da rede pública exige planejamento orçamentário e previsibilidade nas compras governamentais. Ao mesmo tempo, o estímulo à produção nacional e a aplicação de critérios de eficácia e custo-efetividade na incorporação de tecnologias colocam a indústria no centro do debate.
Para o setor de dispositivos médicos, o ponto central é a previsibilidade das regras que determinarão como as tecnologias serão incorporadas, adquiridas, remuneradas e mantidas no sistema.
Nenhum dos caminhos é neutro. A continuidade preserva capacidades já instaladas, mas também os seus limites. As mudanças de rota prometem corrigir distorções, porém exigem tempo para a construção de novas estruturas. Em qualquer cenário, a redução das filas e a melhoria da qualidade da assistência dependem, em grande medida, de previsibilidade e estabilidade regulatória.
Fonte: Abimed, em 30.09.2026.