Estudo da EY aponta que a necessidade de múltiplas autorizações por parte de
diferentes representantes legais é o principal entrave para pessoas jurídicas
A penetração do Open Finance no Brasil é de apenas 3% das empresas, bem distante dos 20% registrados no Reino Unido, precursor dessa iniciativa. O motivo principal para isso é a difícil jornada de dar consentimento para participar desse ecossistema, de acordo com a nova edição do estudo OpenTalks realizado pela EY, que contou com a participação de 50 executivos de instituições financeiras, incluindo gerentes, diretores, CEOs e outros profissionais de liderança. Três em cada dez (30%) apontaram a necessidade de múltiplas autorizações por parte de diferentes representantes legais da empresa como a principal justificativa para que o Open Finance não tenha decolado entre as empresas.
Essa explicação, embora válida, não se aplica ao todo. Isso porque o Brasil tem mais de 17 milhões de CNPJs com apenas um sócio, de acordo com análise feita na base de dados da Receita Federal, que considera MEIs, empresários individuais e sociedades limitadas. “Esses empresários não enfrentam o obstáculo das alçadas múltiplas, o que indica que há outras barreiras menos debatidas do Open Finance para as empresas”, diz Chen Wei Chi, sócio de transformação digital e inovação para serviços financeiros da EY. Está entre elas, ainda segundo o levantamento da EY, a ausência de uma estratégia clara entre as instituições financeiras participantes para contemplar esse público, já que 20% das instituições entrevistadas confirmam não dar foco no público PJ para as ações inseridas no Open Finance. Outras 17% admitem que não têm uma proposta de valor clara para esse segmento.
No entanto, de acordo com a pesquisa "A Voz das PMEs", também da EY, 82% dos pequenos e médios empresários estão dispostos a compartilhar os dados do negócio em troca de produtos mais personalizados, que é justamente o propósito do Open Finance. Além disso, a pesquisa destaca que 86% das empresas mantêm relacionamento com mais de uma instituição financeira, sendo que 25% delas trabalham com entre seis e dez instituições diferentes. Essa fragmentação natural do relacionamento bancário da pessoa jurídica cria espaço ideal para soluções de integração financeira baseadas no Open Finance.
Apesar dos desafios, o ritmo de crescimento recente do público pessoa jurídica dentro desse ecossistema é animador. Em abril de 2024, o Open Finance brasileiro contava com cerca de 239 mil empresas conectadas. Em abril de 2025, esse número mais do que dobrou, chegando a 589 mil PJs, um salto de 146% em apenas 12 meses. O número ainda está distante do universo de empresas ativas no país, mas o crescimento aponta para uma oportunidade concreta de expansão.
BC preocupado com a melhoria da jornada
O Banco Central voltou a incluir, em sua agenda regulatória de 2025/2026, a melhoria da jornada de Open Finance para clientes do tipo pessoa jurídica, reconhecendo as dificuldades atuais do modelo de alçadas múltiplas.
Na avaliação do estudo da EY, há espaço para revisão da resolução BCB nº 295/2023, que isenta os bancos corporates da participação no Open Finance. Em vez de afastar esses players, o caminho poderia ser trazê-los para colaborar na discussão de como tornar o ecossistema mais atrativo para as pessoas jurídicas, já que são eles que melhor conhecem as necessidades das grandes corporações. “Outro aspecto que pode colaborar para maior adesão do público PJ está na personalização do relacionamento. As interações pessoais por parte das instituições participantes do Open Finance com esse segmento de cliente podem fazer a diferença”, finaliza Chen.
Fonte: Agência EY, em 23.01.2026.