
Embora a dúvida sobre sua existência real seja um debate clássico no meio acadêmico, o consenso entre os historiadores modernos é de que Sócrates foi uma pessoa real que viveu em Atenas entre 470 a.C. e 399 a.C.
Nos tempos de Sócrates, a Grécia Antiga vivia o chamado Período Clássico, uma era de extremos que reuniu o auge cultural, artístico e político de Atenas com o rastro de destruição deixado por guerras civis devastadoras. Não existia um país unificado, mas sim um conjunto de cidades-estados independentes (as pólis), sendo Atenas o grande epicentro da vida do filósofo.
Sócrates nasceu logo após as Guerras Médicas (contra os persas) e cresceu durante a “Época de Ouro” de Atenas. As decisões políticas eram tomadas diretamente pelos cidadãos na praça pública (a Ágora). Era nesse mesmo espaço que Sócrates passava o dia caminhando, questionando as pessoas e debatendo. Embora fosse uma democracia, o direito ao voto era exclusivo a homens livres, adultos e nascidos em Atenas. Mulheres, estrangeiros e a enorme população de escravizados não tinham direitos políticos.
A maior parte da vida adulta de Sócrates foi marcada pela Guerra do Peloponeso (431–404 a.C.), um conflito brutal entre grupos liderados por Atenas de um lado e por Esparta de outro. A guerra terminou com a derrota esmagadora de Atenas, o que gerou uma profunda crise de identidade, miséria e paranoia na cidade.
Após a derrota para Esparta, a democracia foi temporariamente derrubada e substituída por um governo oligárquico violento apoiado pelos espartanos, conhecido como a Tirania dos Trinta (404 a.C.) Esse governo perseguiu e executou opositores. Embora a democracia tenha sido restaurada um ano depois, a sociedade ateniense ficou traumatizada, desconfiada e intolerante a críticas internas, criando o ambiente que levou ao julgamento e à execução de Sócrates em 399 a.C. sob a acusação de “corromper a juventude” e “desprezar os deuses”.
Sócrates nunca escreveu sequer um texto. Ele acreditava que a filosofia deveria ser praticada viva, por meio do diálogo, e que a escrita engessava o pensamento. Platão, seu discípulo mais conhecido, escreveu a Alegoria da Caverna (O Mito da Caverna), uma das metáforas mais famosas da história da filosofia. Em rápidas palavras, imaginemos uma caverna subterrânea com uma entrada aberta à luz. Nela, prisioneiros vivem desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço. Eles não podem se mexer nem olhar para trás; tudo o que conseguem ver é a parede ao fundo da caverna. Atrás deles, há uma fogueira acesa. Entre os prisioneiros e o fogo, existe uma passarela por onde pessoas passam carregando estátuas de homens, animais e objetos cotidianos. A luz do fogo projeta as sombras dessas estátuas na parede do fundo. Como os prisioneiros nunca viram outra coisa, eles acreditam genuinamente que aquelas sombras são a única realidade existente. Certo dia, um dos prisioneiros é libertado. Ao se virar e caminhar em direção à saída, a luz do fogo e, posteriormente, a luz do Sol machucam seus olhos, pois ele nunca conheceu a claridade. Aos poucos, sua visão se adapta. Ele percebe que as sombras eram apenas cópias imperfeitas e descobre a beleza, as cores e a verdadeira essência do mundo exterior. Movido pela compaixão, o liberto resolve retornar à caverna para guiar seus antigos companheiros rumo à liberdade. No entanto, ao tentar explicar o que viu, os outros riem dele, chamam-no de louco e ameaçam matá-lo, preferindo o conforto e a segurança de suas ilusões conhecidas.
Estamos às portas de um novo tempo para a civilização mundial. A despeito das guerras em curso, que sempre existiram, o iminente surgimento de novos blocos econômicos e também a perspectiva da profunda e ainda desconhecida transformação que ocorrerá com a chegada da inteligência artificial generativa, nos remete ao pensamento trazido por Yuval Noah Harari no livro Nexus, uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial. A humanidade obtém seu imenso poder criando grandes redes de cooperação baseadas na informação, mas essas redes não são necessariamente projetadas para buscar a verdade, e sim para produzir ordem e, vale acrescentar, está chegando uma nova ordem.
Sócrates não tinha previdência privada, mas por meio dos “Diálogos de Platão” nos deixou um importante legado sobre como refletir acerca do tema; dentre outros, investigou a ética, a virtude, a justiça e como o ser humano deveria viver em sociedade. Ele preferiu se doar pagando o preço com a própria vida a trair seus princípios filosóficos e morais, tornando-se um símbolo da liberdade de consciência.
A educação e a conscientização previdenciária talvez sejam dois dos maiores dilemas da atualidade para governantes, entidades de classe e para você cidadão quando tratamos da longevidade e da sustentação do equilíbrio social nos próximos anos e décadas. Você já parou para avaliar como vai a estrutura e a saúde atuarial e financeira do seu plano de benefícios? Se estivesse vivo, eventualmente caminhando pelos centros financeiros do Brasil ou pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, talvez essa fosse uma das perguntas de Sócrates!
*Carlos Alberto de Paula é Diretor-Presidente da Prevdata
Fonte: Abrapp em Foco, em 08.10.2026