Por Alexandre Sammogini

Impulsionada pelos avanços da ciência da longevidade, a duração da vida humana caminha para o atingimento da marca dos 120 anos de idade. Com a desaceleração do envelhecimento, a sociedade está passando e passará por mudanças ainda mais profundas. E as transformações estão permitindo o surgimento de oportunidades em diversos campos, inclusive na previdência complementar.
Esse é o tema central desta entrevista exclusiva com Ricardo Neves, consultor, escritor e pesquisador especializado em longevidade, autor de diversos livros e presença frequente em eventos do setor e da Abrapp, como o Seminário Internacional da UniAbrapp, o Congresso Brasileiro de Previdência Privada (CBPP) e o Epinne EPB. Ele realizou apresentação no 45º CBPP e lançou seu livro “Nova Longevidade: Reinventando a Aposentadoria” no evento realizado em outubro do ano passado.
Em 2025, o especialista participará novamente do CBPP, em uma palestra técnica, no dia 23 de outubro. Alguns dias depois, participará do evento “Diálogos Estratégicos da Longevidade” no formato B2B em São Paulo. O evento acontecerá dentro da programação da 7ª edição do Fórum da Longevidade 2025, de 27 a 29 de outubro (leia mais ao final).
Na entrevista, Ricardo Neves destaca como os avanços científicos estão transformando a expectativa de vida, com ênfase nas pesquisas envolvendo drogas antienvelhecimento e na inovação dos biomarcadores. Analisa também o impacto da tecnologia nos novos modelos de trabalho e aponta caminhos para que as entidades fechadas se consolidem como plataformas de longevidade. Confira a seguir na íntegra:
Blog Abrapp em Foco: De que forma os avanços científicos estão impactando a expectativa de vida?
Ricardo Neves: Cerca de 71% das doenças estão relacionadas com o envelhecimento. Elas acontecem devido ao novo relógio biológico, que impacta o organismo. Os cientistas estão tentando corrigir isso para prolongar a vida útil e saudável das pessoas. Quando se aplicam tratamentos de biologia molecular, diminui-se a incidência de doenças. Isso também impacta fortemente as entidades fechadas, já que haverão pessoas vivendo por mais tempo.
A existência humana está superando os 100 anos, em decorrência da ciência da longevidade, a desaceleração do envelhecimento e a economia da longevidade. Na ciência da longevidade, a projeção é respondida pelos experimentos que já estão sendo realizados nos laboratórios com ratos. O que os cientistas estão fazendo é testar uma série de drogas anti envelhecimento, entre elas a Rapamicina. Os ratos que foram expostos a essa droga estão bem mais fortes. Então, o que os cientistas estão querendo fazer, ao longo dos próximos 10 anos, é a promessa de a expectativa de vida subir para 120 anos.
Blog: Quais são as principais inovações que estão contribuindo para o aumento da longevidade?
Ricardo Neves: A primeira inovação da indústria é o Biomarcador. Estamos em um estágio em que, se você tirar uma amostra de sangue, é possível analisar e prevenir uma série de doenças. Ou seja, a medicina está mudando o seu paradigma: de curativa, passa a ser preventiva. Ela consegue isso porque os Biomarcadores indicam possibilidades futuras, como risco de doença cognitiva em 10 anos, câncer, entre outros.
A indústria farmacêutica também vai se modificar nesse período, com remédios ligados ao genoma, medicamentos específicos para a possibilidade de doença que cada pessoa pode apresentar, de acordo com suas características genéticas.
Esses remédios estão sendo testados em clínicas de longevidade, que ainda não existem no Brasil. Essas clínicas captam recursos do mercado para financiar melhores pesquisas e drogas da longevidade, e depois replicam os resultados. Eu imagino que, em alguns anos, essas clínicas estejam mais acessíveis.
Blog Abrapp: O que é a economia da longevidade que você citou anteriormente?
Ricardo Neves: A economia da longevidade considera negócios, produção e macroeconomia com base na premissa de que as pessoas viverão 100 anos. O desafio para empresas e organizações, inclusive entidades fechadas, é pensar em setores como financeiro, previdência, saúde, qualidade de vida, habitação, emprego, lazer e entretenimento para essas pessoas com maior expectativa de vida. Isso muda toda a forma de encarar a vida.
Blog Abrapp em Foco: Qual o cenário atual da longevidade no Brasil?
Ricardo Neves: O Brasil teve uma acelerada mudança demográfica devido à baixa taxa de fertilidade. Já a expectativa de vida cresceu de maneira acelerada. Então, o país deixou de ser uma nação de jovens. Em termos de demografia, o Brasil conseguiu fazer em 40 anos o que a Alemanha fez em 200.
Eu brinco que, em 2035, ficará claro para a geração Z que é normal os pais viverem até 95 anos. Isso deixará patente que a aposentadoria, como conhecemos, não existe mais. Quem se aposentava eram meus pais e avós. O trabalho ao longo da vida vai mudar de significado, a tecnologia vai permitir maior produtividade e o trabalho híbrido, mais controle sobre como se quer trabalhar.
Blog Abrapp: Como a tecnologia vai impactar os novos modelos de trabalho?
Ricardo Neves: A inteligência artificial será muito incorporada. Nos próximos cinco anos, as duas grandes forças que teremos são a transformação demográfica e a entrada da inteligência artificial em todos os setores da atividade humana. Quando essas duas forças se combinam, vamos redefinir o trabalho.
Algumas categorias de trabalho vão desaparecer por completo, mas surgirão novos tipos, muito mais exigentes na solução de problemas do que na execução de tarefas repetitivas. Ninguém está melhor posicionado para isso do que pessoas mais velhas, que possuem experiência e habilidades de adaptação adquiridas ao longo da vida.
Blog Abrapp: Como você enxerga a ideia de que a aposentadoria seja um período de inatividade?
Ricardo Neves: A ideia de que, aos 60 anos, a pessoa “para e vive tranquila” não existe mais. Estudos mostram inclusive que a aposentadoria faz mal à saúde, pelo fator da perda do convívio social. O ser humano precisa de conexão, isso acontece principalmente no local de trabalho, com interações diárias com os colegas. Essa é uma das mudanças de paradigma: em vez de considerar 60 anos como a entrada para a aposentadoria, precisamos reinventar trabalho, carreira e fases da vida.
Estudos recentes, como os publicados pelo Fundo Monetário Internacional, mostram que uma pessoa de 70 anos pode ter a mesma capacidade cognitiva de alguém de 50. Tecidos e órgãos envelhecem de forma diferente, o cérebro envelhece mais devagar. O que existem são crenças limitantes que fazem as pessoas acreditarem que a capacidade cognitiva diminui com a idade.
Blog Abrapp: Qual papel as entidades fechadas podem assumir com essa nova realidade?
Ricardo Neves: Vamos passar a ver a aposentadoria como algo que acontece efetivamente na fase final da vida. Os negócios precisam entrar na vida ativa do cidadão. Dentro dessa perspectiva, os dirigentes das entidades fechadas e a sociedade como um todo devem enxergar a seguridade social como uma plataforma de longevidade.
A primeira questão para a entidade fechada é entender que o papel institucional mudou. Você não pode mais se ver apenas como um pagador de benefícios. Há um papel mais estratégico, conectado com o futuro dos participantes. Isso significa, entre outras coisas, ajudar o participante a planejar sua longevidade, promover bem-estar e empregabilidade.
Além disso, é preciso abolir a mentalidade de que, ao se aposentar, a pessoa “não faz mais nada”. É necessário manter conexões, educação e suporte para um novo ciclo de vida. A entidade fechada, quando atua como plataforma de longevidade, não vê o aposentado como passivo, mas como ativo.
Blog Abrapp: Como uma entidade fechada pode efetivamente se tornar uma plataforma de longevidade?
Ricardo Neves: Dentro da entidade fechada, é preciso ter um grupo focado na transformação, responsáveis por sair de pagador de benefícios para a plataforma de longevidade. O grupo pode não saber exatamente como fazer isso, mas possui a missão de construir a ponte. Cada fundação precisa desse grupo com uma missão clara de implementação.
Também é preciso realizar um diagnóstico da demanda. É preciso ir além da parte econômica, entender como os participantes vivem, adoecem e envelhecem, quase um trabalho de antropologia social. Além disso, segmentar por idade, risco e perfil ocupacional, e cruzar com projeções atuariais reais.
Outro ponto é entender o ecossistema em que a entidade está inserida. A fundação não atua sozinha, há planos de saúde, gestores de ativos, empresas de educação continuada, entre outros. É necessário criar sinergia com todos esses elementos. Educação não é apenas para jovens, a qualificação deve ser contínua.
Por fim, é preciso aproveitar o capital sênior. É preciso trabalhar com as empresas participantes no sentido de que elas entendam que muitas pessoas deixam de trabalhar não por falta de capacidade, mas porque não há uma equação de vida compatível com o que elas querem. Um contrato de trabalho mais flexível permite que pessoas mais experientes continuem contribuindo.
Blog: Poderia comentar algum case de fundação que já esteja colocando em prática essa concepção de plataforma da longevidade?
Ricardo Neves: Sim, um caso muito interessante é o da Previ, que é o fundo que está na vanguarda desse processo. Já está transformando algumas ideias em protótipo desta concepção. Já tem pessoas que foram nomeadas como a forma tarefa dessa transformação.
Blog: Quais os próximos eventos que as pessoas poderão tomar contato com suas propostas?
Ricardo Neves: Estarei com vocês no 46º Congresso Brasileiro da Previdência Complementar e logo em seguida estarei organizando um evento denominado “Diálogos Estratégicos da Economia da Longevidade”, que será realizado em São Paulo também, de 27 a 29 de outubro. É um evento que fará parte da 7ª edição do Fórum da Longevidade 2025, que conta com o apoio oficial da Prefeitura de São Paulo. Será um encontro no formato B2B que reunirá líderes empresariais, investidores, formuladores de políticas públicas e inovadores para debater os desafios e oportunidades da longevidade – mais informações pelo e-mail
Fonte: Abrapp em Foco, em 01.09.2025.