Diante da crise da pandemia do novo coronavírus (COVID-19), há uma preocupação constante do sistema de previdência complementar fechada em orientar seus participantes sobre o atual momento do mercado, as medidas que estão sendo tomadas, e qual o caminho mais aconselhável a ser seguido em termos de investimento. Nisso se baseia uma das principais medidas de contingência da Valia: a comunicação. "Temos feito um trabalho grande de comunicação, que é a coisa mais importante que os fundos de previdência devem fazer para evitar que participantes tomem decisões que se arrependerão no futuro", disse o Diretor-Superintendente da entidade, Edécio Ribeiro Brasil.
A Valia disponibilizou seus canais de comunicação para orientar constantemente sobre as práticas de investimentos, informando sobre o momento de mercado e as posições tomadas em suas carteiras. "Com as patrocinadoras, marcamos videoconferência com representantes para apresentar a conjuntura, as medidas e os resultados da entidade". Leia a entrevista completa e saiba quais são as ações da Valia no atual período de crise.
Adaptação do modelo de trabalho
"Do ponto de vista interno, estamos trabalhando em home office. Inicialmente, mantivemos 10% dos empregados na empresa, pois temos um cronograma apertado e o benefício do aposentado deve estar na conta do participante no último dia útil do mês, além dos investimentos que devem ser feitos todos dias", disse Edécio Brasil sobre o início de implantação das medidas de contingência na Valia. "Por isso houve um certo receio de estarmos ou não preparados para o trabalho remoto integralmente, mas nos surpreendemos e hoje temos 100% da equipe no trabalho remoto desde o dia 16 de março. Não perdemos prazos de pagamentos, nem de investimento, e estamos correndo o mais próximo que conseguimos da normalidade", complementou.
No que diz respeito aos participantes, a Valia fechou as agências de atendimento sem prejudicar o contato, principalmente, com os assistidos. "Quem frequenta agência normalmente são pessoas de idade, então estamos com todos os serviços, desde concessão de empréstimo, contracheque, etc., disponíveis no canal de atendimento eletrônico, e estendemos o horário de atendimento do call center", disse Edécio.
Empréstimos
A Valia conta com 50 mil tomadores de empréstimos, e para ajudar nesse período de crise suspendeu por dois meses a cobrança das prestações, que serão unidas ao saldo devedor e pagas ao final do contrato. "O governo concedeu isenção nas novas taxas de empréstimo (IOF), e nós reduzimos as taxas de juros. Com a redução da inflação e da Selic, conseguimos ainda manter o empréstimo como boa alternativa de investimento. A redução adicional das taxas atinge tanto os 50 mil participantes que já têm empréstimo, quanto qualquer outro que queira tomar um empréstimo novo".
Investimentos
A preocupação com a conjuntura atual em relação aos investimentos é mais reduzida visto que a Valia trabalha com uma visão de longo prazo. Para Edécio, quando se tem uma visão mais longa ao final, os resultados convergem para uma média histórica. "Tivemos algumas perdas nos investimentos de renda variável, mas estamos seguros de que isso se reverte no longo prazo. Nossos planos de Benefício Definido (BD) já passaram por um processo de redução na exposição a risco, e grande parte do patrimônio está investido em títulos públicos marcados na curva, bem casados com passivo, de forma que continuamos com esses planos muito saudáveis. Não temos grandes preocupações, a parcela de renda variável desses planos é pequena, e não tendo necessidade de liquidez, não teremos que vender ações ou imóveis", ressaltou Edécio.
Nos planos de Contribuição Definida (CD), nos quais os participantes optam por um percentual em renda variável de acordo com seu perfil de risco, a Valia oferece desde de zero exposição, até 40% dos recursos alocados no segmento. "Se o participante optar por sair agora, teria perdas. Se olharmos o horizonte de dois anos, 2019 foi um ano muito bom, nossa carteira rendeu quase duas vezes o Ibovespa, e mesmo compondo o que foi perdido este ano, ainda estamos positivos, e temos mostrado isso aos participantes", disse. "O grande risco são as pessoas se apressarem e se desesperarem, se desfazendo de ativos que são baratos, migrando de um plano que tenha 40% de exposição em bolsa para um plano de renda fixa, pois aí ele consolida a perda e não recupera mais".
Comunicação
Para evitar essas perdas, a Valia tem feito um trabalho grande de comunicação que, segundo Edécio é a coisa mais importante que os fundos de previdência devem fazer para evitar que participantes tomem decisões que se arrependerão no futuro. "Tanto nas patrocinadoras quanto nos participantes temos usado nossos canais de comunicação para tranquilizar e para mostrar as visões de longo prazo. Para o participante, temos disponibilizado informações via e-mail, LinkedIn, Instagram, Facebook, e no nosso site, usando todas as formas possíveis de acessá-los para dar essa visão de longo prazo", destacou Edécio. "É isso que a gente acha que vai fazer diferença nesses momentos de crise".
Segundo ele, quem não tem problema de liquidez precisa de paciência para esperar a reversão. "A crise acaba sendo uma oportunidade de comprar ativos baratos, mas nós vamos adquirir ativos a partir de análises fundamentalistas. Temos oportunidades e aproveitaremos elas com parcimônia, cautela, cuidado e zelo para não tomar nenhuma medida que possa expor o patrimônio do participante a um risco maior", completou.
Perfis de investimento
"Sou contrário a uma medida que obrigue o participante a ir para um perfil ou outro. Se ele tem uma decisão firme, e o regulamento permite, não devemos congelar sua movimentação, pois ele é um agente autônomo e independente", disse Edécio sobre uma possibilidade de adoção de medidas que impedissem o participante de migrar de perfil no período de crise. Para ele, a grande ferramenta para evitar decisões equivocadas é a comunicação. "Ele precisa ser muito bem orientado e informado, e nós temos um programa de educação financeira que aborda essas questões. Temos condição de fazer uma demonstração clara dos resultados e da lógica do sistema. Engessamento do regulamento para tutelar o participante não é conveniente", destacou.
Ele ressaltou, contudo, que apesar do volume de consulta das pessoas que estavam em perfis de maior risco ter aumentado, ainda não houve movimento mais expressivo de migração entre perfis. Edécio discorreu ainda sobre a possibilidade de o participante adotar o modelo Ciclo de Vida, onde ele não informa o perfil e sim a data que pretende se aposentar, calibrando o apetite a risco de acordo com a proximidade dessa data. "Esses participantes acabam delegando à fundação a gestão da sua exposição ao risco. Ainda temos poucos participantes nesse perfil, pois ele é recente, mas evita algum tipo de decisão precipitada", complementou.
Medidas emergenciais
Edécio Brasil comentou também sobre as propostas de medidas emergenciais que o governo está estudando junto a entidades representantes do sistema, como a Abrapp. "Estou acompanhando todas as propostas, e os dois pontos que preocupam mais é que o sistema deve enfatizar que as instituições têm realidades muito diferentes, com patrocinadoras e necessidades diferentes". Para ele, a suspensão de contribuições é uma das propostas para a qual, no caso da Valia, não há nenhum pleito, mas há outros patrocinadores que tiveram perdas e que precisam dessa medida. "Vai ajudar algumas patrocinadoras, mas é sempre muito importante que essas decisões sejam voluntárias, respeitando a especificidade de cada entidade, pois cada uma tem uma demanda diferente", destacou.
Outro ponto comentado por Edécio foi a possibilidade de resgate dos planos CD. "Mais uma vez, é necessário que essa decisão seja voluntária, respeitando a característica de cada fundo. São cuidados que precisam ser tomados". Edécio reforçou a abertura da Previc na adoção de medidas e a atuação forte da Abrapp em seus pleitos. "O sistema tem sido ouvido, algumas medidas já foram tomadas, e o ambiente está favorável ao entendimento. Há uma atuação efetiva da Abrapp e uma receptividade das autoridades, o que me leva a crer que decisões serão tomadas com a prudência e a parcimônia necessárias", complementou.
Fonte: Abrapp em Foco, em 22.04.2020