
O El Niño já começou a se formar no Pacífico Equatorial e deve se intensificar nos próximos meses, aumentando o risco de eventos climáticos extremos no Brasil. Dados recentes mostram que a temperatura da superfície do mar na porção centro-leste do oceano já alcançou 0,5°C acima da média, patamar que marca oficialmente o início do fenômeno. As projeções indicam mais de 90% de chance de consolidação do El Niño e cerca de 98% de probabilidade de que ele permaneça ativo — possivelmente em intensidade forte ou muito forte — entre outubro e dezembro.
Nesse cenário, especialistas reforçam que o país precisa se preparar para impactos significativos, especialmente diante da combinação entre o El Niño e o aquecimento global, que intensifica os efeitos dos fenômenos meteorológicos. “O El Niño sempre existiu, mas o aquecimento global está tornando os eventos a ele associados muito mais intensos, frequentes e extremos”, afirma o climatologista Carlos Nobre.
Rio Grande do Sul: epicentro das vulnerabilidades
Entre todas as regiões brasileiras, o Sul, com destaque para o Rio Grande do Sul, aparece como a área de maior vulnerabilidade imediata. O histórico recente reforça essa preocupação: durante o último episódio de El Niño (2023–2024), o estado registrou volumes recordes de chuva, com episódios extremos que resultaram em dezenas de mortes e destruição em larga escala.
Mesmo quando o fenômeno não atinge a intensidade máxima, os impactos têm sido amplificados. A explicação está no aquecimento global, que aumenta a temperatura dos oceanos — especialmente do Atlântico, que chegou a cerca de 27°C — elevando a taxa de evaporação e, consequentemente, a quantidade de vapor d’água disponível na atmosfera. “Com oceanos mais quentes, há mais evaporação e mais vapor na atmosfera. Isso faz com que as nuvens sejam mais carregadas e as chuvas, muito mais intensas”, explica Nobre.
Na prática, isso significa que o Rio Grande do Sul tende a enfrentar:
- Chuvas acima da média e eventos extremos, com risco de enchentes e deslizamentos;
- Maior frequência de temporais intensos, com rajadas de vento e granizo;
- Elevação do risco hidrológico, impactando rios, barragens e áreas urbanas;
- Possibilidade de novos recordes climáticos, mesmo sem um El Niño considerado extremo.
“O Sul do Brasil, especialmente o Rio Grande do Sul, é a região que mais enfrenta risco imediato de desastres como enchentes, que trazem impactos rápidos e severos, inclusive com perda de vidas”, alerta o climatologista.
Brasil dividido entre excesso de chuva e escassez de água
Enquanto o Sul deve lidar com o excesso de chuvas, outras regiões enfrentam o cenário oposto. A influência típica do El Niño tende a provocar:
- Seca na Amazônia e no Nordeste, especialmente no semiárido;
- Irregularidade nas chuvas no Centro-Oeste e Sudeste;
- Ondas de calor mais intensas e frequentes em grande parte do país.
Essas ondas de calor, embora menos visíveis do que enchentes, representam um risco crescente à saúde. “As ondas de calor são um impacto silencioso, mas muito grave. Elas estão associadas a milhares de mortes, especialmente entre idosos e pessoas vulneráveis — e isso só recentemente começou a ser mais bem documentado”, afirma Nobre.
Impactos econômicos e energéticos
Além dos riscos humanitários, o El Niño também traz consequências econômicas importantes, assinala Carlos Nobre. A irregularidade no regime de chuvas pode comprometer a geração hidrelétrica, principal fonte de energia do país. Em episódios recentes de seca, o Brasil foi obrigado a acionar usinas termelétricas, elevando custos e emissões.
“A variabilidade das chuvas afeta diretamente a geração de energia. Em anos de seca mais intensa, o país precisa recorrer a fontes mais caras e poluentes”, explica o climatologista.
A agricultura também entra na zona de risco: o excesso de chuva no Sul pode prejudicar colheitas, enquanto a seca no Norte e Nordeste reduz a produtividade e pressiona o abastecimento.
Intensidade ainda indefinida, mas tendência de agravamento
Embora exista consenso de que o fenômeno se consolidará, a intensidade final — se será forte ou muito forte — ainda deve ser confirmada nos próximos meses. Atualmente, a chance de um evento mais intenso é considerada elevada.
“Hoje já sabemos que o El Niño está se formando, com altíssima probabilidade de se manter até o fim do ano. A definição exata da intensidade só ocorre mais perto do pico, mas o risco de ser forte não é pequeno”, afirma Nobre.
Os modelos climáticos indicam ainda que o fenômeno pode se prolongar até 2027, ampliando seus efeitos.
Diante desse cenário, especialistas recomendam ações imediatas de adaptação e prevenção. O avanço do El Niño reforça a necessidade de adaptação a uma nova realidade climática — em que regiões como o Rio Grande do Sul se tornam cada vez mais expostas a eventos extremos de grande escala. “O Brasil precisa se preparar com antecedência. Não é mais possível tratar esses eventos como exceção — eles estão se tornando regra em um planeta mais quente”, conclui Carlos Nobre.
Fonte: CNseg, em 10.06.2026