Entenda a diferença entre endividamento e inadimplência e como planejamento, reserva e seguros podem proteger seu orçamento
- O endividamento das famílias brasileiras permaneceu no recorde de 81,6% em junho de 2026. Isso significa que oito em cada dez famílias declararam ter algum compromisso financeiro a vencer, como compras parceladas, empréstimos ou financiamentos.
- O dado é da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
- O índice subiu para 81,6% em maio e permaneceu nesse patamar em junho, de acordo com a edição mais recente da Peic.
- O recorde merece atenção, mas não significa que 81,6% das famílias estejam inadimplentes.
- Em junho, 29,9% tinham contas atrasadas, enquanto 12,2% afirmaram que não conseguiriam pagar essas pendências.
Em resumo
- 81,6% das famílias tinham dívidas a vencer em junho de 2026;
- 29,9% estavam com contas ou parcelas atrasadas;
- 12,2% afirmaram que não conseguiriam pagar as pendências;
- 29,3% da renda, em média, estava comprometida com parcelas;
- endividamento e inadimplência são situações diferentes;
- seguros podem proteger o orçamento contra determinados imprevistos, mas não substituem planejamento e reserva financeira.
Endividamento e inadimplência são a mesma coisa?
Não. Endividamento é a existência de compromissos financeiros, mesmo que estejam sendo pagos em dia. Inadimplência ocorre quando uma conta ou parcela não é paga até o vencimento.
Para a Peic, uma família é considerada endividada quando declara ter compromissos em modalidades como cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado ou prestações de imóveis e veículos.
Uma compra parcelada no cartão, portanto, entra no indicador de endividamento mesmo quando todas as faturas estão em dia. A dívida passa a integrar o indicador de inadimplência somente quando há atraso no pagamento.
Essa distinção é importante porque evita uma interpretação alarmista do recorde. O crescimento do endividamento mostra que uma parcela maior da renda futura já está comprometida, mas não permite concluir, sozinho, que a maioria das famílias perdeu a capacidade de pagamento.
Qual é o percentual de famílias endividadas no Brasil em 2026?
Em junho de 2026, 81,6% das famílias brasileiras declararam ter dívidas, mesmo percentual registrado em maio e o maior da série histórica da Peic. Em junho de 2025, eram 78,4%. O avanço em 12 meses foi de 3,2 pontos percentuais.
Realizada mensalmente desde janeiro de 2010, a pesquisa reúne aproximadamente 18 mil consumidores em todas as capitais e no Distrito Federal. A metodologia da Peic acompanha o nível de endividamento, as contas em atraso, o comprometimento da renda e a percepção dos consumidores sobre sua capacidade de pagamento.
Por que o recorde exige atenção?
O orçamento familiar continua pressionado mesmo com a estabilidade mensal da inadimplência. Segundo a CNC, o comprometimento médio da renda com parcelas ficou em 29,3% em junho. Entre os endividados, 55,8% destinavam de 11% a 50% dos rendimentos mensais ao pagamento desses compromissos.
Outros dados reforçam o sinal de atenção:
- 17,2% das famílias se consideravam muito endividadas;
- o tempo médio de atraso das contas era de 64,8 dias;
- 33,3% tinham parcelas que se estenderiam por mais de um ano;
- 29,9% estavam inadimplentes, ante 29,5% em junho de 2025.
Para José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC–Sesc–Senac, “a estabilização da inadimplência e a melhora dos prazos de pagamento em junho dão um respiro ao consumidor”. A própria CNC, porém, projeta viés de alta para o endividamento e ligeiro crescimento das contas atrasadas no curto e médio prazo.
O cenário também combina renda comprometida com crédito ainda caro. Na data desta publicação, a meta da taxa Selic estava em 14,25% ao ano, conforme a série oficial do Banco Central. Juros elevados aumentam o risco de uma dívida administrável crescer rapidamente quando ocorre atraso, sobretudo nas modalidades de maior custo.
Como organizar as dívidas e o orçamento familiar?
O primeiro passo é registrar todas as receitas, despesas, dívidas e taxas de juros para conhecer a situação real da família. Depois, é preciso priorizar os compromissos mais caros, negociar atrasos e evitar assumir novas parcelas sem avaliar o custo total.
O Caderno de Educação Financeira do Banco Central recomenda que o orçamento pessoal ou familiar seja construído em quatro etapas: planejamento, registro, agrupamento e avaliação.
Na prática, a família pode seguir este roteiro:
- Mapear as dívidas: reunir saldo, número de parcelas, vencimento, taxa de juros e custo total de cada compromisso.
- Separar dívida de inadimplência: identificar o que está em dia e o que já está atrasado.
- Priorizar as modalidades mais caras: negociar primeiro as dívidas com juros mais elevados, sem trocar um débito por outro ainda mais oneroso.
- Registrar receitas e despesas: anotar inclusive pequenos gastos, compromissos sazonais e compras parceladas.
- Proteger as despesas essenciais: preservar recursos para alimentação, moradia, saúde, educação e transporte.
- Envolver a família: estabelecer prioridades e limites que possam ser cumpridos por todos.
- Criar uma reserva: depois de equilibrar o orçamento, formar gradualmente uma reserva para emergências.
Quem não consegue chegar a um acordo diretamente com a empresa pode procurar o Consumidor.gov.br ou os Procons. A legislação sobre superendividamento também prevê mecanismos de prevenção e tratamento para consumidores de boa-fé que não conseguem pagar as dívidas sem comprometer o mínimo necessário à subsistência.
Leia também: Educação financeira: por onde começar — e como o seguro entra nessa história
Como o seguro pode proteger o orçamento familiar?
O seguro pode reduzir o impacto financeiro de um evento inesperado previsto na apólice. Ele não elimina dívidas existentes nem substitui o controle do orçamento, mas pode evitar que um sinistro coberto consuma toda a reserva ou obrigue a família a recorrer a um novo empréstimo.
Seguros de Vida, Residencial e Automóvel, por exemplo, protegem pessoas ou patrimônios contra riscos definidos no contrato. A indenização depende da ocorrência de um evento coberto e do cumprimento das condições da apólice.
Reserva de emergência e seguro cumprem funções complementares. A reserva oferece liquidez para despesas menores ou situações sem cobertura. O seguro transfere à seguradora riscos que poderiam gerar uma perda grande demais para ser absorvida pelo orçamento doméstico.
Incluir uma proteção no planejamento não significa contratar todos os seguros disponíveis. A escolha deve considerar os riscos enfrentados pela família, a existência de dependentes, o patrimônio, a estabilidade da renda, as coberturas necessárias e a capacidade de pagamento.
Leia também: Planejamento financeiro familiar: como organizar o dinheiro da casa e se proteger de imprevistos
O que é Seguro Prestamista e como ele funciona?
Seguro Prestamista é a proteção vinculada a uma dívida ou compromisso financeiro. Se ocorrer um risco previsto no contrato, a indenização pode quitar, amortizar ou pagar determinado número de parcelas da obrigação, até o limite contratado.
Segundo a Superintendência de Seguros Privados (Susep), as coberturas podem incluir morte, invalidez, desemprego involuntário ou perda de renda, incapacidade temporária e doenças graves.
O primeiro beneficiário é o credor, até o limite do saldo da obrigação. O Seguro Prestamista pode estar associado a cartão de crédito, cheque especial, empréstimo, consórcio, carnê ou financiamento de imóvel, veículo e outros bens.
O produto não é obrigatório. Antes de contratar, o consumidor deve verificar:
- quais riscos estão cobertos;
- quais situações estão excluídas;
- se existe carência;
- o início e o término da vigência;
- o valor máximo da indenização;
- o custo total do seguro;
- o que acontece se a dívida for quitada antecipadamente ou renegociada.
O Seguro Prestamista não quita automaticamente uma dívida apenas porque houve atraso. É necessário que ocorra um evento coberto durante a vigência e que as demais condições contratuais sejam atendidas.
Perguntas frequentes sobre endividamento e seguro
Ter compras parceladas significa estar endividado?
Sim. Para a Peic, compras parceladas, empréstimos e financiamentos são dívidas, mesmo quando todas as parcelas estão sendo pagas no prazo.
Toda família endividada está inadimplente?
Não. Em junho de 2026, 81,6% das famílias tinham dívidas, mas 29,9% estavam com contas atrasadas.
Qual é a diferença entre dívida e inadimplência?
Dívida é um compromisso financeiro que ainda precisa ser pago. Inadimplência é o atraso no pagamento desse compromisso.
Seguro Prestamista é obrigatório?
Não. A Susep informa que o Seguro Prestamista não é obrigatório. A contratação deve ser uma escolha do consumidor, que precisa conhecer previamente custos, coberturas, carências e exclusões.
Seguro Prestamista cobre qualquer atraso no pagamento?
Não. O seguro só paga indenização quando ocorre um risco coberto, durante a vigência e de acordo com as condições estabelecidas no contrato.
Seguro substitui a reserva de emergência?
Não. Seguro e reserva são complementares. A reserva atende despesas imediatas ou não cobertas, enquanto o seguro protege contra riscos específicos que podem causar perdas elevadas.
Fonte: CNseg, em 04.08.2026