
A diversificação e o papel da bolsa na estratégia de investimentos durante a fase de desacumulação foram temas do Encontro Regional Sudoeste, realizado nesta quinta-feira, 5 de março, em São Paulo. O debate reuniu especialistas para tratar das perspectivas desse momento dos planos de previdência.
O moderador do debate, João Carlos Ferreira, Diretor Vice-Presidente da Regional Sudoeste e Diretor responsável pelo Colégio de Coordenadores de Investimentos da Abrapp, destacou a relevância do tema para o sistema de previdência complementar, já que envolve diretamente o planejamento de longo prazo dos participantes.
“Todos nós aqui temos participantes aposentados que já estão recebendo renda. O cenário econômico atual é importante para essas pessoas também, bem como para quem está na fase de acumulação”, disse. Ele lembra que algumas fundações oferecem perfis de investimento com bolsa para participantes aposentados.
Cenário internacional e impacto no Brasil – O conflito envolvendo o Irã introduziu mais um elemento que coloca um limite de previsibilidade sobre os desdobramentos do cenário geopolítico. Marcelo Toledo, Economista-Chefe da Bradesco Asset, observou que, até o momento, não houve grandes danos às estruturas de petróleo e gás da região, o que tem surpreendido o mercado. No entanto, pequenos impactos já foram registrados e ainda existe o risco de que problemas maiores surjam.
“Trabalhávamos com um preço de petróleo em torno de US$ 60 no final do ano. Com esses eventos, tivemos que revisar as projeções e já estamos trazendo esse valor para perto de US$ 70, mas ainda parece haver risco de alta. Ou seja, é um cenário de baixa previsibilidade que, olhando os preços de mercado, sugere que os investidores acreditam que seja algo temporário, sem grandes efeitos de médio prazo. Ainda assim, isso permanece como uma dúvida”, explicou.
Ao falar sobre o Brasil, Toledo ressaltou que a economia brasileira se mostra relativamente resistente a choques nesses preços. A produção de petróleo e gás no país já cresceu cerca de 30% em relação a 2019, e deve continuar avançando entre 5% e 10% neste ano, fortalecendo a balança comercial.
O real também tem apresentado desempenho relativamente positivo. Segundo ele, a moeda brasileira estava próxima de R$ 5,20 recentemente e hoje gira em torno de R$ 5,25, mantendo desempenho melhor frente a diversas moedas. Parte desse movimento é global, mas também reflete o fato de que o Brasil tende a se beneficiar em um cenário de petróleo mais caro.
Sobre o ciclo de juros, Toledo destacou que ainda pode haver espaço para cortes na taxa Selic, mesmo em um ambiente de riscos externos. De acordo com ele, o mercado está observando principalmente os fundamentos da economia, especialmente a trajetória da inflação, que saiu de cerca de 6% com expectativas se aproximando de 4%. Os juros ainda próximos de 15% abririam espaço para cortes de aproximadamente 200 pontos-base.
“Mesmo com a Selic em torno de 13% ou 12%, ainda seria um nível de juros bastante elevado, suficiente para enfrentar um choque de petróleo do tamanho que estamos observando hoje. Claro que, se o petróleo fosse para US$ 100 dólares ou mais, o cenário precisaria ser revisto”, pontuou o economista.
Movimento global favorece bolsa brasileira – Rodrigo Santoro, Head de Renda Variável da Bradesco Asset, destacou que a bolsa brasileira registra alta de cerca de 20% em dólar e 15% em reais neste ano. No entanto, ele ressaltou que esse desempenho não é exclusivo do Brasil, e também ocorre em diversos mercados emergentes, especialmente na América Latina.
Ele explicou que, nos últimos anos, houve uma forte concentração de investimentos no mercado norte-americano, impulsionada pelo crescimento econômico resiliente dos Estados Unidos, pelo avanço da inteligência artificial e pelo fortalecimento do dólar. “Esse cenário levou a uma grande atração de recursos para o mercado americano, em detrimento de outros países e regiões”, afirmou.
Com o aumento das incertezas políticas e geopolíticas e a possibilidade de queda de juros nos Estados Unidos, investidores que estavam muito concentrados nesse mercado começaram a buscar maior diversificação em seus portfólios. Nesse contexto, o Brasil aparece como uma alternativa relevante, sendo o quinto maior mercado em liquidez entre os emergentes, com valuations considerados atrativos e forte exposição à chamada “velha economia”, que ficou com preços bastante descontados nos últimos anos.
“O investidor estrangeiro acabou ficando muito desalocado em mercados emergentes. O peso dos emergentes dentro do índice global está hoje por volta de 10%. Ou seja, existe um espaço razoável para diversificação fora dos Estados Unidos. E o Brasil pode se beneficiar bastante caso esse movimento aconteça”, avaliou Santoro.
Como desafio, o gestor destacou que o país ainda possui um dos maiores juros reais do mundo. Por outro lado, apresenta um dos maiores potenciais de queda de juros nos próximos anos. Segundo ele, o investidor estrangeiro costuma avaliar principalmente três fatores: valuation, risco cambial e política monetária. Neste momento, os três parecem relativamente favoráveis ao Brasil.
Planejamento na fase de desacumulação – Carlos Tejeda, sócio da Itajubá Administração Previdenciária, abordou os principais aspectos considerados na elaboração de um plano de desacumulação. Segundo ele, a principal preocupação do participante nessa fase é garantir a sustentabilidade da renda ao longo do tempo. “Ele quer ter a certeza de que, nos próximos anos, terá renda suficiente para ajudar a família, apoiar pais e filhos e ainda ter recursos para viver, viajar e aproveitar a aposentadoria”, afirmou.
Tejeda também chamou atenção para um comportamento comum entre participantes: a tendência de tomar decisões baseadas nas escolhas de colegas ou amigos. “Muitas vezes o participante pergunta qual foi a decisão do colega ou qual perfil de investimento ele escolheu. Esse é um dos maiores erros, porque cada pessoa tem uma realidade e necessidades diferentes. A individualidade precisa ser respeitada”, explicou.
Outro ponto importante é que o planejamento tributário não termina com a aposentadoria. “É um erro pensar que, ao se aposentar, não existe mais planejamento tributário. Ele continua sendo necessário. Além disso, é importante avaliar o tipo de assessoramento que a entidade oferece e a possibilidade de ajustes no perfil de investimento, de acordo com o apetite de risco do participante”, destacou.
Por fim, Tejeda ressaltou a importância de implementar programas de educação financeira e preparação para aposentadoria dentro das entidades de previdência. Esse processo deve ser contínuo e acompanhar toda a jornada do participante, desde o início da carreira – na escolha do percentual de contribuição – até a definição do tipo de renda a ser contratada na aposentadoria.
“A gente fala muito sobre educação previdenciária e planejamento financeiro, mas o quanto isso realmente é aplicado? Muitas vezes se discute o tema, mas raramente vemos consultoria ou acompanhamento direto para participantes que estão prestes a se aposentar. Isso exige conscientização, educação e planejamento dentro de cada entidade”, concluiu.
Fonte: Abrapp em Foco, em 05.03.2026.