
Por anos, o mercado de renda fixa brasileiro operou em um paradoxo: era um dos mercados de dívida soberana mais sofisticados do mundo, mas ainda dependia fortemente de negociações por voz e execução manual de operações. Com novos mandatos regulatórios e incertezas políticas definindo o ambiente de mercado, isso está começando a mudar.
Uma mudança estrutural vem sendo construída desde que o Banco Central do Brasil e o Tesouro Nacional adotaram, em 2019, uma agenda focada em transparência para os mercados locais. Recentemente, foi introduzido um mandato com foco principal em tornar o mercado secundário de dívida soberana brasileira mais líquido e transparente. Esse movimento incentiva o maior uso de negociação eletrônica. A MarketAxess tornou-se uma das plataformas credenciadas para apoiar essa iniciativa, trazendo o mesmo fluxo de negociação eletrônica que transformou os mercados de crédito em Nova York e Londres, diretamente para o ecossistema local brasileiro. A medida vem surtindo efeito – a negociação de Títulos Públicos na MarketAxess cresceu 74% no primeiro trimestre de 2026, em comparação ao mesmo período de 2025.
Esse esforço é, em parte, uma resposta ao contexto macroeconômico e geopolítico global, que elevou a importância da liquidez e da qualidade de execução. À medida que os spreads se movem mais rapidamente e a volatilidade aumenta, a transparência na formação de preços torna-se ainda mais necessária, assim como a existência de uma trilha de auditoria clara. Nesse ambiente, plataformas eletrônicas oferecem não apenas eficiência, mas também maior controle das operações.
Como resultado, uma mudança comportamental mais ampla entre os participantes do mercado local começa a emergir. Clientes e dealers locais, que historicamente demoraram para migrar de métodos tradicionais de execução, estão adotando cada vez mais fluxos eletrônicos, acompanhando seus pares globais. A negociação eletrônica de títulos públicos no Brasil cresceu, indicando mudanças orgânicas no comportamento de negociação, e não apenas atividades impulsionadas por exigências regulatórias.
O mercado de renda fixa brasileiro está se alinhando cada vez mais à infraestrutura eletrônica e aos padrões de negociação já estabelecidos nos Estados Unidos e na Europa ao longo da última década. À medida que os participantes navegam em um ambiente mais volátil e interconectado, transparência, preços competitivos e agilidade tecnológica tornam-se requisitos fundamentais. A transição do Brasil para uma estrutura de mercado mais eletrônica é agora menos uma questão de direção e mais uma questão de ritmo.
*Maria E. Calderon-Salcedo é Head de Mercados Emergentes-LATAM na MarketAxess
Fonte: Abrapp em Foco, em 20.07.2026.