
Atualmente, o mundo dos investimentos está sendo afetado por grandes e rápidas mudanças estruturais – incluindo inovações tecnológicas disruptivas, tensões geopolíticas constantes e novos rearranjos econômicos. Esse movimento acontece em um momento em que os mercados são dominados por “robôs” que reagem tempestivamente a cada headline de notícias – muitas vezes sem separar o que é ruído de sinal – e onde narrativas ou teses têm sido cada vez mais breves: só em 2026, já vivenciamos a “desdolarização”, os ganhos de produtividade da inteligência artificial, a reversão dos ciclos de juros no mundo, temores fiscais em economias desenvolvidas – tudo ao mesmo tempo.
Sob a ótica local, o ano já se desenhava como de volatilidade, dado que historicamente as eleições cumprem esse papel. Assim, vemos um momento ainda mais desafiador do que o usual. Ainda estamos convivendo com o conflito no Irã, sob juros elevados, incerteza e prêmios que trazem oportunidades. Nesse ambiente, além do asset allocation e imunizações adequados, a flexibilidade e agilidade para ajustar rotas devem ser um diferencial à frente.
Desta forma, a gestão ativa se torna ainda mais relevante, alternando entre classes de ativos ou mesmo entre fatores de risco na renda fixa, e até mesmo geografias, ajustando duration das posições e atuando em ambas as direções, conforme o cenário indicar.
Acreditamos que o sucesso no próximo ciclo para o mundo dos investimentos dependerá da capacidade de interpretação ágil dos fatos, distinção entre ruído e sinal, atenção ao curto prazo sem perder a visão de longo prazo, da velocidade de ajustar as velas quando necessário. Uma gestão ativa e experiente, além de cumprir esse papel, deve entregar também um controle maior sobre volatilidade e limite de perdas, entre outros.
Esse processo de gestão ativa deve seguir em constante aprendizado e evolução, incorporando, em paralelo, os avanços tecnológicos, introduzindo análises quantitativas para o gerenciamento dos portfólios, porém, como instrumento complementar, mantendo a discricionariedade do gestor. Ferramentas de Machine Learning para antecipar os momentos de aversão a risco e tendência de temas são casos já utilizados.
A seguir, discorremos sobre alguns desses temas, como visões de curto e longo prazo, ruído e sinal, dando toques também sobre nossa perspectiva de cenário – cientes dos riscos que isso implica.
Um dos debates rotineiros, bastante pertinente, remete à visão de longo prazo, amplamente estudada e reconhecida como positiva para o retorno dos portfólios, mas que, em períodos de CDI elevado como o atual, é preterida. Nos últimos anos, em razão do patamar de juros, vimos o fluxo de recursos migrar consideravelmente de classes como multimercados ou ações para a renda fixa, em especial, para os títulos pós-fixados – soberanos ou de crédito. Essa segurança, de uma classe de baixa volatilidade e que atualmente apresenta retorno elevado – inclusive superior às metas atuariais das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPCs) – deve ser aproveitada, porém, com inteligência e sem perder a perspectiva mais ampla dos ciclos econômicos, sendo pragmáticos sobre os mesmos e aproveitando as assimetrias que surgem – dentro da renda fixa em títulos prefixados e NTN-Bs ou em bolsa.
Ao fazer uma retrospectiva dos últimos 10 anos, é possível resgatar que surfamos uma das melhores janelas da história do IMAB entre 2016 e 2019, vimos a “morte” da renda fixa em 2020, com a Selic atingindo a mínima histórica de 2%, e o renascimento e favoritismo da taxa básica de juros na sequência.
Ao revisitarmos isso e combinarmos com o cenário atual, onde os temores inflacionários e riscos fiscais são elevados e projetados continuamente adiante, identificamos assimetria favorável para gradualmente adicionar exposição em prefixados por exemplo – algo menos comum na composição das carteiras das EFPCs.
E a distinção entre ruído e sinal, que todo gestor e economista enfrenta diariamente, em um mundo em que a quantidade de informações é absurda, não se limita apenas a notícias ou tweets, mas também a dados econômicos que tiveram sazonalidade alterada desde a pandemia ou mesmo impactos que não respondem exatamente ao que livro-texto indicaria para certas medidas ou eventos – afinal, quem imaginava que as economias ao redor do mundo estariam com crescimento tão saudável, dados os níveis de juros atuais, ou mesmo que no estopim de uma guerra veríamos o ouro depreciar mais de 10% em dado momento?
Desse modo, a correta avaliação dos sinais é preponderante para a definição de macrotendências e a construção dos portfólios. Hoje, vemos o avanço e ganhos de produtividade da Inteligência Artificial como um caminho sem volta, com o debate centrado na velocidade e tamanho dos impactos. Entendemos que os riscos geopolíticos nos acompanharão nos próximos anos, reforçando a importância da diversificação e, assim, vemos espaço para o Brasil aproveitar essa janela. São apenas alguns dos exemplos de tendências que esporadicamente são testadas por ruídos de curto prazo.
Em suma, embora nos últimos anos tenhamos visto um avanço significativo dos fundos passivos, o mundo de investimentos e, em especial para EFPCs, tem diversas razões, algumas enumeradas aqui, para incluir nos portfólios parcela de gestão ativa, tanto na renda fixa como também na Bolsa.
Em crédito, frequentes eventos como Americanas, Raízen ou Braskem vêm reforçando a importância da seleção de ativos por gestores profissionais, bem como da pulverização de carteira como diferenciais, o que justifica, assim, a escolha pela gestão ativa – caminho que entendemos que deva ser aprofundado adiante, inclusive. Porém, hoje optamos por debater menos sobre crédito já que é um tema que está mais maduro nas entidades, e concentrar na importância da gestão ativa especialmente para navegar e alternar entre fatores de risco.
Ainda, após as EFPCs imunizarem parcela relevante de suas carteiras, aproveitando o patamar de juros reais de longo prazo superior a 7% – acima dos objetivos e do nível atingido em crises importantes, como a de 2015 – às mesmas encontram-se em situação mais favorável, com maior margem de segurança, para adicionar esse tipo de diversificação na construção de suas carteiras.
*Getúlio Ost é Superintendente de Renda Fixa e Multimercados da SulAmérica Investimentos
Fonte: Abrapp em Foco, em 22.05.2026.