Por Glória Faria (*)
Até meados do século XX homens e mulheres tinham papéis bem delineados na sociedade. Das mulheres esperava-se que fossem filhas obedientes e recatadas, criadas que eram para serem futuras esposas dóceis, mães dedicadas e donas de casa eficientes. Os bancos das universidades, o direito ao voto, a escolha da profissão e até mesmo o controle da natalidade só lhes foram acessíveis nas últimas décadas do século passado.
A carreira alternativa ao rótulo “do lar” era a de professora e por ela passaram inúmeras mulheres admiráveis tanto no Brasil como no mundo. De professoras primárias a professoras universitárias as educadoras galgaram degraus e ganharam espaços.
Conquistamos carreiras nas áreas de exatas e solidificamos os espaços nas humanas. Formamos um contingente de pesquisadoras nas áreas médica e biomédica, profissionais nas ciências sociais e no mundo jurídico inclusive no Judiciário e Ministério Público com várias ministras nos tribunais superiores. Na política tivemos a primeira ministra nos anos 90 e em 2010 a primeira presidente.
Muitas foram as conquistas. Grandes e pesadas, as novas responsabilidades. Os novos cargos e encargos criaram uma superposição de tarefas, as famosas duas jornadas de trabalho. Apenas muito recentemente começamos compartilhar com os homens os encargos domésticos.
A Mulher Maravilha, Mulher Gavião, Mulher Gato ou qualquer outra super-heroína que só existem mesmo na ficção, começam a deixar de ser o modelo perseguido por nossas irmãs, filhas e netas. Já dividimos com nossos pares o dia a dia das tarefas domésticas e da criação dos filhos. Essa talvez a maior conquista neste nosso século XXI!
Novos ares que sopramos com toda a força de nossos pulmões, agora permitem que profissão, vida afetiva e maternidade façam parte de nosso cotidiano sem a antiga sombra da culpa. Podemos parar de arrastar os grilhões do remorso de deixar nossos bebês nas creches – que hoje vemos cuidam deles muito bem - e onde eles desenvolvem as capacidades e aptidões sem que nos seja roubado seu afeto. A conquista da licença maternidade tende a estender-se aos homens, como ocorre em muitos países europeus, o que lhes dará a oportunidade de se engajarem mais rápido no papel de pai.
Vivemos novos tempos em que a disparidade dos salários masculinos e femininos para o mesmo cargo já diminuiu e tende, esperamos todas, a desaparecer. Tempos em que nos sentimos mais seguras e livres para abraçar todas as escolhas que se apresentam.
Chega do rótulo de minoria! Afinal, somos 51,5% da população brasileira!
Em 2010, éramos 43,9% da força de trabalho. Em 2014, 38% dos lares tinham as mulheres como responsáveis, sendo que, consideradas apenas as famílias monoparentais, nestas o percentual feminino de sustento era de 87,4%.
Não, não é como deveria ser e como, de fato, poderá ser. Ainda persiste a violência contra a mulher, o abuso doméstico, a discriminação social e de raça, a dificuldade, para muitas, de acesso a uma boa educação. São desvios de conduta arraigados na longa tradição de opressão que, aos poucos, vãos desconstruindo e vencendo. E somos nós mulheres as protagonistas dessa luta.
(*) Glória Faria é Consultora Jurídica da CNseg.
Rio de Janeiro, 08 de março de 2017