Aposentadoria: 59% querem parar até os 60 anos, mas só 28% acreditam que conseguirão
Pesquisa Fenaprevi/Datafolha revela distância entre a idade desejada para deixar o mercado de trabalho e a expectativa real, além de incertezas sobre a renda futura e interesse crescente por formas de proteção
- Aos 60 anos, quase seis em cada dez brasileiros que ainda trabalham gostariam de já estar aposentados. Quando a pergunta deixa de ser sobre desejo e passa a tratar do que cada um acredita que realmente acontecerá, porém, a proporção cai para 28%.
- A diferença é um dos principais resultados da quarta edição da pesquisa “Percepção dos Brasileiros sobre Proteção e Planejamento”, encomendada pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) ao Datafolha.
- O levantamento ouviu 1.908 adultos de todas as regiões do país. Entre os trabalhadores entrevistados, 59% apontaram até 60 anos como a idade em que gostariam de se aposentar. Apenas 28%, no entanto, acreditam que conseguirão deixar de trabalhar nessa faixa etária. Outros 32% estimam que isso ocorrerá a partir dos 61 anos, 11% acreditam que nunca conseguirão parar de trabalhar e 12% afirmam que não pretendem se aposentar.
A distância entre desejo e expectativa não é nova, mas continua relevante. Na edição anterior da pesquisa, realizada em 2024, 54% apontavam até 60 anos como idade ideal para a aposentadoria. O percentual chegou a 59% em 2026.
A expectativa de conseguir parar até essa idade, por outro lado, praticamente não mudou. A pesquisa de 2024 indicava 29%; agora, são 28%. A comparação mostra que aumentou a parcela que gostaria de se aposentar até os 60 anos sem avanço equivalente na expectativa de efetivamente conseguir fazê-lo.
INSS é a principal fonte de renda de 92% dos aposentados ouvidos
A pesquisa também mostra a importância da Previdência Social para a renda de quem já deixou o mercado de trabalho. Entre os aposentados entrevistados, 92% apontam o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) como sua principal fonte de sustento.
Entre as pessoas ainda em atividade que esperam contar com o benefício público no futuro, existe uma incerteza importante: 65% dizem não saber quanto deverão receber quando se aposentarem. Apenas 35% afirmam conhecer o valor esperado e, entre eles, 53% calculam que receberão, no máximo, um salário mínimo.
Essa incerteza aparece também na expectativa sobre o padrão de vida. Entre os entrevistados que pretendem depender do INSS no longo prazo, 56% acreditam que precisarão reduzir despesas para se manter depois da aposentadoria. Outros 25% esperam conservar o modo de vida atual, enquanto 16% avaliam que poderão enfrentar dificuldades para se sustentar.
As regras do INSS ajudam a dimensionar a diferença entre a aposentadoria desejada e as condições de acesso ao benefício, mas não devem ser tratadas como causa isolada das respostas da pesquisa. Para quem ingressou no Regime Geral de Previdência Social (RGPS) a partir da reforma de 2019, a aposentadoria programada exige atualmente idade mínima de 62 anos para mulheres e 65 anos para homens, além do tempo mínimo de contribuição. Existem, no entanto, regras de transição e situações específicas para trabalhadores que já contribuíam antes da mudança.
Preocupação com riscos é maior do que o preparo declarado
A pesquisa também comparou situações que preocupam os brasileiros com as medidas que dizem adotar para enfrentá-las.
A falta de acesso a atendimento médico em caso de doença aparece entre os principais receios: 72% dos entrevistados demonstram preocupação com essa possibilidade, enquanto 28% afirmam ter adotado alguma medida preventiva relacionada a esse risco.
A morte de um familiar preocupa 70% dos participantes, mas 22% indicam algum preparo para a situação. Já a possibilidade de enfrentar uma doença grave preocupa 63% dos entrevistados, enquanto 34% dizem tomar alguma providência de proteção.
Os percentuais não permitem concluir, isoladamente, por que existe essa diferença entre preocupação e ação. Eles mostram, no entanto, que a percepção de risco é mais disseminada do que a adoção declarada de mecanismos de prevenção ou proteção.
Intenção de contratar seguros e previdência chega a 64%
Quando perguntados espontaneamente sobre maneiras de se proteger financeiramente contra imprevistos, 42% dos entrevistados mencionam poupar ou investir. Seguros e previdência privada são lembrados por 13%.
A intenção declarada de contratar proteção, porém, é maior. Segundo o levantamento, 64% dos brasileiros pretendem contratar ou renovar pelo menos um seguro ou plano de previdência privada no próximo ano. Em 2024, eram 54%, uma diferença de dez pontos percentuais.
Entre as modalidades pesquisadas, 47% demonstram intenção de contratar seguro funeral, 43% seguro de vida, 37% seguro para invalidez, 36% cobertura para doenças graves e 33% previdência privada.
A intenção não equivale necessariamente a uma contratação futura, mas ajuda a identificar quais tipos de proteção despertam interesse. O levantamento aponta ainda que 80% dos entrevistados afirmam que contratariam um produto que reunisse diferentes formas de proteção, como formação de recursos para a aposentadoria, indenização por doenças graves, internações e despesas relacionadas a planos de saúde.
A previdência complementar aberta tem justamente a função de permitir a formação voluntária de reservas para complementar a proteção proporcionada pelo sistema público. Ela não substitui o RGPS.
Quatro em cada dez já têm algum seguro ou plano de previdência
Atualmente, 41% dos entrevistados declaram possuir algum dos seguros ou planos de previdência pesquisados.
O seguro funeral aparece com a maior presença, alcançando 30% da amostra, seguido pelo seguro de vida, com 18%. O seguro por invalidez aparece com 10%, a previdência privada com 9%, o seguro contra doenças graves com 7% e o prestamista com 6%.
No caso específico da previdência privada, também há diferenças conforme renda e escolaridade. Entre os integrantes das classes A e B entrevistados, 21% possuem um plano previdenciário; nas classes D e E, a proporção é de 3%.
Linguagem do seguro ainda é pouco conhecida
Outro resultado da pesquisa aponta para uma barreira de comunicação. Apenas 12% dos participantes identificaram corretamente o significado da palavra “prêmio” quando utilizada pelo mercado de seguros.
O termo não significa recompensa: em seguros, prêmio é o valor pago pelo segurado à seguradora pela cobertura contratada. A definição é a mesma utilizada pela Superintendência de Seguros Privados (Susep). O pagamento pode ocorrer de diferentes formas e periodicidades, portanto não corresponde necessariamente a uma “mensalidade”.
Essa correção é importante porque linguagem técnica pouco conhecida pode dificultar a compreensão dos produtos. O levantamento também investigou a percepção de preço entre quem não possui seguro de vida. Segundo a pesquisa, parte desse grupo considera o produto caro mesmo sem conhecer efetivamente seus valores ou sem ter realizado uma pesquisa de preços.
O resultado sugere uma oportunidade de aproximar a informação sobre seguros da linguagem cotidiana, tornando coberturas, condições, custos e formas de utilização mais compreensíveis para o consumidor.
Planejar a aposentadoria envolve conhecer diferentes fontes de renda
Os resultados da pesquisa não indicam que exista uma única solução para a diferença entre a aposentadoria desejada e aquela que os trabalhadores acreditam que terão. Eles mostram, principalmente, uma combinação de expectativas, desconhecimento sobre a renda futura e diferentes níveis de preparação financeira.
Conhecer as regras da Previdência Social, estimar a renda que poderá vir do INSS, avaliar a possibilidade de formar reservas próprias e compreender como funcionam seguros e previdência complementar são etapas distintas de um mesmo planejamento.
Quanto mais cedo essas informações entram nas decisões financeiras, maior é a possibilidade de comparar alternativas e definir formas de proteção compatíveis com a realidade e os objetivos de cada pessoa.
Sobre a pesquisa
A quarta edição da pesquisa “Percepção dos Brasileiros sobre Proteção e Planejamento” foi encomendada pela Fenaprevi ao Datafolha. O levantamento quantitativo foi realizado em julho de 2026, em pontos de fluxo populacional, com 1.908 pessoas de 18 anos ou mais de todas as regiões do Brasil.
A amostra é formada por 52% de mulheres e 48% de homens, com idade média de 45 anos. Do total, 39% dos entrevistados vivem em regiões metropolitanas e 61% no interior. As classes A e B correspondem a 23% da amostra, a classe C a 49% e as classes D e E a 28%. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
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Seguros de fusões e incorporações dão saltos no País e miram forte expansão nos próximos anos
Grupos reduzem valores cobrados, ampliam capacidade de subscrição e miram reduzir gap de proteção das operações de compra e venda de empresas, na casa de 90% dos negócios realizados
Sem estardalhaços, as coberturas específicas para as operações de fusões e aquisições de empresas avançam em sua segunda temporada no País. O recente ciclo de alta da contratação dos produtos, notado no período pós-pandemia e, principalmente, nos últimos dois anos, é explicado pela chegada de novos players internacionais, pelo aumento da capacidade de subscrição de riscos e pelos preços menores de suas garantias.
O seguro para fusões e aquisições (M&A, sigla em inglês para Mergers and Acquisitions) destoa, dessa forma, dos tropeços ocorridos na sua primeira etapa de incursão no País, em meados da década passada. Introduzido no Brasil em 2014, a partir da apólice de Representations & Warranties (R&W), esse seguro enfrentou dificuldades nos anos seguintes, após alguns sinistros relevantes, o que fez várias seguradoras reduzirem sua atuação no País, tornando suas coberturas não só caras, como também limitadas.
Página virada.
O apetite a riscos do mercado voltou, a ponto de os produtos oferecerem condições semelhantes às observadas nos mercados americano e europeu, duas referências globais em termos de coberturas para fusões e aquisições. "As primeiras experiências tiveram alguns sinistros relevantes, muitas seguradoras deixaram o mercado e as apólices passaram a ter preços elevados e muitas exclusões. Durante anos, tornou-se um produto caro e pouco eficiente. Hoje, temos um produto viável, competitivo e com condições bastante próximas das praticadas nos Estados Unidos e na Europa”, pontua Bruna Reis, head de Transaction Liability da Lockton, ao se referir à reação ocorrida nos últimos cinco anos, em especial nos dois últimos exercícios.
Dados de um relatório da corretora americana Aon, produzido em parceria com a TTR ignorados Data e a Datasite, ratificam que o Brasil permanece na liderança das operações de fusões e aquisições na América Latina. No primeiro semestre de 2026, foram registradas 593 operações. Em números, houve queda de 35% nas operações em relação ao mesmo período de 2025. Em contrapartida, a movimentação, de US$ 32,557 bilhões, registrou alta de 15% em seu valor agregado.
Na avaliação da Aon, tal comportamento significa que o mercado brasileiro está mais seletivo e concentrado em operações de maior porte. Sobre o perfil das operações, o relatório destaca o interesse dos investidores por ativos estratégicos de alta qualidade, com o setor de tecnologia (software e serviços de TI) à frente, seguido pelo mercado imobiliário, de serviços profissionais, além de bancos e investimentos.
Em agosto, a trajetória positiva de R&W foi ratificada, mais uma vez, por especialistas das áreas jurídica e de seguros do escritório Demarest (advocacia), do RiskPoint Group, agência independente de subscrição de seguros, e da Lockton, maior corretora de seguros do mundo, durante uma mesa-redonda.
Para eles, o mercado brasileiro de fusões e aquisições começa a testemunhar uma transformação importante na forma de alocar riscos entre compradores e vendedores por meio do seguro de Representations & Warranties (R&W), modalidade criada para cobrir prejuízos decorrentes do descumprimento das declarações e garantias prestadas pelo vendedor em contratos de compra e venda de empresas. “O seguro não é apenas uma ferramenta de transferência de risco. Ele também ajuda a melhorar a qualidade das transações, aperfeiçoar contratos e criar mais segurança para investimentos”, afirma Márcia Cicarelli, sócia da área de Seguros, Resseguros, Previdência e Saúde Suplementar do Demarest, ao moderar o encontro de agosto.
Seguro destrava impasses
Tudo porque, nas negociações de compra e venda de empresas, as cláusulas de declarações, garantias e indenização costumam ser o principal foco de tensão, o que torna o seguro um instrumento para destravar o impasse nas tratativas, lembra o sócio do Demarest André Lacom. Segundo ele, nas negociações há naturalmente uma assimetria de informações entre o vendedor e o comprador, já que o primeiro conhece profundamente o negócio, enquanto o comprador depende das informações levantadas durante a due diligence. “Existe uma alocação de risco que muitas vezes ninguém quer assumir. É justamente aí que o seguro aparece como uma solução para superar impasses e permitir que a operação avance”, explicou.
Bruna Reis, da Lockton, diz que a “mágica” consiste na troca da titularidade de exposição dos riscos. “O seguro entra no lugar do vendedor. O comprador deixa de depender exclusivamente da capacidade daquele vendedor de responder por um passivo futuro e passa a contar com uma seguradora especializada”, afirmou, explicando que o seguro cobre principalmente riscos desconhecidos no momento da transação. “O seguro cobre o passivo oculto das transações. Aquilo que já foi identificado na due diligence normalmente não será objeto da cobertura e precisará ser tratado de outra forma”, observou. Para riscos conhecidos, como contingências tributárias ou jurídicas identificadas durante a diligência, existem outras soluções, como os seguros de Contingent Liability e Tax Liability.
A diretora de Seguros de M&A da Lockton, Renée Bradbury, detalhou o processo de contratação e destacou que o envolvimento da corretora e das seguradoras deve ocorrer o mais cedo possível nas operações de fusões e aquisições. “Quanto antes o seguro entrar na discussão, melhor. Quando as partes começam a negociar o pacote de garantias da operação, já faz sentido entender o que o mercado segurador pode oferecer”, afirmou.
Segundo ela, o processo normalmente começa com uma cotação inicial baseada em documentos da transação, como o SPA (Share Purchase Agreement), demonstrações financeiras e informações básicas sobre o negócio. “A cotação é gratuita e já permite visualizar limites, franquias, exclusões e condições de cobertura”, explicou. Após a escolha da seguradora, inicia-se a fase de underwriting, na qual os relatórios de due diligence são analisados para definição da cobertura.
Especialista de subscrição do RiskPoint Group, André Giusti destaca que o principal fator para o sucesso da apólice é a qualidade da due diligence. “A qualidade das informações impacta diretamente o alcance da cobertura. Quanto mais robusta e profunda for a diligência, maior o conforto da seguradora para assumir riscos”, diz.
Giusti explicou que a seguradora não realiza uma nova auditoria, mas avalia os relatórios já produzidos pelos assessores da transação. Durante o chamado underwriting call, seguradora, advogados e assessores discutem dúvidas específicas e pontos identificados na diligência. “O objetivo não é excluir tudo. Pelo contrário. Quanto melhor entendermos o risco, maior a possibilidade de oferecer uma cobertura ampla”, disse.
O sentimento predominante entre os especialistas é de que o produto superou sua fase experimental no Brasil. Se há dez anos o seguro era visto como uma solução cara, importada e pouco adaptada à realidade local, hoje já aparece em discussões cada vez mais frequentes entre compradores, vendedores, bancos e escritórios de advocacia. “O mercado brasileiro de M&A é o maior da América Latina”, resumiu André Giusti. “Quando o conhecimento sobre o produto aumentar, o potencial de crescimento se tornará enorme”, afiança.
André Lacom concorda que o principal obstáculo à expansão do produto no Brasil ainda é cultural. Ele acredita que a disseminação do conhecimento será o principal vetor de crescimento nos próximos anos. “A gente precisa acreditar no produto. Os mercados maduros passaram exatamente pela fase em que estamos hoje”, afirmou.
Um dos atrativos do produto é o conceito de clean exit (“saída limpa”), modelo em que o vendedor conclui a transação sem permanecer exposto por anos a eventuais pedidos de indenização relacionados ao negócio. Segundo Renée Bradbury, esse expediente tem se tornado uma das principais motivações para a contratação do seguro. “Cada vez mais vemos vendedores dizendo: esta é minha empresa, estas são as condições e a garantia será o seguro”, relata, reconhecendo que esse modelo é especialmente atraente para fundos de private equity, grupos internacionais e empresários que não desejam manter recursos bloqueados em contas-garantia ou permanecer envolvidos em disputas futuras. “O vendedor sai com o dinheiro e sem pendências. E o comprador troca o risco do vendedor pelo risco de uma seguradora de primeira linha”, resume.
O sócio do Demarest Décio Borges acredita que os benefícios do seguro ultrapassam os limites da própria transação. Segundo ele, a ferramenta contribui para melhorar o ambiente de negócios e aumentar a atratividade do país para investidores. “Estamos falando de simplificação das negociações, redução de impasses e aumento da previsibilidade. No final, isso significa mais investimentos e mais desenvolvimento econômico”, afirmou. Borges lembra que muitas transações fracassam porque comprador e vendedor não chegam a um consenso sobre determinados riscos. “O seguro cria uma ponte para resolver situações que poderiam impedir o fechamento do negócio.”
A aposta dos participantes é que o seguro de R&W caminhe, nos próximos anos, para deixar de ser uma alternativa excepcional e se tornar mais um item da estrutura padrão das grandes transações corporativas no país. Afinal, quando a discussão sobre riscos ameaça travar um negócio multimilionário, ter uma terceira parte disposta a assumir parte dessa conta pode ser exatamente o empurrão que falta para a assinatura acontecer.
Fonte: CNseg, em 16.09.2026