Por Bruna Chieco

O Instituto Brasileiro de Atuária (IBA) realizou recentemente seu primeiro Fórum de Longevidade, evento que se tornará permanente no calendário da entidade. A iniciativa debate os desafios do envelhecimento populacional brasileiro e suas implicações para o sistema previdenciário.
“Esse é um tema importante diante dos desafios e dificuldades que estamos começando a vivenciar em relação ao aumento da expectativa de vida e contexto demográfico que vivemos no Brasil”, disse Giancarlo Giacomini Germany, Presidente do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA), em entrevista ao Blog Abrapp em Foco.
Germany assumiu o cargo este ano para um mandato de dois anos e detalhou as discussões do evento e por que o tema exige urgência no país. Leia a seguir:
Blog Abrapp em Foco: Por que o IBA decidiu realizar um evento sobre longevidade?
Giancarlo Germany: Esse é um tema importante diante dos desafios e dificuldades que estamos começando a vivenciar em relação ao aumento da expectativa de vida e o contexto demográfico que vivemos no Brasil. Assumi como presidente este ano, e a criação do fórum foi uma das propostas do grupo. São dois grandes temas que o IBA está colocando em discussão de forma permanente: o fórum de longevidade e um segundo evento sobre ESG.
Blog Abrapp em Foco: Comente um pouco sobre esses desafios e dificuldades mencionados e que impulsionaram a criação do fórum.
Giancarlo Germany: Começamos a ver uma população com menos jovens, o que implica em baixo crescimento da nova população que entra no mercado de trabalho. Isso pressiona por mudanças nas regras previdenciárias. Atualmente, na previdência social, os trabalhadores ativos financiam os benefícios de quem é aposentado. O resultado é que temos cada vez menos pessoas no mercado de trabalho para financiar, e mais gente recebendo benefícios e por mais tempo, devido ao aumento da longevidade.
Blog Abrapp em Foco: Qual o impacto dessas mudanças?
Giancarlo Germany: O governo precisa tirar do seu orçamento recursos para financiar essa previdência. Isso passa a ser um dilema social: Como a gente mantém um contrato social de prestar um benefício de aposentadoria para a população sem comprometer o desenvolvimento econômico?
Blog Abrapp em Foco: Como o evento abordou esses conceitos?
Giancarlo Germany: Falamos sobre novos produtos de previdência e como eles ajudam na organização financeira das pessoas. Tratamos da longevidade para planos de saúde suplementar e sobre o mercado de trabalho 50+. Se estamos em uma condição em que as pessoas vivem uma qualidade de vida por mais tempo e menos pessoas entrando no mercado de trabalho, por que as empresas não passam a contratar pessoas com mais de 50 anos, fazendo a participação delas no mercado de trabalho se alongar?
Blog Abrapp em Foco: Quais outros temas foram discutidos no fórum?
Giancarlo Germany: Tivemos um médico especialista na área de longevidade para explicar esse novo conceito de envelhecimento, com pessoas com mais idade se mantendo ainda ativas. O que muda o conceito de “velhice” é a nossa capacidade de independência. Precisamos de mais serviços voltados para esse público.
Blog Abrapp em Foco: Qual proposta de reforma previdenciária foi apresentada?
Giancarlo Germany: Sob ponto de vista econômico, tivemos discussões sobre a necessidade de revisão do modelo de previdência que temos hoje, do contrato social e da cobertura de benefícios. Hoje, temos legislações e regras diferentes. A proposta seria uma previdência social universal com um benefício que todos alcançariam em torno de 65 anos de idade a um valor com teto estabelecido. Depois, parecido com o modelo atual, mas uma idade de aposentadoria após 70 anos, o que atenderia em torno de 80% da população brasileira. O terceiro pilar seria de uma aposentadoria capitalizada a ser administrada por entidades de previdência, e obrigatória. E o quarto pilar de previdência individual e voluntária. Seria uma forma de refinanciar a previdência social do Brasil simplificando processos.
Blog Abrapp em Foco: Como foi a participação da Abrapp no evento?
Giancarlo Germany: A participação da Abrapp foi relevante pois trouxe o desenho da previdência complementar e de como ela atende a população. Sob o ponto de vista do desenvolvimento da previdência daqui pra frente, dado que o mercado de trabalho está cada vez mais informal, temos muitos trabalhadores sem vínculo direto com empresas, como trabalhadores de aplicativo, entregadores, motoristas de apps, que não têm contribuição para previdência. A Abrapp vem identificando oportunidades em outros países com problemas semelhantes para podermos encontrar uma solução para proteção dessas pessoas no Brasil.
Blog Abrapp em Foco: Por que esse debate é urgente para o Brasil?
Giancarlo Germany: O grande motivo de falar sobre este tema é pensar que vivemos um contexto de contrato social no Brasil que precisa ser reavaliado dentro de uma realidade em que o conceito econômico e demográfico atual consegue suportar. As mudanças demográficas na Europa passaram a ter transformações com menos jovens financiando os idosos, e tudo isso foi feito com recursos financeiros. O Brasil não é um país desenvolvido com capacidade de independência econômica e já precisa conviver com esse problema. Não temos mais tempo para avaliar e levar a uma discussão longa soluções alternativas para este problema. É necessário fazer uma reforma do contrato previdenciário, com uma visão diferente de financiamento, estrutura e condição de cobertura.
Fonte: Abrapp em Foco, em 11.12.2025