
A relação dos jovens com a aposentadoria está mudando em várias partes do mundo. Um exemplo interessante vem da Finlândia. Pesquisa recente do Centro Finlandês de Pensões mostrou que 48% dos jovens adultos já estavam poupando para a aposentadoria em 2024, contra 32% em 2014.
Esse crescimento revela uma mudança cultural importante: os jovens estão mais conscientes de que a segurança financeira no futuro dependerá, cada vez mais, de decisões tomadas hoje. Curiosamente, essa mudança acontece ao mesmo tempo em que cresce entre eles a desconfiança sobre a capacidade dos sistemas de previdência garantirem renda adequada no futuro.
Ou seja: a dúvida sobre o sistema não levou à apatia, mas ao movimento de buscar alternativas e planejar o futuro.
No Brasil, a realidade ainda é bastante diferente.
Entre os jovens brasileiros, a cultura de poupar para o longo prazo ainda é frágil. Diversos fatores ajudam a explicar esse cenário: renda média baixa, informalidade no mercado de trabalho e a prioridade natural das despesas imediatas.
Mas há também dois elementos menos visíveis e igualmente relevantes: falta de informação e desconfiança.
Muitos jovens simplesmente não sabem como funciona a previdência complementar. Outros têm a percepção de que o tema é distante, complexo ou restrito a pessoas com renda elevada. Essa combinação cria um círculo vicioso: a falta de conhecimento alimenta a desconfiança, e a desconfiança afasta o interesse.
De certa forma, essa desconfiança também existe entre os jovens finlandeses. A diferença é que lá ela vem acompanhada de informação, debate público e educação financeira. Aqui, muitas vezes ela surge no vazio informacional.
Nesse contexto, a comunicação passa a ter um papel estratégico.
Não se trata apenas de divulgar produtos ou planos de previdência, mas de traduzir um tema complexo em algo compreensível e relevante para a vida das pessoas. É preciso mostrar que previdência complementar não é apenas um instrumento financeiro, mas uma ferramenta de autonomia, planejamento e segurança.
Os jovens de hoje se informam por canais diferentes, com linguagens próprias. Redes sociais, influenciadores, vídeos curtos e conteúdos educativos digitais são hoje parte central da formação de opinião dessa geração.
A experiência internacional mostra que quando conteúdos sobre poupança e investimento chegam a esses canais, o impacto pode ser significativo. Na Finlândia, por exemplo, especialistas apontam que a popularização de conteúdos sobre investimento nas redes sociais contribuiu para tornar o hábito de poupar parte do cotidiano dos jovens.
Uma iniciativa recente pode representar um passo importante nessa direção. O projeto apresentado pela deputada Any Ortiz, que propõe incluir o tema da previdência e do planejamento para o futuro nos currículos escolares, sinaliza uma mudança de perspectiva. Este projeto está na agenda parlamentar da Frente Parlamentar para o Fortalecimento da Previdência Complementar Fechada.
Inserir a previdência complementar no ambiente educacional significa formar cidadãos mais conscientes sobre o ciclo de vida financeiro, sobre a importância de poupar e sobre as diferentes formas de construir renda no futuro.
Trata-se de plantar uma semente cultural. Assim como aprendemos matemática ou história, compreender como funciona a proteção financeira ao longo da vida também deveria fazer parte da formação básica.
Criar uma cultura de poupança não acontece da noite para o dia. É um processo gradual, que envolve educação, informação e confiança institucional.
A experiência de países como a Finlândia mostra que mesmo em contextos de dúvida sobre o futuro dos sistemas previdenciários, os jovens podem se tornar mais ativos no planejamento de sua própria segurança financeira.
Para o Brasil, o desafio é ainda maior – mas também mais necessário.
Nesse cenário, comunicação, educação e políticas públicas precisam caminhar juntas para aproximar os jovens da previdência complementar e mostrar que planejar o futuro não é apenas uma escolha financeira, mas um passo fundamental para construir uma sociedade mais segura e sustentável.
*Devanir Silva é Diretor-Presidente da Abrapp
Fonte: Abrapp em Foco, em 12.03.2026.