Documento aponta condições das quais o país não pode abrir mão e propõe aos próximos governantes uma agenda para ampliar o acesso, melhorar a qualidade do cuidado e utilizar melhor os recursos da saúde
Uma redução de apenas 20% do desperdício potencial na saúde brasileira poderia liberar até R$ 72 bilhões por ano — recursos capazes de informatizar cerca de 45 mil Unidades Básicas de Saúde ou contribuir para reduzir significativamente a fila de cirurgias eletivas do SUS. Diante desse cenário, a FESAÚDE e o SindHosp lançam, no dia 15 de setembro, na sede da FIESP, os “5 Inegociáveis da Saúde - Uma agenda para as lideranças políticas brasileiras 2027 – 2030” que será apresentada aos assessores da área de saúde dos candidatos à Presidência da República em debate público.
O desperdício é apenas uma das faces de um problema maior. O trabalho parte de um amplo diagnóstico da saúde brasileira e identifica entraves que atravessam tanto o SUS quanto a saúde suplementar: informações que não acompanham o paciente ao longo de sua trajetória, sistemas que não conversam entre si, desigualdades no acesso, diferenças injustificadas na forma de tratar condições semelhantes e recursos consumidos sem gerar benefício efetivo para o paciente.
A conclusão que orienta o documento é que o Brasil não precisa construir um novo sistema de saúde, mas fazer funcionar melhor, de forma integrada, eficiente e coordenada, o sistema que já possui. Isso significa conectar pessoas, informações, processos e instituições e fazer com que os recursos disponíveis produzam mais acesso, qualidade e resultados para a população.
É dessa análise que surgem os cinco pontos considerados inegociáveis para a evolução da saúde brasileira entre 2027 e 2030: Paciente Único, Dados Estruturados, Acesso Qualificado, Cuidado Padronizado e Desperdício Contido. Eles não são apresentados como medidas isoladas, mas como partes de uma mesma engrenagem: a ausência de qualquer um reduz a capacidade dos demais de produzir resultados.
“Chamamos esses cinco pontos de Inegociáveis porque não são propostas que deveriam mudar a cada governo. Podemos discutir os caminhos para implantá-las, os prazos e as prioridades, mas o país não deveria abrir mão de ter um paciente identificado ao longo de sua trajetória, dados que conversem entre si, acesso ao cuidado no momento certo, padrões de qualidade e controle permanente do desperdício”, afirma Francisco Balestrin, presidente da FESAÚDE e do SindHosp.
Cinco condições para fazer o sistema funcionar melhor
Paciente Único parte de um problema básico: o sistema ainda não reconhece o cidadão como uma única pessoa ao longo de toda a sua trajetória de cuidado. Entre 20 milhões e 30 milhões de brasileiros transitam regularmente entre SUS e saúde suplementar sem que seu histórico clínico os acompanhe de forma integrada. Na saúde suplementar, a rotatividade anual chegou a 27,9% dos beneficiários em 2025, ampliando a descontinuidade das informações assistenciais.
Dados Estruturados busca transformar a enorme quantidade de dados produzida pela saúde em informação efetivamente utilizável. A proposta é integrar informações hoje dispersas para apoiar o atendimento ao paciente, permitir o acompanhamento de resultados, comparar indicadores e melhorar as decisões de gestão.
Acesso Qualificado enfrenta a distância entre ter cobertura e efetivamente receber o cuidado necessário. A proposta é garantir atendimento no momento adequado, com continuidade e capacidade de resolver o problema do paciente, fortalecendo a atenção primária e organizando linhas de cuidado.
Cuidado Padronizado procura reduzir diferenças clínicas injustificadas e fazer com que pacientes com condições semelhantes recebam assistência baseada nas melhores evidências, independentemente do local onde sejam atendidos. O princípio não é tornar todos os tratamentos iguais, mas reduzir variações que não sejam explicadas pelas características e necessidades do paciente ou pelas evidências disponíveis.
Desperdício Contido fecha a engrenagem. A saúde movimenta aproximadamente R$ 1,19 trilhão por ano no Brasil, equivalente a 9,4% do PIB. Com base na referência internacional de que entre 20% e 30% dos gastos em saúde podem estar associados a práticas que não geram valor, o documento estima um desperdício potencial entre R$ 240 bilhões e R$ 360 bilhões por ano.
A proposta não é simplesmente cortar despesas. A lógica é identificar desperdícios clínicos, operacionais e administrativos, reduzir essas perdas e fazer com que os recursos liberados retornem à assistência. Para isso, uma das medidas propostas é a criação do Atlas do Desperdício em Saúde no Brasil, com mensuração sistemática das perdas por categoria, região e esfera assistencial e acompanhamento dos recursos recuperados e reinvestidos.
Caminhos para 2027–2030
Para avançar nos cinco Inegociáveis, o documento aponta como direção uma saúde mais integrada, coordenada e orientada por resultados, capaz de acompanhar o paciente ao longo de sua trajetória e conectar estruturas, informações, serviços e instituições que hoje ainda funcionam de forma fragmentada.
Essa transformação passa por maior integração entre SUS e saúde suplementar, melhor uso das informações, fortalecimento da atenção primária e da continuidade do cuidado, referências de qualidade baseadas em evidências e redução do desperdício. Os cinco eixos devem avançar de forma articulada, para que mais eficiência se traduza em mais acesso, qualidade e melhores resultados para a população.
Sobre a FESAÚDE e o SindHosp
A FESAÚDE - Federação dos Hospitais, Clínicas, Casas de Saúde, Laboratórios e Estabelecimentos de Saúde do Estado de São Paulo - representa, por meio de seus sindicatos filiados, 79.872 estabelecimentos privados de saúde no Estado de São Paulo. Entidade de segundo grau de representação, a FESAÚDE é formada por quatro sindicatos patronais que atuam no Estado e tem assento na Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), participando das principais decisões do setor em nível federal.
O SindHosp – Sindicato de Hospitais, Clínicas, Casas de Saúde, Laboratórios e Estabelecimentos de Saúde no Estado de São Paulo – é o maior sindicato patronal da saúde na América Latina. Com 88 anos de existência, representa cerca de 80% de todos os estabelecimentos privados de saúde paulistas. Ambas as entidades são presididas pelo médico, Francisco Balestrin.
Fonte: Verdelho, em 11.09.2026