
A previdência complementar brasileira vive um momento de grande responsabilidade. Mais do que administrar reservas financeiras ou oferecer proteção para o futuro, somos chamados a contribuir para um dos maiores desafios nacionais: construir segurança econômica para uma população que vive mais, trabalha de formas cada vez mais diversas e demanda soluções compatíveis com as transformações da sociedade.
Essa missão exige visão de longo prazo.
O envelhecimento da população brasileira é uma realidade amplamente conhecida. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho passa por mudanças profundas, impulsionadas pela tecnologia, pelo empreendedorismo, pelo crescimento do trabalho autônomo e pelas novas formas de contratação. Nesse contexto, a previdência complementar precisa evoluir continuamente para permanecer relevante e ampliar sua contribuição para o desenvolvimento do país.
A boa notícia é que o Brasil dispõe de um sistema sólido.
As entidades fechadas de previdência complementar construíram, ao longo de décadas, um patrimônio institucional baseado em governança, gestão profissional, transparência e compromisso com os participantes, aposentados, pensionistas, patrocinadores e instituidores. Esse capital institucional representa um importante diferencial para enfrentar os desafios das próximas décadas.
Entretanto, não basta administrar bem o sistema existente.
Precisamos ampliar sua abrangência.
Os dados mostram que a maior concentração de participantes da previdência complementar fechada encontra-se entre 35 e 54 anos, faixa que reúne 56,3% do total. Trata-se do período de maior estabilidade profissional e capacidade de contribuição, quando o planejamento previdenciário naturalmente ganha maior espaço nas decisões financeiras das famílias.
Por outro lado, os participantes com até 34 anos representam apenas 27,8% da base. Esse dado merece atenção. Quanto mais cedo uma pessoa inicia sua formação previdenciária, menor tende a ser o esforço necessário para construir uma renda complementar consistente ao longo da vida.
Fortalecer a cultura previdenciária entre os jovens é, portanto, uma prioridade.
Isso passa por educação financeira, comunicação acessível e produtos adequados às características das novas gerações, que possuem trajetórias profissionais muito mais dinâmicas do que aquelas observadas há algumas décadas.
Outro desafio importante está relacionado às transformações do mercado de trabalho.
Cada vez mais brasileiros desenvolvem atividades como profissionais liberais, empreendedores, autônomos ou trabalhadores de plataformas digitais. Muitos permanecem fora dos modelos tradicionais de proteção previdenciária.
Esse cenário exige inovação.
Precisamos desenvolver mecanismos que permitam ampliar o acesso desses trabalhadores à previdência complementar, preservando a sustentabilidade do sistema e respeitando as diferentes formas de vínculo profissional que caracterizam a economia contemporânea.
Ao mesmo tempo, devemos continuar aperfeiçoando a experiência dos participantes.
A previdência complementar é uma relação de longo prazo baseada na confiança. Essa confiança se fortalece por meio da boa governança, da transparência nas informações, da qualidade da gestão dos investimentos e da proximidade com os participantes.
Nos últimos anos, o sistema brasileiro avançou significativamente nesses aspectos. Ainda assim, há espaço para evoluir continuamente, utilizando novas tecnologias, aprimorando processos e fortalecendo a comunicação com todos os públicos.
Outro aspecto relevante é compreender que a previdência complementar não deve ser vista apenas como um instrumento financeiro.
Ela representa um compromisso com a estabilidade das famílias, com a formação da poupança de longo prazo e com o desenvolvimento econômico nacional.
Os recursos administrados pelas entidades fechadas contribuem para financiar investimentos de longo prazo, fortalecer o mercado de capitais e apoiar projetos que geram crescimento e desenvolvimento para o país.
Por isso, ampliar a cobertura previdenciária significa beneficiar não apenas os participantes, mas toda a economia brasileira.
Também merece destaque o papel social desempenhado pelo sistema.
Os dados mostram que, entre os beneficiários de pensão, há predominância feminina, reflexo da maior expectativa de vida das mulheres e da própria estrutura das famílias brasileiras. Esse aspecto evidencia a importância da previdência complementar como instrumento de proteção social para milhares de famílias.
Ao mesmo tempo, a distribuição dos assistidos demonstra o amadurecimento natural do sistema, acompanhando a transição dos participantes para a aposentadoria.
O grande desafio das próximas décadas será conciliar esse amadurecimento com a expansão da base de participantes.
Precisamos crescer.
Precisamos alcançar novos públicos.
Precisamos construir uma cultura previdenciária que acompanhe as mudanças demográficas e as novas formas de trabalho.
Essa é uma agenda que exige atuação conjunta.
Entidades, patrocinadores, instituidores, órgãos reguladores, empresas e trabalhadores compartilham a responsabilidade de fortalecer um sistema que se tornou um dos pilares da proteção social de longo prazo no Brasil.
Na Abrapp, acreditamos que o futuro da previdência complementar passa pela expansão responsável, pela inovação permanente, pela excelência na gestão e pelo fortalecimento da confiança dos participantes, patrocinadores e instituidores.
Nosso compromisso continua sendo o mesmo: contribuir para que cada vez mais brasileiros possam construir segurança financeira, tranquilidade e qualidade de vida para o futuro.
Esse é um compromisso com os participantes.
Mas, acima de tudo, é um compromisso com o desenvolvimento sustentável do Brasil.
*Devanir Silva é Diretor-Presidente da Abrapp
Fonte: Abrapp em Foco, em 07.08.2026.