O que é a “Era da Resiliência” - e por que ela importa para o seguro

- A “Era da Resiliência” marca a virada em que o risco climático deixa de ser tratado como exceção e passa a ser parte estrutural da economia.
- Nessa nova fase, o seguro sai do bastidor e ocupa o centro da gestão de risco climático global.
Nos debates mais recentes sobre clima e finanças – de podcasts do setor, como o Conversa Segura, a estudos sobre finanças sustentáveis – “Era da Resiliência” descreve um ponto de inflexão: governos, empresas e sociedade entendem que não basta mais tentar evitar riscos climáticos; é preciso aprender a conviver com eles, reduzir perdas e se recuperar rápido.
Essa nova fase tem três características centrais:
- Eventos extremos viram o “novo normal”: enchentes, secas, ondas de calor e tempestades severas deixam de ser raridades estatísticas e passam a ocorrer com frequência e intensidade maiores.
- O foco migra da eliminação do risco para a redução de danos: a prioridade passa a ser reduzir severidade, concentração geográfica e efeito em cascata dos eventos climáticos.
- Resiliência vira princípio organizador: seguradoras, resseguradoras e investidores passam a tratar “adaptar, fortalecer e reconstruir melhor” como eixo de produtos, investimentos e regulação.
Relatórios recentes do World Economic Forum e de consultorias globais estimam que as perdas seguradas por catástrofes naturais têm girado em torno de US$ 100 bilhões por ano, ao mesmo tempo em que a maior parte das perdas climáticas segue sem cobertura – o chamado protection gap. Na prática, isso funciona como um “imposto oculto” sobre crescimento, investimento e estabilidade social: países e empresas pagam mais caro para se recuperar de choques para os quais não estavam preparados.
A “Era da Resiliência” é a resposta a essa equação: ou o sistema econômico incorpora resiliência como prioridade – com o seguro no centro – ou cada evento extremo continuará produzindo cicatrizes econômicas, sociais e fiscais cada vez mais profundas.
Como a “Era da Resiliência” reposiciona o seguro
Estudos de organismos internacionais, think tanks e consultorias convergem em um ponto: o seguro não é mais apenas um “cheque pós-desastre”; ele se torna uma camada básica da arquitetura de resiliência climática.
Esse reposicionamento acontece em quatro movimentos principais.
1. Da indenização para a prevenção e adaptação
Na lógica tradicional, o seguro entra após o evento: o desastre acontece, o sinistro é regulado e a indenização paga. Na “Era da Resiliência”, seguradoras e resseguradoras começam a atuar antes do sinistro:
- financiando ou estimulando infraestruturas mais resilientes a enchentes, ventos e calor extremo;
- apoiando soluções baseadas na natureza, como recuperação de manguezais, florestas e áreas de amortecimento;
- incentivando sistemas de alerta precoce, planos de contingência e obras de adaptação.
Do ponto de vista técnico, a lógica é simples: cada dólar investido em prevenção pode reduzir múltiplos dólares em perdas futuras – inclusive para as próprias carteiras das seguradoras. Por isso, o seguro passa a premiar quem reduz risco, por meio de franquias mais adequadas, preços diferenciados e condições de cobertura melhores para empresas, municípios e projetos que investem em resiliência.
2. De produto financeiro para infraestrutura de política climática
Relatórios do World Economic Forum descrevem o setor segurador como uma das “camadas fundacionais” da resposta global ao risco climático. Isso significa que o seguro é visto hoje como:
- peça-chave para viabilizar adaptação climática, ao absorver parte dos riscos físicos de longo prazo;
- alavanca para financiar transição energética, ao permitir que projetos de energia limpa e infraestrutura verde encontrem condições de risco-financiamento aceitáveis;
- componente central da estratégia de reconstrução pós-desastres, em articulação com fundos públicos, bancos de desenvolvimento e resseguro global.
Sem mecanismos de seguro e resseguro robustos, muitos projetos de energia renovável, infraestrutura resiliente ou agricultura adaptada simplesmente não saem do papel, porque não há como alocar riscos extremos de forma eficiente. É aqui que o setor deixa de ser visto como “linha de despesa” e passa a ser entendido como infraestrutura de política pública climática, operando em parceria com governos, reguladores e organismos multilaterais.
3. De cálculo atuarial estático para inteligência de risco sistêmico
A “Era da Resiliência” também muda o coração técnico do negócio: o cálculo atuarial clássico cede espaço para uma abordagem de inteligência de risco climático sistêmico.
Na prática, isso significa:
- uso intensivo de dados climáticos, modelagem de cenários e ciência do clima para redesenhar mapas de risco, contemplando não apenas eventos históricos, mas projeções futuras sob diferentes trajetórias de aquecimento;
- incorporação de riscos em cadeia (impacto em cadeias de suprimento, riscos de transição, riscos de litígios climáticos) em modelos de subscrição e capital;
- atuação como “curador” de dados de risco, orientando políticas públicas e decisões de investimento: onde construir, como adaptar cidades, quais padrões de construção são aceitáveis, qual nível de risco é socialmente tolerável.
Em vez de apenas precificar, o setor passa a informar decisões estruturais – do desenho de códigos de obras a estratégias de diversificação de portfólios – reposicionando seguradoras como fontes centrais de inteligência de risco climático.
4. Do foco em grandes ativos à inclusão de populações vulneráveis
Outra mudança importante é a ampliação do escopo: resiliência climática não é apenas proteger grandes ativos, mas incluir quem mais sofre e menos tem cobertura.
Estudos destacam o papel de:
- seguros paramétricos, que pagam automaticamente quando determinados índices são atingidos (chuva, vento, temperatura), protegendo agricultores familiares, produtores rurais e comunidades expostas;
- produtos desenhados para trabalhadores expostos a calor extremo, enchentes e deslizamentos, combinando proteção de renda e assistência;
- soluções acessíveis para comunidades de baixa renda, que concentram vulnerabilidades e normalmente estão fora dos mercados tradicionais de seguro.
Essa agenda conecta resiliência climática à ideia de transição justa: não se trata apenas de proteger assets, mas de proteger renda, meios de subsistência e a capacidade de recuperação de pessoas e territórios.
O que muda na estratégia do setor segurador
Na lógica da “Era da Resiliência”, o setor segurador passa a ser visto – e a se posicionar – em três papéis estratégicos:
- Co-orquestrador de políticas de adaptação
Atuando ao lado de governos, reguladores e bancos multilaterais, o seguro usa preço, cobertura e exigências de gestão de risco como instrumentos de política climática baseada em mercado. - Investidor ativo em resiliência
Canalizando reservas técnicas e carteiras de investimento para projetos que reduzem risco físico (infraestrutura verde, soluções baseadas na natureza, tecnologias de proteção e prevenção), alinhando underwriting e investimentos com metas de clima. - Curador de dados e narrativas de risco
Traduzindo cenários climáticos complexos em mensagens claras e acionáveis para empresas, famílias, cidades e reguladores – algo que, no Brasil, já se reflete em iniciativas de conteúdo sobre clima, ESG e proteção promovidas por entidades do setor.
Na prática, isso se traduz em:
- mais produtos voltados à adaptação – seguros paramétricos, coberturas multianuais, apólices sob medida para clima extremo;
- mais integração entre subscrição, investimentos e sustentabilidade – não é coerente financiar, segurar e investir em ativos incompatíveis com uma trajetória de 1,5–2°C e, ao mesmo tempo, falar em resiliência;
- uma mudança de narrativa: da “indústria que paga catástrofes” para a indústria que ajuda a evitar catástrofes piores e a manter a economia de pé quando elas ocorrem.
Para saber mais:
- Conversa Segura T4#19 | Resiliência, risco climático e o novo papel do seguro na era da adaptação – Episódio gravado durante a COP30 que aprofunda como o setor segurador está se reposicionando na “Era da Resiliência”, conectando finanças sustentáveis, adaptação climática e o novo papel do seguro na transição para uma economia de baixo carbono.
Conversa Segura T4#19 | Resiliência, risco climático e o novo papel do seguro na era da adaptação

Gravado na Casa do Seguro, em Belém, durante a COP30, este episódio do Conversa Segura, do canal SeguroPod, aprofunda uma das agendas mais críticas da atualidade: como a resiliência está redefinindo o papel do setor segurador diante da intensificação dos riscos climáticos.
A jornalista Leila Sterenberg conduz a conversa com duas lideranças globais da Allianz Commercial: Gabrielle Durisch, Chief Sustainability Officer, e Lena Fuldauer, líder global de soluções de sustentabilidade e resiliência.
Em um contexto marcado pela crescente frequência e severidade de eventos extremos, o episódio analisa como o seguro deixa de ser apenas um mecanismo de compensação para assumir um papel estratégico na antecipação, mitigação e adaptação aos riscos climáticos.
A conversa aborda, com profundidade técnica e visão aplicada:
⦁ O conceito de “Era da Resiliência” e como ele reposiciona o setor segurador no centro da gestão de risco climático global.
⦁ A evolução dos modelos tradicionais de underwriting, incorporando dados climáticos avançados, inteligência artificial e modelagem de catástrofes.
⦁ O papel do seguro na transição para uma economia de baixo carbono, incluindo metas de net zero e expansão de soluções sustentáveis.
⦁ A atuação da Allianz Commercial no financiamento e na subscrição de projetos de infraestrutura resiliente, com foco em energia renovável, mobilidade e adaptação urbana.
⦁ A mudança de um modelo reativo para um modelo preventivo, com destaque para ferramentas como o CARES (Climate Adaptation and Resilience Services).
⦁ O uso de dados e tecnologia para transformar risco climático em indicadores financeiros e decisões estratégicas para empresas.
⦁ A importância da engenharia de risco e das soluções baseadas na natureza na redução de perdas e no fortalecimento da resiliência corporativa e urbana.
⦁ Como a resiliência impacta diretamente a continuidade de negócios, a estabilidade econômica e a proteção de comunidades.
Ao longo do episódio, Gabrielle e Lena apresentam uma visão integrada entre seguro, sustentabilidade e desenvolvimento econômico, destacando que investir em resiliência não é custo, mas uma alavanca de valor no longo prazo.
A discussão também oferece uma leitura clara sobre:
- Mitigação: redução de emissões e apoio à transição energética.
- Adaptação: preparação para eventos extremos, proteção de ativos e redução de vulnerabilidades.
- Resiliência: capacidade de antecipar, absorver e se recuperar de choques climáticos com menor impacto econômico e social.
Com exemplos concretos e aplicações práticas, o episódio se consolida como uma referência para executivos, formuladores de políticas públicas, profissionais do mercado financeiro e especialistas em risco que buscam compreender como o setor segurador está se reposicionando na agenda climática global.
Ao final, fica evidente que o seguro é um dos pilares invisíveis da estabilidade econômica e um agente cada vez mais decisivo na construção de um futuro mais resiliente.
👉 Como sua empresa está se preparando para os riscos climáticos? A resiliência já entrou na estratégia ou ainda é vista como custo? Deixe sua visão nos comentários.
👉 Se você atua com seguros, finanças, sustentabilidade ou gestão de riscos, este episódio é essencial. Assista até o final para entender como a resiliência está redefinindo o setor.
Estreito de Ormuz ameaça verão europeu e amplia riscos das viagens internacionais de brasileiros
Segundo principal destino das viagens internacionais de brasileiros, depois da América Latina, a Europa poderá criar contratempos para os visitantes no auge do próximo verão europeu — ou mesmo antes da estação. Tudo isso porque o continente está entre os mais afetados por uma conjuntura adversa para as companhias aéreas: disparada dos preços do querosene de aviação (e risco de escassez do combustível nos próximos meses), cancelamento de voos e colapso de empresas com menor solidez financeira.
A raiz do problema é o fechamento do Estreito de Ormuz, no Oriente Médio, em virtude da guerra entre Estados Unidos e Irã. A região é tradicional fornecedora de petróleo e derivados para os países europeus. Até o momento, mais de 2 milhões de voos já foram cancelados pelas companhias aéreas em todo o mundo, na busca por maior racionalização da frota diante do salto dos preços do principal insumo do setor.
Brasileiros viajaram mais em 2025
No ano passado, os brasileiros gastaram US$ 21,7 bilhões em viagens internacionais, alta de 10,4% sobre 2024 e o maior valor desde 2014, segundo o Banco Central. Na Europa, os destinos mais procurados pelos brasileiros continuaram sendo Portugal, Espanha, França, Itália e Reino Unido.
Mas poucos levaram na bagagem a proteção do seguro viagem — uma das coberturas disponíveis é a de cancelamento de voo. Segundo a Anac, mais de 28,4 milhões de passageiros viajaram para destinos internacionais em 2025, alta de 13,4% sobre 2024. O mercado estima que, desse total, apenas 3,05 milhões contrataram seguro para suas viagens ao exterior.
Comportamento errático e consequências inesperadas
Esse comportamento errático dos brasileiros nas viagens internacionais pode trazer consequências inesperadas. “O seguro viagem atua como uma rede de apoio essencial diante de crises complexas”, afirma o professor Eduardo Gama, da Escola de Negócios e Seguros, para quem o seguro viagem não pode continuar sendo negligenciado pelos viajantes, sobretudo em tempos de instabilidade.
Ao defender uma mudança de mentalidade dos viajantes, ele afirma que a questão central já não deve ser “quanto custa o seguro”, mas sim “quanto custará a falta dele”. Em outras palavras, o seguro viagem deixa de ser um item opcional e passa a ser uma ferramenta essencial de proteção, diz ele, ao exemplificar algumas das principais coberturas do serviço.
1. Assistência em atrasos ou interrupções
Em situações de colapso operacional, cancelamentos de voos podem ocorrer em massa, criando uma disputa intensa por assentos remanescentes. Vale lembrar, como assinala o professor, que “a escassez de combustível gera cancelamentos de voos em massa e reduz a malha aérea”. Nesses casos, o seguro viagem cobre despesas como hospedagem, alimentação e transporte — especialmente quando a companhia aérea não consegue atender prontamente os passageiros.
2. Garantia de regresso
Outro ponto crítico é o risco de falência de companhias aéreas. Nessa hipótese, o seguro pode ser decisivo para assegurar o retorno do viajante. O professor ressalta que o seguro pode “garantir o reembolso ou a compra de uma nova passagem de retorno sem comprometer o orçamento do viajante”. Esse aspecto é ainda mais relevante considerando que, com o aumento do custo do combustível, passagens compradas de última hora tendem a atingir valores extremamente elevados.
3. Garantia financeira no exterior
Em destinos como a Europa, ser surpreendido por uma crise logística sem qualquer proteção pode gerar custos que superam o investimento total da viagem. O seguro viagem funciona como uma proteção financeira, evitando prejuízos maiores. Como reforça o especialista, ele impede que imprevistos se transformem em “dívidas impagáveis em euro ou dólar”.
4. Conforto, segurança e suporte emocional
Além das questões financeiras, há o impacto humano. Longas esperas em aeroportos, incertezas e desgaste emocional podem afetar diretamente a saúde do viajante. Nesse contexto, o professor ressalta que ter acesso a uma central 24 horas em português é “um diferencial psicológico e prático vital”. A sensação de contar com uma rede de apoio — que inclui orientação médica e hospitalar — traz mais tranquilidade em momentos de crise.
5. Incerteza geopolítica
Por fim, o cenário global de instabilidade eleva o risco de retenção no exterior. Com alertas internacionais sobre estoques limitados de combustível, a possibilidade de interrupções prolongadas nas viagens é concreta. Nesse ambiente, o seguro viagem deixa de ser um complemento e passa a ser, nas palavras de Eduardo Gama, “um item de sobrevivência logística”.
Proteções essenciais do seguro viagem em tempos de instabilidade
- Falência de companhias aéreas: reembolso de serviços não utilizados e auxílio no retorno.
- Cancelamentos por escassez de combustível: cobertura de hospedagem e alimentação.
- Tarifas elevadas: suporte para despesas emergenciais.
- Caos nos aeroportos: orientação jurídica e suporte em caso de perda de conexões.
- Problemas de saúde decorrentes do estresse: acesso à rede médica e assistência.
Coberturas Principais e Obrigatórias (DMHO)
- Despesas Médicas, Hospitalares e Odontológicas (DMHO): Cobre consultas, internações e procedimentos de urgência por doenças ou acidentes.
- Traslado Médico e Regresso Sanitário: Transporte seguro até um hospital ou retorno ao país de origem em caso de doença grave ou acidente.
- Repatriação Funerária: Cobre os custos do traslado do corpo em caso de falecimento.
- Indenização por Invalidez ou Morte Acidental: Pagamento de indenização em acidentes pessoais durante a viagem.
- Coberturas Adicionais e Especiais
- Extravio ou Dano de Bagagem: Indenização no caso de perda, roubo ou dano à bagagem sob responsabilidade da companhia aérea.
- Cancelamento ou Interrupção de Viagem: Reembolso de despesas não utilizadas caso a viagem precise ser cancelada ou interrompida por motivos justificados.
- Assistência Jurídica: Suporte em situações legais.
- Seguro para Gestantes: Cobertura médica específica para gestantes.
Fonte: CNseg, em 12.05.2026