
A ampliação da previdência complementar fechada depende de uma comunicação mais simples, da criação de produtos para trabalhadores informais e de maior participação do setor no debate sobre a Previdência Social. Essa é a avaliação de Devanir Silva, presidente da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp). Nesta entrevista, ele também aborda a concentração dos investimentos dos fundos de pensão em títulos públicos, a necessidade de atualizar o regime sancionador e o risco de sobreposição entre as fiscalizações da Previc e do Tribunal de Contas da União (TCU). Fala ainda sobre a onda de afastamentos de dirigentes neste ano e o avanço das entidades multipatrocinadas, entre outros temas. Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
Investidor Institucional: Quais são hoje os principais desafios do sistema de previdência complementar fechada?
Devanir Silva: Nosso grande desafio é fomentar e crescer, não tenho dúvida disso. E um dos pontos mais importantes para isso é melhorar a comunicação com a sociedade. Precisamos ter uma comunicação mais clara, mais objetiva e mais simples para que as pessoas conheçam melhor o nosso sistema. Ainda temos muito trabalho para informar à sociedade e ao mercado quem somos e o que podemos oferecer às pessoas e ao país. Por exemplo, estamos entrando num momento em que precisamos nos posicionar em relação à Previdência Social. Já vemos candidatos falando em reforma da Previdência, inclusive com propostas de aumento da idade mínima. Não precisamos disso. Acho que o Brasil precisa de um modelo mais justo e inclusivo. Esses 60 milhões de trabalhadores que estão fora precisam voltar. Vi um estudo recente segundo o qual, considerando trabalhadores informais e MEIs, a Previdência Social tem uma renúncia de R$ 280 bilhões. Se um terço desse contingente passar a contribuir, com um mínimo de R$ 300 por mês, seria possível reduzir essa renúncia em praticamente 35% e aumentar a arrecadação em 15%.
Investidor Institucional: Seria necessário oferecer novas opções para esses trabalhadores?
Devanir Silva: Exatamente. O Brasil mudou. Aliás, o mundo mudou. As pessoas não vão mais viver apenas até os 75 anos, poderão chegar aos 100, e hoje não temos somente o contrato regular de trabalho. Existem outras formas de ocupação, incluindo o trabalho informal, no qual a pessoa não possui uma renda permanente e continuada. É isso que precisamos discutir. O grande desafio é nos fazermos presentes nesse debate e nos apresentarmos como parte da solução. Por isso, temos atuado com a Frente Parlamentar e levado adiante o projeto das micropensões. Queremos trazer os invisíveis para dentro da proteção previdenciária, para que não sejam excluídos amanhã.
Investidor Institucional: Em que estágio está o projeto das micropensões?
Devanir Silva: O PLP nº 152, que regulamenta o transporte de passageiros e as entregas por aplicativos, está travado e ainda não avançou. Diante disso, a Frente Parlamentar, por meio do deputado Tadeu Veneri (PT-PR), que é seu presidente, apresentou um projeto de lei complementar tratando especificamente das micropensões, com o objetivo de levar proteção previdenciária às pessoas que hoje estão fora do sistema e não possuem renda regular. Além disso, ele apresentou outro projeto que considero muito importante: o Código de Defesa do Poupador, ou Código de Defesa da Previdência Complementar. É uma maneira de colocar a previdência na ordem do dia. O Brasil possui um Código de Defesa do Consumidor, mas não tem um código voltado à proteção do poupador.
(Continua…)
Entrevista publicada originalmente na Revista Investidor Institucional – clique aqui para ler na íntegra.
Fonte: Abrapp em Foco, em 01.09.2026.