

(Editora Roncarati): Raquel, poderia contar um pouco da sua história e como iniciou a sua carreira como atuária?
Raquel Marimon: Como as melhores coisas da vida: por acaso! Confesso que não tinha ideia do que faria após a conclusão do ensino médio, e não me identificava com nenhuma das profissões conhecidas (naquele tempo). Quando pesquisei mais sobre as opções me deparei com a ciência atuarial, uma profissão que não podia afirmar não ter afinidade por simplesmente não compreender com clareza do que se tratava. Arrisquei e fui admitida no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde aprendi a me apaixonar por riscos e principalmente a mensuração deles. Durante o curso os professores foram sempre muito empenhados no encaminhamento dos alunos para o mercado de trabalho e foi por este canal que tive meu primeiro estágio que se tornou a primeira seguradora para a qual assinei um balanço como atuária.
(ER): No final de agosto será realizado o “14º Congresso Brasileiro de Atuária 2024”. Poderia comentar como estão sendo os preparativos e quais serão os principais temas abordados no evento?
RM: A organização de um evento deste porte envolve o planejamento que se inicia mais de um ano antes da sua realização. Nesta edição lançaremos muitas inovações. O formato do evento será de palestras silenciosas, onde cada participante recebe um transmissor de rádio para escolher qual tema ou palestrante deseja escutar a cada momento do evento. Esta inovação pode ser desafiadora para alguns, em especial para os palestrantes, mas traz modernidade e mais flexibilidade para os congressistas, evitando a necessidade de deslocamentos dentro do ambiente do evento pela adoção de palco único linear. Além de um conteúdo que vai explorar as novas fronteiras tecnológicas na perspectiva da profissão atuarial. Vamos falar muito sobre sustentabilidade nos aspectos ASG e diversidade e inclusão, abordando os impactos dos riscos climáticos e as aplicações da transformação digital. O Congresso é uma grande oportunidade de garantir uma atualização de visão de futuro e atualidades de mercado, indo muito além da técnica atuarial. Nesta edição também comemoraremos os 80 anos do IBA, uma data que será marcada por algumas surpresas durante o coquetel no final do dia 29 de agosto.
(ER): Como você observa o impacto da inteligência artificial sob a perspectiva da Ciência Atuarial?
RM: A ciência atuarial sempre se apoiou da matemática aplicada para resolver questões da vida prática, buscando proporcionar segurança financeira para famílias, negócios e sociedade. O atuário utiliza da inteligência artificial desde o início de sua formação, sendo indispensável conhecimentos relativos à linguagem de programação, estrutura de armazenamento de dados, além de contabilidade, finanças e estatística. É natural o interesse deste profissional por novas tecnologias e suas possíveis aplicações para trazer soluções mais eficazes para os setores em que atua. Estamos trazendo no Congresso o que há de mais atual na comunidade atuarial global para proporcionar oportunidade única de que nossos sócios e interessados no evento estejam atualizados e aptos a tomar parte neste processo de mudança constante.
(ER): Ao longo dos últimos anos verifica-se o crescimento do número de idosos no Brasil. Quais são os principais desafios para o país com relação a esse assunto?
RM: Esse assunto é longo (risos)! Compreender esses aspectos e estimar perspectivas e cenários é uma tarefa sob medida para um atuário. O maior desafio para uma nação é o tempo para se preparar para um cenário que está chegando rápido demais. A relação de aposentados por ativos no sistema de previdência pública, o desafio do autofinanciamento de atenção à saúde e em especial a desigualdade social são fatos. Cabe à nação, estado e município, se preparar para esta realidade a partir de um planejamento de longo prazo que envolva estudo de cenários e projeções atuariais. Este tema será destaque no painel sobre longevidade na manhã do dia 30, com participação de palestrantes de peso incluindo a visão de órgão regulador.
(ER): O atuário trabalha, em muitos casos, em mercados regulados. Como você enxerga a evolução regulatória dos setores de seguros, fundos de pensão e saúde?
RM: O nível de maturidade dos órgãos de supervisão brasileiros é admirado no cenário global. O Instituto Brasileiro de Atuária, em cumprimento aos seus objetivos estatutários busca promover a cooperação com o Estado na implementação da técnica atuarial, contribuindo através de conteúdos desenvolvidos em seus Comitês Técnicos, na proposição e no debate sobre as normas expedidas pelos órgãos de regulação. Neste ano, na abertura do 14º Congresso Brasileiro de Atuária teremos no palco representante das quatro instituições: SUSEP, PREVIC, SPREV e ANS; uma oportunidade única de valorizar a atuação do profissional e sua contribuição para a sustentabilidade dos sistemas de proteção financeira operados no país.
(ER): Diversos setores passaram a debater a importância da sustentabilidade e as questões ESG para a sociedade e empresas. Quais são os principais aspectos que o atuário deve considerar ao lidar com os “riscos de sustentabilidade”?
RM: Consideramos este mais um elemento que o atuário incorpora na sua “caixa de ferramentas”. Estimar riscos é nossa especialidade, adicionar novos aspectos aos riscos estimados é um aperfeiçoamento das aplicações práticas da atuária no mundo. Temos colaborado intensamente com os organismos internacionais no sentido de promover o debate e buscar soluções nas quais os atuários podem ter uma participação de especial relevância. Hoje nos relacionamos através do International Actuarial Association, entidade máxima de representação da profissão no mundo, que está próxima às organizações supranacionais como Sustainable Insurance Forum (SIF), International Accounting Standards Board (IASB), International Association of Insurance Supervision (IAIS), International Organization of Pension Supervisors (IOPS), International Social Security Association (ISSA), Organization for Economic Cooperation and Development (OECD), entre outros. O atuário deve considerar aspectos inerentes aos riscos que ele atua; se for um atuário que trabalha com seguro de vida, por exemplo, deve estar atendo ao envelhecimento populacional e os impactos dos riscos adversos (climáticos, pandemia, outros) em suas populações específicas, se trabalha com seguros pode estar mais voltado a explorar questões de inclusão social, que viabilizem cobertura financeira para populações que hoje não tem acesso a seguros.
(ER): Voltando ao “14º Congresso Brasileiro de Atuária 2024”, ainda é possível inscrever-se? Qual o procedimento?
RM: Com certeza! Estamos preparados para aceitar inscrições até o último dia. As inscrições podem ser feitas diretamente no link: https://14cba.atuarios.org.br onde pode-se encontrar todas as informações sobre o evento que ocorrerá nos dias 29 e 30 de agosto no Windsor Barra, Rio de Janeiro.
(09.08.2024)