General Manager para a América Latina da Penumbra, Inc., Danielle Chu possui experiência de mais de 20 anos em grandes empresas do segmento de tecnologia em saúde. Formada em Biomedicina pela Unisa, com MBA em Marketing pela ESPM, a executiva está há oito anos na atual empresa, e há dois assumiu o cargo que a coloca diante da responsabilidade de gerir uma extensa área, que abrange os países de toda a região LATAM. Nesta entrevista, ela fala sobre sua atuação como executiva de uma multinacional do segmento de medical devices e sobre outras questões que envolvem o universo feminino.
Gostaríamos de começar falando sobre seu atual cargo, como general manager de América Latina da Penumbra. De modo geral, quais são suas principais responsabilidade neste posto?
Há dois anos, assumi o cargo de gerente-geral da Penumbra para América Latina, mas estou na empresa há quase oito. Tive a oportunidade de abrir a filial no Brasil e hoje tenho como responsabilidade vendas, marketing e back-office Penumbra LATAM. A Penumbra é uma empresa de medical devices, com matriz na Califórnia, na cidade de Alameda. Uma empresa que tem um foco muito grande no tratamento do AVC, pois foi assim que nós começamos. Hoje trabalhamos em diversas áreas com produtos para o tratamento de trombose arterial, venosa e inclusive trombose pulmonar. Temos ainda outras divisões, continuamos expandindo o portfólio, mas nosso principal foco no Brasil ainda é o tratamento do AVC isquêmico. O escritório fica em São Paulo, mas temos representação sobre uma extensa região, que inclui o México, toda a América Central e o Cone Sul.
Quantas pessoas estão mais diretamente ligadas à sua coordenação?
São 15 pessoas no total e que trabalham nas áreas que citei, de marketing, vendas, finanças, regulatória e de qualidade.
Em sua área de atuação, como se configura hoje o cenário para as lideranças femininas?
Dentro da Penumbra é um cenário muito interessante, porque 55% dos executivos são mulheres. A nossa presidente internacional é uma mulher, a presidente da Europa também, e temos a gerência geral da Ásia Pacífico e aqui na Latam comandadas por mulheres. A Penumbra é muito aberta à diversidade, tem essa preocupação com a inclusão. Eu me vejo como privilegiada de trabalhar em uma empresa com essa cultura, pois quando observo meus concorrentes percebo que o mercado de medical devices não funciona dessa forma, principalmente na América Latina, que ainda é um mercado muito conservador e onde os líderes, em geral, são homens. A gente vê isso mudando, obviamente. E eu acredito que isso é uma tendência, um processo que não vai acontecer de um dia para o outro, vai levar um tempo. Eu entendo que as mulheres têm a grande vantagem de serem multitarefas. É um perfil da maioria de nós e, como líderes, temos a habilidade de lidar com várias responsabilidades e priorizar cada uma delas no momento oportuno, de uma forma tranquila, de maneira que as coisas evoluam positivamente em termos de resultados.
Historicamente, as mulheres foram de algum modo preteridas em promoções na escala hierárquica. Você acredita que este cenário mudou ou ainda pode ser percebido nas organizações?
É interessante esse comentário, porque, no meu caso, que viajo bastante, porque é uma região extensa, e sempre me perguntam: “Você tem filhos, então como é que consegue viajar e conciliar sua vida familiar e profissional”. É uma pergunta que eu recebo sempre, mas nunca vi um colega meu, homem, passar por isso. Ainda existe um cenário muito conservador, muito machista, em que a mulher acaba arcando com a responsabilidade de coordenar e equilibrar o lado familiar com o lado profissional. No entanto, eu enxergo que, hoje, o pai e a mãe têm as mesmas responsabilidades na criação de um filho. Tem que existir essa divisão em casa. Posso dizer que, pessoalmente, eu tenho sucesso na minha carreira porque consegui encontrar esse equilíbrio dentro de casa. Tenho um marido muito presente, que divide muito bem as tarefas e responsabilidades familiares. É uma questão de encontrar esse equilíbrio na vida. Então quando um homem me faz essa pergunta eu devolvo a questão: como é que você faz para conciliar sua vida de viagens e de trabalho com a criação dos seus filhos? Eu vejo que ainda existe uma barreira, mas a geração mais jovem já se coloca de uma forma diferente, existe essa divisão de responsabilidades. Mas acho que principalmente na América Latina ainda tem um cenário muito machista.
Você já viveu algum tipo de situação desafiadora, em que houve questionamento sobre a sua capacidade em razão do gênero?
Aqui na Penumbra, eu não tenho memória de ter enfrentado alguma situação de um preconceito direto, seja pelo fato de ser mãe ou de ser mulher. Mas já vivi, em outra multinacional, não como líder, mas em cargo gerencial, uma situação de ser questionada sobre as minhas condições de abraçar uma responsabilidade maior. Então tive que me colocar de uma forma mais firme nessas situações. Eu acho que você tem que dar oportunidade antes de questionar alguém se é possível ou não abraçar aquele desafio. Cabe a mim, como profissional, ter essa resposta se estou em condições ou não.
Como foi para a Penumbra esse período da pandemia? Houve um aumento na demanda pelo tipo de equipamentos que a empresa fornece?
Para nós, a pandemia mexeu bastante na dinâmica de como fazer negócios. Houve um aumento, sim, nos casos de AVCs e tromboses. O paciente que tem o vírus da Covid-19 pode apresentar distúrbios de coagulação, aumentando o risco de trombose. Houve uma demanda maior do nosso material, mas conseguimos gerenciar de forma tranquila, não tivemos problemas no fornecimento e nem no serviço em si. Conseguimos gerenciar muito bem esse aumento de demanda e não foi traumático.
Um estudo da FGV revelou que as empresas que contam com uma mulher na alta administração têm melhores notas em índices ESG, nos aspectos ambiental e social. Em sua opinião, a que se deve esses resultados?
Acho que pelo fato de a mulher ter uma sensibilidade diferenciada, é parte do nosso gênero. Então quando abordamos uma questão ambiental ou social temos, em nossa essência, uma preocupação maior de conciliar essas questões, dando a devida importância que elas têm.
Há algum projeto nesse sentido na Penumbra atualmente?
A Penumbra vem mudando a sua cultura, porém ainda temos uma dependência muito grande dos projetos que são implementados na matriz, mas é algo que vejo como uma necessidade, por isso tenho tentado trazer alguns projetos que sejam independentes de uma diretriz da matriz e que façam sentido para a América Latina. Contratamos há pouco uma consultoria com este objetivo.
Vivemos também um momento de transformação digital. Quais são os desafios das lideranças para gerir negócios inovadores no setor da Saúde?
A Penumbra tem um braço que começou a ser desenvolvido um pouco antes da pandemia, que lida com Realidade Virtual na reabilitação de pacientes que tenham sofrido um AVC.
REAL y-Series é uma tecnologia avançada de reabilitação usando realidade virtual (VR) que oferece atividades terapêuticas desenvolvidas com contribuição de especialistas em reabilitação.
O REAL System utiliza a realidade virtual imersiva para transportar os pacientes para um mundo imaginativo de atividades que expandem os exercícios de terapia tradicional e as atividades da vida diária em um ambiente divertido. Os pacientes são transportados para um mundo virtual colorido e envolvente que os ajuda a se concentrar na reabilitação em uma experiência divertida de 360 graus
Trata-se de um equipamento que, através de uma tecnologia tridimensional, possibilita acelerar o processo de reabilitação. Por enquanto disponível apenas nos Estados Unidos e não é algo que chegue a América Latina em um curto prazo, mas a inovação é algo presente e certamente teremos acesso a essa tecnologia, que estará totalmente associada ao AVC, o nosso core business.
Vocês gostaria de acrescentar algo?
Apenas agradecer o trabalho que a ABIMED vem fazendo no sentido de destacar a relevância de ter uma diversidade dentro das empresas, e a importância da gestão de feminina. Ainda vivemos em uma região muito machista, mas aos poucos estamos mudando e é fundamental que cada um faça o seu papel.
Mídias sociais e difusão de conhecimentos sobre cuidados em saúde
A pandemia fez com que a opinião pública voltasse os olhos para a saúde. Nessa nova dinâmica de busca por informações a respeito da Covid-19 e de vacinas, a internet desempenhou um importante papel, tanto para quem procurava quanto para os que ofereciam conteúdo. Nos últimos anos, profissionais da área de saúde viveram a ampliação do seu poder de disseminação de conhecimento por meio das redes sociais. Plataformas como Instagram, TikTok e YouTube, entre outras, possibilitam que médicos, enfermeiros, nutricionistas, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas e afins compartilhem com o público conhecimentos específicos das suas áreas de atuação. Clínicas e demais centros de saúde também podem se beneficiar do ambiente digital. Em contrapartida aos vídeos, textos e demais conteúdos postados, os profissionais de saúde recebem reconhecimento e ampliam o networking.
Essa presença nas redes sociais é importante para o público e também para os profissionais da saúde produtores de conteúdo, mas alguns princípios precisam ser seguidos. Saiba mais!
Ética e bom senso – Redes sociais são um mundo paralelo? Nem pensar! O que vale fora da internet também deve ser seguido dentro dela. O bom senso e o Código de Ética da profissão devem guiar a atuação dos profissionais de saúde nas redes sociais. Por isso, referências a casos práticos e imagens de tratamentos – com fins estéticos, por exemplo – postados em perfis e canais não podem revelar a identidade do paciente. Nomes e demais informações pessoais de pacientes devem ser ocultados.
Propagandas de produtos e medicamentos também devem ser evitadas. Caso o profissional faça referência a marcas específicas, deve esclarecer por que escolheu compartilhar aquela variedade específica e explicar que existem variantes daquela modalidade no mercado.
Informação responsável – Profissionais de saúde devem correr de frases de efeito e chamadas sensacionalistas. É possível “vender seu peixe” sem apelar para recursos linguísticos próprios da publicidade de produtos, que ensejam sensações de escassez e medo de perder uma oportunidade. Por isso, chamadas como “melhor tratamento” ou “a solução definitiva” são proibidos.
Clientes procuram conhecimento e credibilidade em perfis de saúde. É possível que seguidores venham a se tornar clientes, mas essa transição é fruto de uma relação de confiança e admiração, a ser construída sobre informações de qualidade, com realismo, responsabilidade e ética. As interações com seguidores, seja em comentários abertos ou em mensagens privadas, devem seguir os mesmos princípios. Valores de tratamentos não podem ser divulgados em perfis. O ideal é que se mantenha em destaque o número de telefone do consultório ou clínica, para que o seguidor interessado busque mais informações.
Ciência antes de tudo – Popularizar conhecimento médico é uma forma de preservar a vida e a saúde. Por isso, antes de tudo, o profissional deve ter consciência da sua condição e dos deveres da profissão. A ciência deve guiar os conteúdos, e não modas ou tendências no universo de digital influencers.
É proibido divulgar tratamentos sem reconhecimento do Conselho de Classe da categoria profissional. Também não é correto manipular informações a fim de criar ou divulgar qualquer tipo de fake news. Estudos inconclusivos ou de baixa qualidade não podem servir de reforço para publicações. Referências bibliográficas de livros e artigos utilizados para compor o conteúdo devem ser elencadas.
Iniciativas ESG de organizações de Saúde e o que elas trazem de benefícios para as instituições e seus públicos-alvo
Sustentabilidade ambiental, responsabilidade social e governança corporativa são os elementos que fazem parte do ESG – sigla que vem do inglês Environmental, Social and Governance. Há décadas são temas trabalhados por várias empresas, mas recentemente ganharam maior importância como parte da estrutura organizacional, orientando as práticas empresariais, inclusive como vetor de investimento e de estratégia de negócios.
Uma organização de Saúde que tenha implantado o ESG gera, automaticamente, benefícios para a sociedade ao reduzir o impacto ambiental. As práticas de ESG aproximam mais uma empresa de seus clientes, considerando cada vez mais a preocupação destes com direitos humanos, diversidade, eficiência energética, redução de custos e aumento da eficiência. Praticar o ESG também aprimora a relação com a comunidade, aumenta o número de pessoas atendidas e melhora a qualidade de vida dos pacientes.
Da porta para fora, a democratização do acesso à saúde é um tema de maior relevância, mas mesmo ações internas que são “invisíveis” aos usuários resultam em benefícios, tais como a cadeia de suprimentos e fornecedores com comprometimento ambientalmente sustentável, metas de redução de emissão de CO2, valorização do material humano interno à corporação, ética e combate à corrupção. São medidas que resultam na melhor qualidade de produtos ou serviços oferecidos aos públicos-alvo de instituições de Saúde. Ações como otimização de consumo de água, redução de geração de resíduos ou melhor destinação destes precisam ir além do comprometimento imposto por normas governamentais: no ESG, esse empenho tem de ser ainda maior e as iniciativas precisam ser, em primeira instância, da empresa. É preciso um olhar criativo em todo esse processo, como por exemplo reciclar isopor e películas de raios-X, algo que parece ser uma medida pequena, mas no ESG toda iniciativa é válida e traz novas ideias.
Há muitas práticas de ESG que podem ser adotadas e que, não necessariamente, estejam relacionadas apenas ao escopo de atuação de uma organização de saúde. Ações em benefício à comunidade, tais como combate às desigualdades raciais, sociais, e de gênero, soluções para falta de moradia, educação básica em saúde para moradores e trabalhadores das regiões próximas à instituição – esses são exemplos reais que já foram colocados em prática por algumas organizações de saúde para atender ao S (Social) do ESG. Estas ações devem ser vistas como a criação de um capital social – e aqui não estamos falando do valor do patrimônio de uma empresa e sim de relações de valor com a comunidade, a fim de oferecer outros benefícios, tangíveis ou intangíveis. Nem sempre os resultados dessas ações são mensuráveis, mas eles existem.
A tecnologia é um importante aliado na aplicação de práticas de ESG, como no uso de fontes de energia alternativas para geração de eletricidade, e este é mais um pequeno exemplo. Cada organização precisa desenvolver um olhar sobre como a tecnologia pode melhorar sua eficiência de modo a beneficiar seu público-alvo. “Pensar fora da caixa” é essencial para saber onde investir os melhores esforços, recursos e equipamentos de maneira pontual e focada no bem-estar, na segurança e na saúde da comunidade.
Investir em ESG não se trata de uma corrida para tentar ser melhor que seu concorrente. Os resultados não são instantâneos e a meta principal não deve ser a melhora da imagem corporativa. Esta virá com o tempo e de maneira orgânica, agregando o devido e merecido valor como resultado do interesse autêntico por se buscar o melhor para as pessoas que se relacionam com as organizações, sejam seus consumidores ou não.
ABIMED oferece treinamento em Compliance e Código de Conduta
Instituído com o objetivo de conscientizar para a importância do comportamento que esteja de acordo com padrões éticos na administração pública e privada, o Dia Nacional da Ética é celebrado em 2 de maio. Aproveitando a data, a ABIMED está lançando um curso no formato EAD sobre Compliance e Código de Conduta Treinamento do Código de Conduta 6ª versão | ABIMED. Oferecido a todos os associados por meio de uma plataforma digital, o programa é constituído de dois módulos e oferece certificado de participação.
Com duração de 15 minutos cada, os dois módulos do treinamento contam com um questionário ao final, com objetivo de verificar a assimilação do conteúdo pelos participantes. O primeiro módulo apresenta noções básicas dos conceitos de ética, compliance, transparência e governança, além de introduzir a estrutura do Código de Ética da ABIMED e explicar qual é o propósito da publicação e seus objetivos. O segundo módulo do treinamento faz uma abordagem mais aprofundada do conteúdo do Código em 13 tópicos, que abrangem os conceitos mais importantes do documento.
Em tempos que o compliance é, cada vez mais, um requisito exigido pelas organizações, esta é uma importante oportunidade para os associados da ABIMED indicarem aos seus colaboradores à participação no curso, que é gratuito. O programa é especialmente indicado para os funcionários C-Level, sobretudo de áreas como marketing, comercial, jurídico e próprio setor de compliance da empresa. Porém, está aberto a todos aqueles que tiverem interesse. A Associação recomenda que sejam indicadas no mínimo 10 pessoas ou 10% do seu número de colaboradores para participarem. Para fazer sua inscrição clique aqui.
Vale destacar que a ABIMED foi pioneira entre as associações da área de Saúde na criação de um Código de Conduta, que está em sua 6ª edição. Também foi a primeira em seu setor a instituir uma Comissão de Ética Independente, sendo, até o momento, a única a contar com um órgão como este. Sua missão é elabora e propor alterações no Código de Conduta; interferir junto às associadas quando não seguirem os preceitos do Código de Conduta; analisar, instaurar e julgar processos administrativos acerca da violação do Código.
O treinamento estará disponível no dia 2 de maio ao dia 30 de agosto para todas as associadas interessadas no Portal do Associado.
ABIMED debate as iniciativas de inovação aberta durante a #Fisweek
Em 4 de maio, a ABIMED foi convidada a apresentar um painel no evento #Fisweek, um dos maiores encontros de lideranças e especialistas de diversos setores da saúde na América Latina. O tema abordado foi “Implicações da inovação aberta em saúde”, com a moderação do presidente executivo da Associação, Fernando Silveira Filho, e a participação de dois importantes especialistas no assunto.
O primeiro a se apresentar foi o engenheiro Marco Belgo, CEO do InovaHC, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), onde também desenhou e implantou o InLAB – Innovation and A.I. LAB. Por esta perspectiva do um hub de inovação, ele falou sobre a importância de firmar parcerias com a indústria para trazer mais tecnologia para o setor de saúde. “Nós começamos a discutir o tema da inovação aberta a partir do nosso programa aqui no Hospital das Clínicas, porque tínhamos aquela ideia de que, realmente, para fazer diferença, precisaríamos trabalhar dessa maneira. Sair daquela ideia de que a nossa base de conhecimento interno traria a inovação de que necessitávamos, por mais qualificada que seja. Partimos da convicção de que as bases de conhecimentos que estão em outras empresas e universidades, mesmo que de outros segmentos, tinham uma importância tão grande quanto a nossa”, declarou.
O especialista acrescentou que, ao fazer essa parceria, a intenção sempre foi buscar um programa que fizesse sentido para a saúde, a fim de realmente resolver problemas, sempre focando na jornada do paciente, para torná-la mais rápida e mais adequada ao que as pessoas esperam. “Durante esse processo percebemos que ao fazer essa troca de informações, muitas inovações que não faziam sentido aqui dentro, ao se tornarem permeáveis, foram para outros locais onde fizeram muito mais sentido. E a recíproca é verdadeira. Muitas coisas que tínhamos problemas para resolver, encontraram solução quando começamos a trabalhar com a indústria. Esta é a grande riqueza desses programas de inovação aberta, porque você realmente consegue potencializar algo”, explica Belgo.
O CEO do InovaHC lembra que o programa de inovação aberta envolve também a gestão de risco. “Os associados da ABIMED, quando adotam essa inciativa precisam avaliar o risco do que podem levar ou não para o programa, a exemplo de um segredo industrial que ainda não podem repartir. Todos os parceiros precisamos zelar pelos seus interesses, porque é assim que um plano de inovação se faz com confiança e qualidade, isso que gera frutos. À medida que esse sistema vai funcionando melhor, com a integração público-privada, envolvendo as universidades, a sociedade civil organizada e os governos, isso realmente tende a criar um local onde se congregam e se discutem iniciativas que fazem sentido. Mas você precisa zelar por toda essa parte do risco e de análises regulatórias específicas”, conclui.
Para o presidente-executivo da ABIMED, a questão da inovação aberta, sobretudo no contexto das parcerias entre os centos de pesquisa e a indústria, nos remete a um ponto importante: a formação profissional. “A demanda por esse tipo de profissional está se acelerando desde antes da pandemia. E durante a crise sanitária foram muitos os desenvolvimentos que evoluíram rapidamente e outros que surgiram. Eu imagino que, em breve, iremos nos deparar com algum tipo de GAP nessa área, tanto na formação quanto na disponibilidade de profissionais”, disse.
Na sequência, o engenheiro Manuel Coelho, Head de Inovação para a América Latina da Siemens Healthineers, e coordenador do Comitê de Tecnologia e Inovação da ABIMED, abordou o tema da inovação aberta sob a perspectiva de uma grande empresa do segmento de equipamentos e dispositivos médicos. Ele fez uma revisão histórica daquilo que a Siemens vem desenvolvendo há décadas, para apresentar um pouco do conceito de inovação, ou seja, a habilidade de aplicar o conhecimento na prática. “A inovação é uma grande ideia, mas ela só faz sentido se eu tiver como aplicá-la, transformá-la em algo que realmente faça sentido. Costumamos dizer que a inovação é a invenção com nota fiscal. Você tem que ter a preocupação de realmente lançar essa nova ideia como um produto ou um processo”, declarou.
Ele também apresentou um mapa do Global Innovation Index 2019 que mostra onde estão localizados, hoje, os principais centros de desenvolvimento de inovação. “Há uma concentração gigantesca no hemisfério norte, na América do Norte, na Europa, na China e a Índia, de grandes polos de desenvolvimento no mundo. Em termos de indústria, a Siemens mantém um mapa muito semelhante na localização de seus próprios centros. Olhando para o mapa, você percebe que o grande crescimento da população está exatamente naqueles locais onde esses centros de desenvolvimento não estão. Quando você começa a refletir sobre isso percebe que há necessidade de trazer um outro olhar para a inovação”, destacou.
Ao abordar o tema da inovação aberta em si, o especialista apontou que, na atualidade, as grandes inovações saem, muito provavelmente, não mais da bancada, mas sim de constantes interações com os clientes, pois são eles que mostram quais são as necessidades do momento. “Há essa mudança de perfil, em que a indústria sai dos grandes centros desenvolvedores e começa a escutar muito mais o mercado para saber o que, efetivamente, é necessário para que possamos continuar na vanguarda da tecnologia. Esta é uma das principais justificativas que explica a decisão de abrir o nosso laboratório de Inteligência Artificial junto com o HC para desenvolvermos projetos em conjunto, o que, para nós, é um motivo de muito orgulho”, declarou Coelho.
O presidente-executivo da ABIMED reforçou essa perspectiva ao comentar que a inovação na área da saúde, como forma de melhorar a vida das pessoas, é a tônica do setor que a Associação representa. “Temos evoluções incrementais a cada 18 ou 24 meses, além das inovações disruptivas que aparecem. É um setor de alta produtividade em termos de inovação, justamente visando isso: a melhoria da qualidade de vida das pessoas. A cooperação é fundamental e você. Manuel, trouxe esse dado bastante atualizado. Hoje sabemos que não há ninguém melhor que a pessoa que está na outra ponta da cadeia para saber o que é necessário. É o profissional ou a empresa que lida com aquele produto ou processo todos os dias”, declarou Silveira Filho.
Caminhos para a inovação aberta
Para finalizar o debate, o moderador colocou em questão quais são os caminhos para vencer eventuais barreiras à plenitude de um processo colaborativo aberto cada vez mais forte. Para Marco Belgo, a melhor maneira de vencer obstáculos é apresentar as histórias de sucesso, mas existem aspectos estruturais que são preocupantes. “Um deles é parte regulatória, que ainda precisa ser mais bem integrada. A gente sabe que no Brasil 80% da população usa o Sistema Único de Saúde. E como é que o governo compra a melhor inovação? Então essas coisas precisam ser estruturadas, porque precisamos vender para esse mercado também”, disse. Manuel Coelho mencionou o tema do compliance, que sempre está posto nas mesas de discussões. “Devemos ter muito cuidados para não apenas salvaguardar a empresa, mas também a instituição”, ressaltou. O presidente-executivo da ABIMED acrescentou que “em saúde, tudo o que pudermos fazer para as coisas darem certo tem que ser feito. Principalmente em um país com tantas disparidades como o nosso, todos esses avanços são fundamentais”.
Por fim, os debatedores abordaram a questão da conectividade, sob a perspectiva de que o 5G deverá promover um salto quântico monumental em uma série de coisas, na mobilidade, na precisão, na consistência das conexões, o que será também importante para impulsionar as iniciativas de inovação aberta. “O sucesso, daqui para frente, será definido pelo quão rápido a empresa se dispôs a aceitar essa nova forma de fazer inovação. Não vejo outra forma no momento de fazer inovação de uma maneira célere sem que seja nesse modelo mais aberto, mais inclusivo”, declarou Belgo.
“Não nos faltam boas universidades e profissionais competentes aqui na nossa região, no Brasil. A grande vantagem que temos na América Latina é que enfrentamos dificuldades que o restante do mundo não tem. Por exemplo, o 5G aqui não é só para eu ter uma conexão mais rápida, mas para viabilizar o acesso à saúde. São alguns impulsionadores que vão muito além do aspecto meramente tecnológico”, apontou Coelho.
Xenotransplante: esperança para quem aguarda um novo órgão
O conceito de xenotransplante parece saído de um filme de ficção científica, mas está cada vez mais próximo da realidade. Em desenvolvimento há pelo menos 20 anos, a técnica busca utilizar órgãos de porcos geneticamente modificados para transplante em seres humanos. Duas décadas de pesquisas em engenharia genética começam a dar os primeiros resultados. Em janeiro de 2022, um homem norte-americano foi o primeiro humano a receber o transplante de um coração suíno. O paciente morreu dois meses depois, e ainda não se sabe se o órgão transplantado teve responsabilidade no óbito.
O Brasil também está na nova fronteira da tecnologia da saúde. Em março deste ano, o Governo do Estado de São Paulo anunciou o investimento de quase R$ 50 milhões em uma parceria entre Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a startup XenoBrasil para desenvolvimento de pesquisas sobre xenotransplante. O acordo também prevê a criação de um Núcleo de Tecnologias Avançadas para Bem-Estar e Saúde Aplicados às Ciências da Vida, o primeiro na América Latina. Também em São Paulo, desde 2017, o Centro de Estudos do Genoma Humano e Células Tronco, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), e o Instituto do Coração trabalham na geração de embriões suínos geneticamente modificados que viabilizem transplantes entre espécies.
A criação de porcos cujos órgãos sejam compatíveis com o corpo humano é a base do xenotransplante. Em 2002, uma empresa de engenharia genética da Escócia e outra nos Estados Unidos anunciaram o nascimento de, ao todo, seis clones de porcos geneticamente modificados. Esses animais, frutos da transgenia, têm uma série de diferenças em relação aos de tipo comum. Eles podem ser menores, por exemplo, para que seus órgãos caibam no corpo de um ser humano. Mas essa não é a principal adaptação feita nos animais. O principal objetivo da clonagem é minimizar as chances de rejeição dos transplantes.
O corpo humano possui poderosos mecanismos em seu sistema imunológico para identificar e atacar corpos estranhos, que funcionam contra micro-organismos ou órgãos complexos, como um novo coração. Por isso, os porcos para transplante são resultado de uma engenharia genética que ajusta moléculas e proteínas do animal para torná-las mais compatíveis com o nosso corpo, incluindo em seus genes marcadores humanos. Dessa forma, o corpo recebe um órgão “camuflado”, com menos de chances de ser visto como invasor, atacado e morto. O modelo conhecido como “porco de dez genes” é tido como o mais avançado nesse sentido. Foi este, por exemplo, o animal usado no transplante de David Bennet, o norte-americano cujo caso, de tão complexo era inelegível até mesmo para receber um coração humano. O xenotransplante foi sua única esperança.
O primeiro transplante de coração da história aconteceu em 1967. No início, os pacientes transplantados sobreviviam pouco tempo após a cirurgia. Em 1971, uma mulher viria a se tornar a pessoa que viveria por mais tempo com um novo coração: 23 anos. No Brasil, o primeiro transplante de coração foi realizado em 1968, em São Paulo. Hoje, o País conta com centros de excelência em transplante mundialmente reconhecidos. No entanto, assim como todo o planeta, a fila de espera por um órgão pode ser muito demorada. Segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, em 2020 cerca de 29 mil pacientes estavam em lista de espera para transplante de rim, mas apenas 7,4 mil procedimentos foram concretizados. A expectativa é que, com o avanço dos xenotransplantes no País, a demanda por rins seja a primeira atendida.
Diálogos ABIMED: programação será um dos destaques da Hospitalar 2022
Patrocinadora institucional do evento, a ABIMED ocupará dois espaços no Pavilhão do São Paulo Expo.
De 17 a 20 de maio, a ABIMED participa da Hospitalar 2022, que acontece no São Paulo Expo, zona sul da capital paulista. Nesta que é a 27ª edição do evento, a Associação terá como destaque a programação do Diálogos ABIMED, que terá lugar na Arena ABIMED, localizada no Pavilhão 7/8 (Arena Indústria e Distribuidores). Temas como tecnologia, sustentabilidade, governança e compliance fazem parte das palestras apresentadas por representantes do poder público, da academia e demais instituições do setor, bem como especialistas e profissionais atuantes na iniciativa privada.
Além da Arena ABIMED, a Associação estará presente no evento em um estande de 100 metros quadrados, localizado no Pavilhão 2 (H-34), onde serão instaladas duas salas de reuniões, reservadas para encontros e relacionamento com associados, parceiros de negócios e demais visitantes interessados em conhecer um pouco mais sobre suas atividades.
A partir do contexto de transformação que permeia a Hospitalar 2022, a programação da Arena ABIMED comportará painéis sobre diversos assuntos inseridos nos cinco Eixos Estratégicos da Associação. Nesse período de retomada das atividades presenciais, e no cenário pós-pandêmico, o foco das palestras está em sintonia com o tema central da Hospitalar para este ano: “Back to basics: recuperando o fundamental e assimilando a inovação”.
Os temas das palestras na Arena Diálogos ABIMED estão imperdíveis. Confira todos os detalhes e horários e não fique de fora dessa.
17 de maio – Políticas para o SUS, avanços regulatórios e o futuro da Telemedicina no Brasil.
Painel 1: 14h às 15h
Retomada das discussões acerca da importância do Complexo Econômico Industrial da Saúde para o SUS e como Política Industrial Setorial.
- Dep. Alexandre Padilha – Deputado Federal SP
- Dep. Pedro Westphalen – Deputado Federal RS
- Antônio Nasser – Gerente Geral na Baxter Hospitalar e Presidente do Conselho de Administração da ABIMED
- Fernando Silveira Filho – Presidente Executivo da ABIMED (moderação)
Painel 2: 15h15 às 16h15
Avanços Regulatórios e Perspectivas Futuras para Produtos para a Saúde (ANVISA).
- Cristiane Jourdan – Diretora da ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária
- Cristina M. Almeida – Diretora de Assuntos Regulatórios da BECKTON DICKNSON e Membro do Conselho de Administração da ABIMED
- Angélica Marques – Gerente de Assuntos Regulatórios da ABIMED (moderação)
Painel 3: 16h30 às 17h30
Regulamentação da Telemedicina no Brasil: Necessidade e Perspectivas.
- Dep. Alexandre Padilha – Deputado Federal SP
- Chao Lung Wen – Chefe da disciplina de Telemedicina da FMUSP
- Manuel Coelho – Head of Enterprise Services da Siemens Healthineers e Coordenador do Comitê de Tecnologia e Inovação da ABIMED
- Felipe Dias Carvalho – Gerente Regional de Brasília ABIMED (moderação)
18 de maio – Fomento e tecnologia na saúde, INMETRO e tabela TUSS.
Os temas mais quentes do setor estão na Arena Diálogos ABIMED.
Painel 1: 14h às 15h
Os papéis do Estado, da Academia e da Indústria (tripla hélice) na promoção e fomento à P&D de tecnologias em saúde no Brasil.
Painel 2: 15h15 às 16h15
Novo Modelo Regulatório do INMETRO aplicado ao setor de dispositivos médicos.
Painel 3: 16h30 às 17h30
Tabela TUSS: cadastramento automático de produtos na tabela TUSS frente a modelos existentes
19 de maio – Proteção ambiental no setor, regulação UE, Brasil e USA, além das mudanças na lei das licitações. Eixo estratégico Ética e Compliance.
Painel 1: 14h às 15h
Políticas de Compliance e Ações de Proteção do Ambiente de Negócios no Setor de Dispositivos e Equipamentos Médicos.
Painel 2: 15h15 às 16h15
Principais Pontos de Convergência das Normas de Regulação de Privacidade de Dados da UE, Brasil e USA.
Painel 3: 16h30 às 17h30
As Mudanças na Lei de Licitações e os Impactos no Setor de Saúde.
20/05 – Parcerias entre a iniciativa privada e o terceiro setor, meio ambiente e saúde mental nas corporações. Os temas mais importantes estão na pauta da ABIMED.
Painel 1: 14h às 15h
Como uma parceria entre a iniciativa privada e o terceiro setor pode qualificar a atenção à saúde no Brasil tendo por base o uso da tecnologia médica?
Painel 2: 15h15 às 16h15
Pessoas, Meio Ambiente e Justiça Climática.
Painel 3: 16h30 às 17h30
Saúde mental como desafio para as companhias.
Espaços da ABIMED na Hospitalar 2022
Serviços:
Estande ABIMED
Fonte: Abimed, em 13.05.2022.