O atual cenário de crise ocasionada pela pandemia do novo coronavírus (COVID-19) leva a incertezas na hora da tomada de decisões sobre investimentos. Mas para o Diretor da consultoria de investimentos PPS - Portfolio Performance, Everaldo França, as Entidade Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) possuem uma vantagem diante dessa situação: a visão de longo prazo. Em entrevista ao blog Abrapp em Foco, Everaldo apresentou uma visão otimista sobre o impacto da crise na carteira das fundações, e destacou que não é o momento de fugir do risco. "Quem tem visão de longo prazo deve aumentar posições". Veja os principais destaque da entrevista:
Maturidade
Para Everaldo França, a crise atual tem refletido em um comportamento diferente por parte de dirigentes das EFPC. Segundo ele, enquanto grandes gestores, em sua maioria, acreditam que essa é uma oportunidade para aumentar posições, quem tem visão de longo prazo não deve fugir do risco. "Ao olhar o comportamento dos dirigentes, vemos uma mudança de postura e maior maturidade. Há mais consciência que não é uma hora boa para vender". Ele destaca que algumas entidades apresentaram desenquadramento do ponto neutro da posição estratégica desejada, e quem desenquadrou para abaixo dessa meta acabou comprando um pouco voltar ao ponto desejado. "Houve um amadurecimento do sistema, e acredito que a exigência de certificação da Previc nesse sentido ajudou muito, pois vemos que os conselheiros e dirigentes estão sendo bem capacitados para tomar decisões. A exigência da certificação conduz a uma melhor capacidade de decisão e entendimento das situações", ressalta.
Cenário macro
Apesar da visão de longo prazo, ainda há incertezas sobre a situação macroeconômica do país, com previsão de que o ano termine com PIB zero ou até negativo. "Isso pode afetar as carteiras se tiver uma estagnação mais generalizada. Mas essa não é uma crise financeira, e sim de oferta de produtos gerada por uma pandemia. Não sabemos quanto tempo vai durar, mas perante os investimentos das EFPC, é curto prazo", enfatiza, destacando que os efeitos na economia podem se prolongar, com lucros das empresas ficando extremamente prejudicados em 2020. "Mas no ano que vem é provável que suba de novo. O que temos hoje é desalavancagem de carteira. Me parece que há mais espaço para o mercado subir caso surjam notícias boas", destaca Everaldo.
O consultor diz ainda que é possível avaliar o cenário com uma visão mais otimista. "Nunca devemos desperdiçar uma boa crise, tanto para comprar ativos estressados, pois o spread de crédito abriu, quanto institucionalmente. No Brasil, as reformas estavam travadas, e diante dessa crise, pode ser que acelerem. O país quer andar para frente, e uma situação dessas acaba virando um facilitador de reformas". Em comparação com o cenário internacional, Everaldo destaca que países que adotaram políticas anticíclicas corretamente no passado agora estão com mais espaço para injetar dinheiro na economia, pois o lado fiscal estava equilibrado, o que pode ser um aprendizado para o Brasil. "Estamos em um momento de desequilíbrio. Felizmente, a Reforma da Previdência foi aprovada, mas as crises sempre ajudaram o Brasil a fazer reformas ou a tomar medidas que eram procrastinadas", complementa.
Portfólios das EFPC
Renda fixa: Dentro das EFPC, Everaldo avalia que muitas estão refazendo seus estudos de casamento de fluxo de caixa e comprando NTN-B. "Talvez as taxas de juros abram mais um pouco, ficando mais altas no longo prazo. O que tem de diferente hoje é que as metas atuariais ou índices de referência dos planos CD das entidades estão menores. Todo mundo reduziu meta, e a qualquer momento que as NTN-Bs subam, entram compras", diz.
Investimentos no exterior: "Todo mundo mistura ativo no exterior com a taxa de câmbio. A razão para investir no exterior é diversificar o portfólio e ampliar a fronteira eficiente. Exposição a câmbio é outra decisão", ressalta Everaldo. Segundo ele, a estratégia de vender a carteira de ativos internacionais porque o dólar está caro não é recomendável. "A bolsa brasileira caiu bastante, então se eu diversificar meu investimento em ações no Brasil e em ações internacionais, já reduzo o risco do meu portfólio", destaca. E investir no exterior não é só em ações. "Carteiras de renda fixa lá fora deram bons retornos".
Diversificação: "Quem ainda não fez, pode fazer. Carteiras mais diversificadas nesse momento sofrerão menos", destaca. Para eles, as entidades que já tiverem montadas boas carteiras de FIPs, por exemplo, terão mais estabilidade. Além disso, há outras oportunidades interessantes, na sua visão. "Por exemplo, papéis de crédito de alta qualidade estão com spreads abertos. As ações caíram generalizadamente, mas um bom gestor terá capacidade de dizer, com critério, como montar carteiras interessantes".
Comunicação com o participante
Everaldo França destaca que um momento de turbulência enfatiza a necessidade de estreitar ainda mais a comunicação com o participante. "A partir da queda dos juros, todo mundo passou a diversificar carteiras, a investir em ativos que não estavam acostumados, o que levou a uma volatilidade maior, e isso deve ser explicado aos participantes. Essa comunicação é importantíssima", enfatiza. Ele ressalta que quem entrou em perfis agressivos em janeiro deste ano deve estar preocupado, mas é essencial lembrar que o objetivo é sempre no longo prazo. "Não pode sair no pior momento. O participante tende a comprar na alta e vender na baixa, e as EFPC devem dar esse suporte", complementa.
Fonte: Abrapp em Foco, em 03.04.2020