Segundo o Conselho Federal de Medicina, a telemedicina é “o exercício da medicina mediado por tecnologias para fins de assistência, educação, pesquisa, prevenção de doenças, lesões e promoção de saúde”. A modalidade veio para ficar e se espalhou rapidamente durante a pandemia da Covid-19, garantindo segurança e rapidez no atendimento, tanto para médicos quanto para pacientes. Calcula-se que a telemedicina possa resolver mais de 80% dos atendimentos médicos remotamente.
Mas ao mesmo tempo em que o País ganha 40 mil médicos por ano, um estudo da Escola Brasileira de Medicina (EBRAMED) revelou que 75% deles não sabem fazer o atendimento nesta modalidade ou não se sentem preparados para isso. A pesquisa ouviu mais de 800 médicos de grandes cidades como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Santa Catarina.
O levantamento evidencia que não basta investir na tecnologia, sem a devida capacitação para os profissionais. Aliás, a conectividade é outro gargalo no País, mas mesmo que se tenham computadores adequados e uma boa conexão com a internet, no final das contas, é o profissional que vai garantir o atendimento adequado.
De igual forma, não basta se definirem os critérios para a telessaúde, antes, é necessário observar e monitorar o quanto a modalidade se distribui de forma democrática, para atingir cada vez mais pessoas. Portanto, para que a telemedicina avance, deve-se investir nas duas frentes: na infraestrutura e no capital humano, com a contratação de médicos, com formação qualificada em telessaúde, e capacitação dos que já estão atuando.
ABIMED tem primeira mulher como presidente do Conselho de Administração
Pela primeira vez em seus 27 anos, a ABIMED terá uma mulher à frente do Conselho de Administração. A partir de janeiro, Patrícia Frossard, Country Manager da Philips do Brasil e Head de Legal & Compliance LATAM, assume a liderança do Conselho para o biênio 2024-2025. Além dela, outras quatro mulheres passam a compor o órgão, representando cerca de 40% de seus ocupantes. O fato histórico demonstra o perfil de uma entidade que valoriza a diversidade de gênero, etária e de experiências, o que enriquece sua atuação.
“É um desafio muito grande ser a primeira mulher no comando do Conselho da ABIMED, uma entidade com presença extraordinária em todos os fóruns em que precisamos nos posicionar. Sou grata pela oportunidade e por ter mulheres e homens valorosos ao meu lado para esta jornada”, definiu Patrícia, no Encontro Anual da associação, no início de dezembro. Ela já ocupava a posição de vice-presidente, liderada por Antônio Nasser.
Sobre a atuação da entidade para o próximo período, ela adiantou que continuará focada em temas relevantes como a Reforma Tributária e a desoneração da folha de pagamentos. Segundo Patrícia, “o país está em um cenário diferente e temos de aproveitar essa ‘onda’ para montar nosso business case, mostrando a grande atratividade do Brasil para o mercado externo”.
Atuando há 10 anos na saúde, ela tem uma visão muito clara sobre o papel abrangente do setor. “Nossas empresas precisam continuar ajudando a sociedade. Quando se fala em tecnologia na saúde, temos a tendência de pensar em equipamentos de alta complexidade, que podem ser uma realidade no estado de São Paulo, mas não são em todo o Brasil”, diz a presidente. Para Patrícia, as iniciativas em inovação precisam contemplar os diferentes públicos e buscar soluções para equacionar o acesso de todos. “Assim vamos fazer a diferença como indústria no País”, definiu a executiva.
Pontos fortes e fracos do sistema de saúde do Brasil
A iniciativa global Partnership for Health System Sustainability and Resilience (PHSSR) lançou um relatório que identificou pontos fortes e fracos do sistema de saúde do Brasil e apontou mais de 40 recomendações de políticas públicas que podem ser implementadas. Inédito no País, o documento foi publicado na revista Iniciativas em ESG – Associadas ABIMED, que pode ser acessada aqui.
O Brasil é o primeiro país da América Latina a integrar a PHSSR, que foi criada em 2020 a partir de uma parceria entre a London School of Economics, o Fórum Econômico Mundial e a AstraZeneca. Atualmente, inclui parceiros como a Organização Mundial da Saúde, Philips e KPMG e está presente em mais de 30 países.
As recomendações visam tornar o sistema de saúde brasileiro mais resiliente e sustentável, abrangendo sete domínios:
- Governança: aprimorar a regulamentação dos princípios do SUS (universalidade, integralidade, descentralização e participação social) para garantir um progresso sustentável e equitativo, além de integrar informações de saúde disponíveis e bancos de dados de diferentes fontes, públicas e privadas;
- Financiamento: estabelecer um aumento progressivo de recursos financeiros aplicados no Sistema Único de Saúde, de 4% para 6% do PIB em 10 anos, visando dar maior sustentabilidade ao sistema e redefinir critérios para alocar financiamento e outros recursos no SUS de acordo com as necessidades populacionais e epidemiológicas;
- Medicamentos e Tecnologia: fortalecer as políticas de tecnologia em saúde e de desenvolvimento produtivo para garantir o acesso universal e maior competitividade da produção local, além de priorizar a transformação digital do sistema de saúde;
- Força de trabalho: articular políticas de saúde e de educação para alinhar a formação técnica, graduação, residência e pós-graduação de acordo com as necessidades do sistema e desenvolver competências em saúde digital;
- Prestação de serviços de saúde: priorizar a atenção primária como a principal fonte de acesso para cuidados integrais e estabelecer ações emergenciais para abordar necessidades de saúde não atendidas, que foram agravadas pela pandemia de Covid-19;
- Saúde da população e determinantes sociais: aprimorar a regulamentação de atividades e práticas comerciais que afetam a saúde, incluindo tabaco, alimentos não saudáveis e/ou álcool, e fortalecer a capacidade de ação intersetorial para elaborar políticas para o segmento;
- Sustentabilidade ambiental: fomentar a participação do setor de saúde nas pautas ambientais, incluindo estratégias de fortalecimento do SUS na região amazônica e fortalecimento do protagonismo de comunidades locais, além da transição para fontes de energia verde no SUS.
Implante de células de combustível pode abastecer dispositivos médicos
Está surgindo uma ideia disruptiva para os pacientes que precisam de dispositivos conectados ao corpo, como bombas de insulina ou marcapassos. Esses equipamentos demandam baterias descartáveis ou recarregáveis, mas pesquisadores da Suíça desenvolveram uma célula de combustível implantável que utiliza o excesso de açúcar no sangue para gerar energia elétrica. Além de alimentar os aparelhos, seria uma maneira de eliminar a energia do organismo em forma de açúcar.
Os dispositivos bioeletrônicos consomem muita energia, pois permanecem em operação continuamente. Um gerador de energia elétrica implantável, autossuficiente e que funcione em condições fisiológicas seria revolucionário para aplicações como próteses bioeletrônicas e reguladores de metabolismo.
O projeto é inovador, segundo Denise Hissa, professora de biologia celular do Departamento de Biologia na Universidade Federal do Ceará (UFC). Em declaração publicada no Correio Braziliense, ela afirma que as células do corpo humano fazem uso de correntes de elétrons e de prótons o tempo todo, mas o estudo avança quando consegue converter essa energia metabólica em eletricidade.
No dispositivo criado pela equipe suíça, para diminuir a rejeição do implante sob a pele humana, a cápsula é envolta com alginato, uma espécie de açúcar de algas, substância aprovada para uso médico. As células de combustível foram implantadas em camundongos com diabetes, com resultados promissores, segundo os pesquisadores. Eles acreditam que a eletricidade gerada dessa forma poderá alimentar aparelhos auditivos, bombas de insulina, marcapassos, smartwatches e até smartphones.
Como a saúde digital impacta o acesso, a desigualdade e os custos
A saúde digital traz uma possibilidade real de transformar o ecossistema da saúde. O potencial é destacado em pelo menos três áreas: acesso, desigualdade e custo. Mas o Brasil ainda está no começo dessa longa jornada, afinal, essa transformação demanda uma mudança cultural, investimentos e até mesmo avanços técnicos, como a conectividade.
Vale lembrar que o termo saúde digital é mais abrangente do que e-Saúde e incorpora os recentes avanços na tecnologia, como novos conceitos, aplicações de redes sociais, Internet das Coisas (IoT), Internet dos Corpos (IoB), Inteligência Artificial (IA), entre outros.
Tomadores de decisão entrevistados pela Unidade de Inteligência da revista The Economist em vários países revelaram que a questão mais preocupante, para 39% dos respondentes, em relação ao tema, são os custos dos sistemas de saúde. A desigualdade do acesso aos serviços de saúde aparece em segundo lugar, com 29% das respostas.
Na questão do acesso, a saúde digital está permitindo aos pacientes terem o controle e conhecimento sobre sua própria saúde, o que tende a melhorar a prevenção de doenças agudas. A tecnologia também está propiciando a coleta e o armazenamento de informações. O acesso dos pacientes a esses registros e a possibilidade de compartilhá-los com os profissionais de sua confiança podem ser uma ferramenta poderosa na redução dos custos com saúde. Afinal, muitos desses custos são resultantes da escassez de informação e repetição de exames desnecessários.
Outra questão importante para os especialistas é justamente o compartilhamento de dados, desde que garantidos a privacidade e o sigilo das informações individuais. A informação não pode ficar concentrada em poucas empresas, reduzindo o potencial da saúde digital.
A tomada de decisões, com base na análise de dados, é outra conquista que a saúde digital propicia. Isso pode ser notado, por exemplo, em iniciativas do Sistema de Único de Saúde (SUS), considerado o maior sistema público de saúde do mundo. Mesmo que ainda demande soluções como o prontuário eletrônico, o SUS reúne uma fonte gigantesca de informações graças ao uso crescente da tecnologia.
A atuação de cada governo nessa área pode significar a diferença entre ser ou não ser um player nesse ecossistema. No Brasil, a saúde digital ainda tem desafios pela frente, mas vem se mostrando um modelo cada vez mais eficaz na superação de barreiras.
Ética e compliance a serviço dos pacientes
Programas de compliance são formados por um conjunto de políticas, procedimentos e treinamentos que visam garantir que as atividades de uma instituição estejam em conformidade com as normas vigentes do setor. Um dos principais objetivos de um programa de compliance na saúde é garantir que as instituições prestem serviços de alta qualidade e dentro das recomendações da lei.
Os pacientes são os mais beneficiados quando a ética e o compliance são praticados, afinal, atendê-los de forma adequada envolve todo o ecossistema, desde o fornecimento de equipamentos de tecnologia até a atuação direta dos profissionais da saúde.
A principal importância do compliance está no fato de garantir a segurança do paciente, prevendo ações corretas, dentro das regulamentações vigentes e com regras claras de procedimentos, o que minimiza riscos. Boas práticas de compliance e ética fortalecem a qualidade do atendimento e garantem a privacidade dos dados do paciente.
Para a ABIMED, este tema está entre suas prioridades. A entidade lançou no ano passado a 6ª Edição do Código de Conduta, que estabelece diretrizes para as associadas e o mercado. Entre as atualizações desta edição, estão a adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e à nova Lei de Licitações. A Associação também disponibiliza um programa de educação a distância para auxiliar as empresas a aprimorarem seus códigos de ética e compliance. Uma atitude ainda mais ousada foi a criação da Comissão de Ética Independente, composta por profissionais das áreas acadêmica, jurídica e médica, em uma iniciativa inédita do setor.
Em todas estas ações, nota-se o interesse maior em beneficiar o paciente, que está na ponta do ecossistema, por meio de ações de uma indústria cada vez mais consciente de seu papel junto à sociedade.
Ética e Inteligência Artificial no setor médico: a delicada relação entre dilemas profundos e avanços revolucionários
Por: Ligia Maura Costa
Presidente do Conselho de Ética Independente da ABIMED
A Inteligência Artificial (IA) surge como uma nova força, desbravando fronteiras e revolucionando práticas, inclusive no setor médico. A nova tecnologia de IA, equipada com complexos algorítmicos é capaz de analisar conjuntos de dados médicos em tempo recorde e de agilizar diagnósticos, auxiliar na identificação de doenças, personalizar tratamentos com base nos dados coletados, entre outros. Entretanto, ao lado das perspectivas revolucionárias, a interseção entre IA e o setor médico também traz questões éticas que exigem um cuidadoso equilíbrio entre inovação e integridade. Como garantir que as informações geradas sejam precisas e confiáveis? Como assegurar que não ocorram violações à privacidade dos usuários? Quem é responsável quando a recomendação da IA traz consequências nefastas? Como atribuir responsabilidades em cenários complexos em que a decisão é influenciada tanto pela IA quanto pela decisão do profissional de medicina? Essas poucas questões já ilustram a complexidade da relação entre IA e o setor médico e mostram a necessidade de uma abordagem cuidadosa que leve em conta tanto os avanços tecnológicos revolucionários quanto os princípios éticos fundamentais à medicina.
Em geral, as considerações éticas relacionadas à IA são a privacidade, transparência, viés e responsabilidades. No caso, é importante garantir que os algoritmos sejam desenvolvidos e treinados de forma a minimizar o risco de resultados enviesados, protegendo a privacidade e a segurança dos dados. Mitigar os riscos da inteligência artificial e promover a ética no setor médico requer estratégias-chave que envolvam regulamentações, transparência, colaboração e educação. O desenvolvimento de diretrizes e padrões éticos para o uso da IA no setor médico deve abordar questões como segurança dos dados, transparência dos algoritmos, validação clínica e responsabilidade jurídica. A criação de comitês multidisciplinares pode ajudar na elaboração de políticas públicas que equilibrem a inovação tecnológica com a segurança do paciente, por exemplo. Qualquer aplicação de IA no setor médico deve passar por testes clínicos rigorosos antes da implementação prática. A validação clínica assegura que a tecnologia seja precisa, confiável e segura para os pacientes. É crucial garantir que os dados usados pelos algoritmos sejam diversificados, para evitar obliquidades e preconceitos. Para tanto, é necessário que a coleta de dados se dê em diferentes origens demográficas e zonas geográficas, para que a IA possa ofereça diagnósticos e tratamentos igualmente precisos para todos.
O envolvimento dos profissionais de saúde no desenvolvimento, validação e implementação de soluções de IA no setor médico é fundamental. Só essa expertise clínica é que pode, de fato, avaliar a relevância e a eficácia das aplicações propostas pela IA. Para tanto, esses profissionais devem ser treinados sobre como funciona a IA, sobre suas limitações e, particularmente, como interpretar as informações fornecidas. Isso garantirá uma maior colaboração na delicada relação entre ética e IA mantendo sempre o foco no bem-estar do paciente.
As propostas de IA no setor médico devem ser monitoradas continuamente para identificar problemas éticos, realizar os necessários ajustes nos algoritmos e garantir o alinhamento com as melhores práticas. A combinação dessas estratégias pode contribuir para uma integração mais ética e íntegra da IA no setor médico, maximizando os benefícios e minimizando os potenciais riscos. Os atuais modelos de IA estão sendo moldados por uma combinação de fatores técnicos e sociais, além do desenvolvimento de estruturas legais e regulatórias. Mas, é necessário que se dê primazia às questões éticas à medida que a tecnologia de IA se integra ao setor médico.
Novas tecnologias podem auxiliar na escassez de profissionais da saúde
A escassez de profissionais da saúde é um tema que vem levantando preocupações ao redor do mundo. Durante a pandemia, esta realidade ficou mais evidente, pois os hospitais da rede pública e privada não conseguiram ampliar o número de profissionais na proporção desejada, devido à falta de mão de obra.
Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado no início da pandemia, apontou que o mundo já enfrentava uma escassez de 5,9 milhões de enfermeiros. Depois de toda a pressão que a Covid-19 causou em todo o sistema, não é difícil imaginar que esse número seja ainda maior.
Neste cenário, as novas tecnologias terão papel essencial na formação de novos profissionais, o que pode contribuir para mudar esse quadro de insuficiência. Especialistas concordam que investir em capacitação, oferecendo mais cursos na área da saúde, é algo que deve ser considerado como prioritário na busca por soluções para esta crise.
Um bom exemplo é da empresa Elsevier, que se estabeleceu com os livros impressos de referência para a formação e aperfeiçoamento na área da saúde, e decidiu estratificar o conteúdo, para que o profissional possa estudar no fluxo de trabalho.
É consenso que a questão da escassez de profissionais é uma área sensível para o ecossistema da saúde, e que as soluções tecnológicas podem auxiliar. Elaborado pela Philips anualmente, o Future Health Index 2023 apontou que combater a escassez de pessoas com inovação digital é um dos três temas principais para o setor. Mais de um terço dos entrevistados (37%) vê as empresas de tecnologia como parceiras fundamentais para aliviar tal pressão.
Fonte: Abimed, em 15.01.2024.