Um novo normal desenha o mapa dos riscos climáticos em todo o mundo, com eventos extremos de enxurradas, secas, ondas de calor e incêndios florestais. No Hemisfério Norte, no auge do verão, o que antes era excepcional se tornou a nova realidade, submetendo países como Espanha, Turquia, México, França, Alemanha, Polônia e Canadá a prolongados períodos de estiagem, reservatórios em níveis críticos, perdas agrícolas e uma escalada dos incêndios em áreas florestais. A Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) já alertara que a região mediterrânea está entre os principais focos globais de seca, com impactos crescentes sobre o abastecimento de água, a produção de alimentos e a geração de energia.
Na Espanha, uma das nações mais afetadas pela escassez hídrica na Europa, comunidades inteiras já se acostumaram a conviver com restrições ao uso da água durante os meses mais quentes do ano, o que se tornou um símbolo da vulnerabilidade mediterrânea às mudanças climáticas. Relatórios internacionais apontam que a redução das chuvas e o aumento das temperaturas estão acelerando processos de desertificação em algumas áreas do país, pressionando a agricultura e o abastecimento urbano.
O mais recente balanço indica que a Espanha vive sua pior tragédia ambiental em décadas. Segundo levantamentos divulgados em julho, cerca de 50 mil hectares já foram destruídos por incêndios florestais, pelo menos 13 pessoas morreram em um grande incêndio na região de Almería e o país concentra alguns dos mais graves incêndios da temporada europeia. No sul do país, as temperaturas já chegam a 45,1°C na atual onda de calor.
A UNESPA, associação das seguradoras espanholas, reconhece o crescimento dos prejuízos causados por eventos meteorológicos extremos. Estudos da entidade mostram que as seguradoras já pagam entre 660 milhões e 1 bilhão de euros por ano em sinistros associados a fenômenos climáticos como tempestades, secas, granizo e inundações. A presidente da entidade, Mirenchu del Valle, tem repetido que a adaptação climática deve ser tratada como elemento central da gestão de riscos do século XXI.
Novamente, Portugal figura entre os países mais afetados da Europa por ondas de calor e incêndios florestais. Inicialmente, calcula-se que cerca de 30 mil hectares tenham sido consumidos pelas chamas em 2026. As altas temperaturas e a escassez de chuvas mantêm o país em situação de alerta. Historicamente, Portugal apresenta uma das maiores exposições a incêndios florestais no continente europeu, e as autoridades reforçaram sistemas de vigilância aérea e combate preventivo.
A Associação Portuguesa de Seguradores (APS) tem destacado o agravamento dos riscos climáticos em Portugal e na Península Ibérica. O principal alerta da APS é que os incêndios, tempestades, secas e outros eventos extremos deixaram de ser ocorrências excepcionais e passaram a representar um risco estrutural para a economia portuguesa. Pelos cálculos da entidade, nos últimos 20 anos, as seguradoras do país pagaram mais de 1 bilhão de euros em indenizações relacionadas a eventos climáticos extremos — mais de 60% desse valor na última década. Em razão disso, a APS apoiou a proposta do governo português de criar um Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas e defendeu um modelo nacional permanente de proteção contra grandes desastres. Segundo a associação, a crescente frequência de eventos extremos demonstra a necessidade de um sistema baseado na partilha de riscos entre Estado, seguradoras e sociedade.
Na Europa Central e Ocidental, os sinais de alerta também se multiplicam. O Observatório Europeu da Seca, ligado ao programa Copernicus da União Europeia, informou que as condições de seca se agravaram em partes da França, Alemanha, Reino Unido, Áustria, Hungria e Romênia, enquanto alertas permanecem ativos na Polônia, na Ucrânia e em áreas dos países bálticos. O avanço das ondas de calor reduz a umidade dos solos, prejudica culturas agrícolas e aumenta significativamente o risco de incêndios florestais.
O prognóstico para o verão do Hemisfério Norte é preocupante. Os centros de monitoramento climático europeus indicam temperaturas acima da média em extensas áreas do continente. O resultado esperado é a manutenção ou ampliação dos focos de seca, maior demanda por energia para refrigeração, pressão sobre os sistemas de abastecimento de água e aumento dos riscos para a saúde pública, principalmente entre idosos e crianças. A experiência dos últimos anos mostra que períodos de calor extremo costumam ser acompanhados por incêndios de grandes proporções e perdas bilionárias para a economia.
Na Europa, Espanha, Portugal, França, Itália e Grécia permanecem na linha de frente da temporada de incêndios, enquanto extensas áreas do continente enfrentam déficits hídricos e calor acima da média. Para cientistas e organismos internacionais, a convergência entre secas prolongadas, ondas de calor e incêndios florestais representa uma das maiores ameaças ambientais e econômicas da década. O que se observa hoje não é uma sucessão de eventos isolados, mas um padrão climático cada vez mais persistente, capaz de afetar agricultura, energia, abastecimento de água, saúde pública, infraestrutura e o próprio mercado global de seguros.
Canadá: temporada intensa, fumaça continental e risco crescente
O governo canadense informou em 9 de julho que havia 796 incêndios florestais ativos, dos quais cerca de 60 incêndios classificados como de resposta total estavam fora de controle. Desde o início do ano, mais de 3.100 incêndios já haviam sido registrados, consumindo aproximadamente 1,4 milhão de hectares. O Canadá projeta temperaturas acima da média durante o restante do verão e risco elevado de fogo em Manitoba, Ontário, Quebec, Territórios do Noroeste e partes da Colúmbia Britânica.
Dados atualizados do Canadian Wildland Fire Information System em 17 de julho indicam situação ainda mais grave: 893 incêndios ativos, sendo 128 fora de controle, e quase 2,8 milhões de hectares queimados em 2026. A Insurance Bureau of Canada calculou mais de US$ 2,4 bilhões em perdas seguradas relacionadas a eventos climáticos extremos em 2025. A presidente da entidade, Celyeste Power, afirmou que os governos precisam investir urgentemente em infraestrutura de adaptação e resiliência, alertando que reconstruir repetidamente após cada desastre custa muito mais do que preparar as comunidades para enfrentar os novos riscos climáticos.
Nesta temporada, a fumaça já atingiu Toronto, Montreal, Nova York, Nova Jersey e outras grandes cidades norte-americanas, provocando alertas de saúde pública e preocupações em relação à realização de eventos esportivos internacionais.
A densa fumaça dos incêndios florestais do Canadá, que atinge Nova York e Nova Jersey, encobriu o MetLife Stadium, palco da final da Copa, provocando alertas sobre a péssima qualidade do ar. O fenômeno afeta os treinos das seleções da Argentina e da Espanha às vésperas da partida final. A Fifa reconhece que essa condição dificulta a respiração durante treinamentos de alta performance e gera riscos à saúde dos jogadores e do público.
Os Estados Unidos também têm eventos extremos para chamar de seus. Um levantamento realizado em 15 de julho contabilizava 39.520 incêndios florestais registrados neste ano, 3,63 milhões de acres queimados (aproximadamente 1,47 milhão de hectares) e pelo menos 48 grandes incêndios ativos. Segundo o National Interagency Fire Center (NIFC), a área queimada está 157% acima da média dos últimos dez anos para esta época do ano. Quase 53% do território americano permanece sob algum nível de seca, acrescenta o estudo.
A governadora de Nova York, Kathy Hochul, alertou recentemente que a fumaça originada dos incêndios canadenses provocava condições insalubres em grande parte do estado, recomendando que a população permanecesse em ambientes fechados sempre que possível. Especialistas em saúde pública observam que a exposição prolongada à fumaça aumenta o risco de problemas respiratórios, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com doenças pulmonares preexistentes.
A American Property Casualty Insurance Association (APCIA) afirma que os incêndios florestais deixaram de ser um risco localizado do Oeste americano para se tornar uma ameaça permanente à sustentabilidade do mercado segurador. A APCIA pressiona governos estaduais e locais a ampliar programas de mitigação, endurecimento de edificações e controle da ocupação em áreas de interface urbano-florestal. "O risco de incêndios florestais não vai desaparecer. Precisamos nos adaptar reduzindo a probabilidade de que residências sejam atingidas por brasas, chamas e calor extremo", afirma Karen Collins, vice-presidente da associação.
Além das mudanças climáticas, a APCIA destaca que o aumento das perdas tem a ver com a expansão urbana em áreas de alto risco e com o encarecimento dos custos de reconstrução. Resultado: a crescente frequência e intensidade dos desastres naturais estão pressionando a oferta de seguros em diversos estados americanos. O mercado americano ainda se recupera dos megaincêndios recentes da Califórnia, que atingiram US$ 40 bilhões em prejuízos segurados.
Inverno no Brasil, sob efeito do El Niño, aumenta a preocupação com eventos extremos
Enquanto isso, no Brasil, o inverno pode produzir consequências importantes quando massas de ar polar conseguem avançar com força pelo continente. Geadas amplas no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste podem provocar prejuízos em lavouras de café, hortaliças e grãos, além de aumentar o consumo de energia e os casos de doenças respiratórias. Historicamente, episódios de frio intenso também afetam a pecuária e a produtividade agrícola. Embora o país esteja distante dos grandes focos de seca do Hemisfério Norte, ele não está isolado das grandes oscilações climáticas globais.
Nesse contexto, ganha relevância o fortalecimento do El Niño. A mais recente avaliação do Centro de Previsão Climática da NOAA aponta que o fenômeno está ativo e deve se intensificar ao longo dos próximos meses, com elevada probabilidade de persistência até o início de 2027. A agência norte-americana estima, inclusive, forte possibilidade de que o episódio alcance intensidade muito elevada entre outubro e dezembro. Segundo especialistas, os efeitos mais conhecidos do El Niño na América do Sul incluem chuvas acima da média no Sul do Brasil, aumento do risco de enchentes e alterações nos padrões de temperatura e precipitação em várias regiões do continente.
Fonte: CNseg, em 17.07.2026