
Nos últimos anos, as apostas deixaram de ser uma atividade de nicho para se transformar em um fenômeno de massa no Brasil. Elas estão presentes nas transmissões, nos uniformes dos clubes, nas redes sociais e no cotidiano de milhões de pessoas. Embora a velocidade dessa expansão chame atenção, é o impacto silencioso sobre a saúde financeira das famílias brasileiras que deveria ocupar o centro do debate.
O desafio é grande quando observamos que as bets se apoiam em uma lógica que contradiz princípios básicos da educação financeira. Enquanto o planejamento financeiro e previdenciário é construído com disciplina, regularidade e visão de longo prazo, as apostas são impulsionadas pela falsa expectativa do ganho rápido, gerando uma relação nada saudável com o dinheiro.
Dados apontam que, apenas em 2025, foram apostados cerca de R$ 270 bilhões, o equivalente a cerca de 2,1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Trata-se de um alto volume financeiro que circula em um modelo de negócio estruturado para gerar perda para quem o utiliza. Somado a isso, dados relacionados ao comportamento das pessoas chamam atenção igualmente.
O estudo Raio X do Investidor Brasileiro, conduzido pela ANBIMA, mostrou que 17% dos brasileiros realizaram apostas online em 2025, percentual superior ao observado no ano anterior. O levantamento também revelou que o gasto médio mensal dos apostadores alcançou R$ 195,15.
À primeira vista, o valor pode parecer modesto. Entretanto, quando observado sob a ótica da acumulação de longo prazo, o impacto é significativo. Um valor próximo de R$ 200 mensais direcionado de forma recorrente para previdência complementar, por exemplo, tem potencial para construir uma reserva relevante ao longo dos anos.
Quando esse mesmo recurso é destinado a apostas recorrentes, a tendência é exatamente oposta: reduz-se a capacidade de poupança e aumenta-se a exposição a riscos financeiros.
Outro aspecto que merece atenção é a falsa ilusão de retorno rápido. O estudo mostra que 77% dos brasileiros que não possuem educação financeira consideram as bets uma forma de investimento. Entre aqueles que possuem conhecimentos financeiros, esse percentual cai para 21%, mas que ainda é algo alarmante.
Os impactos já são percebidos no orçamento das famílias. Estudo realizado pela FIA Business School concluiu que as apostas se tornaram o principal fator associado ao endividamento das famílias brasileiras, superando variáveis tradicionalmente relacionadas às dificuldades financeiras, como juros e crédito.
Esses números ajudam a explicar por que o tema deixou de ser apenas uma preocupação financeira e passou a fazer parte das agendas de governança, ética e integridade das organizações. Um exemplo concreto disso foi a atualização da nossa Norma de Integridade, que passou a vedar o fomento, a promoção e a divulgação de apostas e jogos de azar, reforçando que essas práticas contrariam os princípios de educação financeira e de uso consciente dos recursos.
Como entidades de previdência complementar, conhecemos bem o valor do tempo na construção do bem-estar financeiro. Sabemos que patrimônio não nasce de decisões impulsivas, mas da combinação entre contribuição regular, disciplina e visão de futuro. Por isso, a expansão das apostas deve servir como um alerta para a sociedade.
Precisamos avançar e potencializar a educação financeira, ampliar a conscientização sobre os riscos associados às apostas e fortalecer a cultura do planejamento de longo prazo. Afinal, cada recurso direcionado à formação de reservas, à previdência e aos investimentos representa mais segurança para as famílias e mais estabilidade para o país.
No fim, a verdadeira aposta que vale a pena é aquela que fazemos em nosso próprio futuro.
*Edécio Brasil é Diretor-Presidente da Valia
Fonte: Abrapp em Foco, em 24.07.2026.