Imagine estar de férias em Fernando de Noronha e ser surpreendido por uma dor abdominal intensa? O arquipélago, localizado a cerca de 545 quilômetros da costa do Recife, dispõe apenas de um hospital com pronto-socorro e ambulatórios aptos a atender casos de média complexidade. Situações mais graves, porém, exigem deslocamento por meio de UTI aérea até a capital pernambucana – como foi o caso de Marcos Romero (nome fictício), que foi diagnosticado com apendicite e precisou ser operado às pressas. A transferência (logística e financeiramente onerosa) só foi viabilizada porque, antes de embarcar, ele havia contratado um seguro de viagem.
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A cautela de Marcos Romero parece uma exceção, considerando as parcelas de brasileiros que viajam sem a proteção do seguro. Ainda que avance, sobretudo com a retomada do turismo na era pós-pandemia, a verdade é que a compra não faz parte da rotina dos viajantes, quer para destinos domésticos, quer para destinos internacionais.
Pior ainda quando os viajantes deixam de lado a compra do seguro para viagens internacionais, já que a conta de um infortúnio, cobrada em dólar ou euro, pode colocar na UTI o orçamento familiar. Um estudo do Affinity Seguro Viagem, com base em dados da Anac e da Susep, estima que, dos mais de 28 milhões de brasileiros que viajaram ao exterior em 2025, apenas cerca de 3 milhões contrataram seguro. Na prática, isso significa que mais de 25 milhões deixaram o País sem qualquer tipo de cobertura, mesmo diante de custos médicos elevados e sistemas de saúde estrangeiros.
Não há dados oficiais que diferenciem contratações para destinos nacionais e internacionais no Brasil, já que a Susep não faz essa separação. O mercado estima, porém, que o volume para viagens ao exterior seja de 70% a 80% superior. No Brasil, ainda predomina o desconhecimento de que o seguro também se aplica a deslocamentos internos – e a percepção de que plano de saúde com cobertura nacional ou o SUS seriam suficientes.
“Na realidade, muita gente acha que precisa contratar seguro de viagem porque é obrigatório, e é o contrário: ele é necessário para prevenir riscos. O produto é mais associado às viagens internacionais pelo receio de custos em outra moeda. Mas a questão da saúde é apenas uma das muitas coberturas oferecidas”, explica Nelson Emiliano, presidente da Comissão Atuarial da FenaPrevi, em entrevista publicada na edição nº 936 da Revista de Seguros, publicação trimestral da CNseg.
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Revista de Seguros, edição nº 936
Entre os sinistros mais comuns estão despesas médicas, hospitalares e odontológicas, além de extravio, dano ou atraso de bagagem e cancelamento de voos – justamente as coberturas mais demandadas. O seguro também inclui traslado médico ao hospital mais adequado, regresso sanitário em avião com UTI, reembolso por cancelamento por força maior e até assistência jurídica em caso de acidentes ou problemas legais durante a viagem.
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O preço para viagens dentro do Brasil costuma ser de 30% a 40% menor do que para o exterior, por causa do câmbio e dos custos médicos em moeda estrangeira. O valor final depende de fatores como idade, doenças pré-existentes, tipo de cobertura contratada e perfil da viagem – esportes de aventura, por exemplo, encarecem a apólice.
Turismo de aventura
No mercado doméstico, aliás, muitos dos que contratam seguro estão ligados ao turismo de aventura ou a destinos remotos – trilhas na Mata Atlântica, escaladas no sertão nordestino, praias isoladas no Sul da Bahia ou áreas com risco de incidentes no litoral de Pernambuco. Há inclusive coberturas adicionais específicas para esportes radicais. Ainda assim, falta informação.
“A maioria da população não tem ideia de que é possível contratar seguro de viagem mesmo viajando de ônibus ou carro pelo Brasil. Existe uma questão sociocultural: quem tem maior poder aquisitivo e viaja para o exterior já incorporou o seguro ao planejamento. Em viagens curtas dentro do país, como para visitar familiares em feriados, ele raramente é lembrado”, afirma Eduardo Gama, professor da Escola de Negócios e Seguros (ENS).
Segundo ele, o produto também recebe menos atenção de corretores, que priorizam ramos com maior tíquete médio, como automóvel, saúde e vida. “Há potencial em um país como o Brasil, mas o seguro de viagem ainda é pouco divulgado. O problema é cultural, mas também de desinformação”, diz Gomes.
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O potencial é reforçado pelos números do setor aéreo. Segundo dados do Ministério de Portos e Aeroportos e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), os aeroportos brasileiros transportaram no ano passado 129,6 milhões de passageiros, sendo 101,2 milhões somente no mercado doméstico – resultado que representa um crescimento de 6,5% em relação ao período pré-pandemia e de 8,4% frente a 2024, um recorde histórico.
Como base de comparação, o número total de passageiros em voos internacionais ficou em 28,5 milhões, no ano passado, com alta de 20,2% em comparação a 2019. Foi o segundo ano consecutivo de recorde de viagens.
Nelson Emiliano, da FenaPrevi, reforça que é necessário fortalecer a cultura de seguro no país e isso inclui também uma divulgação maior dos benefícios do seguro de viagem para destinos nacionais. “É um esforço coletivo para que o próprio seguro seja mais difundido no Brasil. Jovens, por exemplo, tendem a não contratar esse tipo de apólice em viagens, assim como o seguro de vida, porque têm a percepção de que nada vai acontecer com eles. Novamente, é um paradigma que precisa ser quebrado”, conclui.
Fonte: CNseg, em 04.05.2026