Por Bruna Chieco

Com a Selic em trajetória de queda, cenário geopolítico em ebulição e eleições se aproximando, as Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) enfrentam em 2026 um ambiente que exige cautela e, ao mesmo tempo, capacidade de capturar oportunidades.
Para discutir as principais tendências nas estratégias de investimento do setor, o Blog Abrapp em Foco ouviu dois consultores experientes. O sócio e Diretor Técnico da Aditus Consultoria Financeira, Guilherme Benites, e o sócio e fundador da PPS Portfolio Performance, Everaldo França, avaliam o atual momento das carteiras das EFPCs e as perspectivas para os próximos meses.
Leia a entrevista na íntegra:
Blog Abrapp em Foco: Com a renda fixa concentrando mais de 80% das carteiras e a Selic em trajetória de queda, as EFPCs precisam revisar suas políticas de investimento para 2026 ou o cenário ainda justifica o conservadorismo?
Guilherme Benites: Já estava incorporada a volatilidade e isso se refletiu em deixar mandatos com bandas mais amplas para, ao longo do ano, fazer ajustes. De certa forma, houve um início de ano surpreendente, mas até o momento não enseja uma mudança de política de investimentos.
Everaldo França: Estamos recomendando aos clientes que sejam mais conservadores. Infelizmente, este ano deve-se privilegiar o CDI. Essas políticas da virada do ano sugeriram manutenção dos níveis de bolsa originais de realização de ganho e privilegiar o CDI, e agora o cenário geopolítico está nos dizendo para fazer isso.
Blog: Como as EFPCs devem se posicionar para capturar os melhores retornos em 2026?
Benites: Existe a perspectiva de a parcela de risco crescer no portfólio, mas não deixaremos de ver a predominância da renda fixa. O que vamos assistir ao longo do tempo é a mudança no perfil da renda fixa, mas sem que ela deixe de ser predominante.
França: Por enquanto, não mudo minha opinião que esse é o ano do CDI, pois o juro real continuará alto e temos riscos inflacionários no mercado, inclusive de uma alta de juros nos EUA.
Blog: A renda variável recuou significativamente na carteira das entidades nos últimos anos. Esse movimento chegou ao limite ou ainda há espaço para novas reduções neste ano?
Benites: Nos planos de Contribuição Definida (CD), a queda vem da migração de pessoas de perfis agressivos para conservadores, e agora começamos a ver o contrário. Tudo leva a crer que chegamos no limite inferior da renda variável. Mas provavelmente esse aumento não será rápido.
França: O fundo de pensão deve explicar ao participante que investir no longo prazo pode gerar perdas temporárias no curto prazo, para evitar que ele opere com olho no retrovisor, ou seja, compre na alta e venda na baixa. Não é verdade que a bolsa não ganha do CDI no longo prazo.
Blog: Com a Selic em 14,75% ao ano e projeções de cortes graduais, a fatia de títulos públicos nas carteiras das EFPCs deve crescer, diminuir ou se manter ao longo de 2026?
Benites: Os títulos públicos também chegaram ao limite de alocação. Quem precisava comprar, comprou. Não esperamos uma mudança drástica como a observada no ano passado, quando a Resolução CNPC nº 61 [que permite que as entidades fechadas contabilizem títulos públicos federais como “mantidos até o vencimento”] impulsionou uma redução muito profunda do risco nas carteiras. Essa janela não deve se repetir.
França: A variação do juro real de 10,5% para 10% não altera o apetite pelo CDI neste ano de turbulências. O ritmo de redução adotado pelo Copom já foi mais moderado. Começa a se revisar o patamar da Selic até o fim do ano.
Blog: O investimento no exterior corresponde a apenas 1% da carteira consolidada das EFPCs. Por que essa exposição ainda é tão baixa? O atual cenário favorece ou dificulta uma mudança?
Benites: A principal razão para que houvesse investimento no exterior sempre foi a diversificação de risco. O quanto investe e como investir está sendo revisado. O câmbio era um fator muito relevante, segue sendo, mas na janela atual há muita incerteza em relação à nova dinâmica do dólar mais influenciada pelos acontecimentos externos ao Brasil.
França: Eu defendo investimentos no exterior desde 2007. Mas normalmente se leva em conta o momento atual para investir, sendo que é importantíssima a diversificação internacional. É um hedge [proteção] contra crises domésticas, que nunca faltam.
Blog: Como o cenário geopolítico impacta as decisões de alocação das EFPCs neste momento?
Benites: Antes de março havia uma certa urgência de tomar alguma decisão por conta da alta da bolsa. A janela atual, de incertezas, colocou um pouco de “água na fervura”. Não significa que as entidades vão desistir de tomar risco, mas nessa janela da primeira quinzena de março, todos ficaram em espera.
França: A incerteza com a guerra ficou muito alta. Não tem nada de técnico em tentar adivinhar os desdobramentos, principalmente quando se trata de decisões políticas. Não consigo enxergar o que será o segundo semestre em termos de juros e inflação.
Blog: Em que medida o calendário eleitoral de 2026 já entra no cálculo das políticas de investimento das EFPCs?
Benites: O mercado não vai colocar eleição no preço antes da definição dos candidatos. Em 2022, se olhou equipe econômica, visão sobre arcabouço fiscal, etc. Não tenho muito porque acreditar que esse ano será diferente.
França: A turbulência devido à eleição doméstica continua sendo um fator de risco para os investimentos.
Blog: Como as EFPCs devem se proteger dos riscos de 2026 sem abrir mão da rentabilidade necessária para cumprir suas metas atuariais?
Benites: O mercado está em busca de apostas assimétricas, ou seja, posições que, em um determinado cenário rendam muito, e no cenário adverso não percam tanto. As NTN-Bs têm despertado bastante interesse nesse sentido, pois os papéis de prazo intermediário têm potencial de entregar bons resultados em quase qualquer cenário.
França: O fundo de pensão não precisa ter liquidez em toda a sua carteira. Sua vocação é capturar os prêmios oferecidos pelos ativos ilíquidos. As entidades deveriam intensificar os movimentos em infraestrutura.
Fonte: Abrapp em Foco, em 27.03.2026.