No ano em que a Anahp completa 25 anos, a abertura da Jornada Digital de abril colocou no centro do debate um tema cada vez mais presente na gestão em saúde. Trata-se de como liderar em um ambiente marcado por mudanças rápidas, pressão por resultado e aumento da complexidade operacional.
O primeiro encontro do ciclo dedicado a Lideranças e Talentos partiu da leitura de que a incerteza deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina das instituições. Nesse contexto, a liderança tradicional, baseada em previsibilidade e controle, perde espaço para um modelo mais adaptativo, capaz de lidar com ambiguidade e tomar decisões mesmo sem todas as respostas.
Ao longo da discussão, o foco deixou de ser apenas o impacto da tecnologia e passou a incorporar um elemento mais estrutural. O modelo mental das lideranças e sua capacidade de engajar pessoas, integrar informação e sustentar decisões em cenários instáveis.
Participaram do debate:
- Alex Vieira, CIO do Hcor
- José Henrique Salvador, CEO da Rede Mater Dei de Saúde
- Rogério Reis, VP de Hospitais da Rede Américas
- Moderação: Lorena Morelato, diretora de Gente e Gestão do Grupo Kora Saúde
Liderar passou a ser fazer perguntas
Em um ambiente com excesso de informação e transformação constante, o líder deixa de ser o detentor das respostas e passa a atuar como provocador.
“A liderança hoje não é mais responsável por dar respostas, mas por questionar se as melhores respostas estão sendo construídas” – Alex Vieira
Na prática, isso significa que, antes, a liderança definia e as equipes executavam. Hoje, a construção das soluções é mais distribuída, e o papel do líder passa a ser o de estimular pensamento crítico e validar caminhos.
Esse modelo exige líderes menos centralizadores e mais preparados para lidar com múltiplas áreas, diferentes perspectivas e decisões compartilhadas.
Volatilidade é o novo padrão
A instabilidade econômica, a pressão por custos e o avanço tecnológico criam um ambiente em que previsibilidade é cada vez mais limitada.
“Volatilidade não é mais um período. É a regra do momento” – José Henrique Salvador
Nesse contexto, a liderança precisa abandonar a busca por controle total e desenvolver capacidade de adaptação contínua. Isso inclui tomar decisões com informação incompleta, rever rotas com rapidez e manter o engajamento das equipes mesmo em cenários de incerteza.
Ao mesmo tempo, a volatilidade não elimina a necessidade de direção — ela exige ainda mais clareza sobre prioridades e propósito.
Tecnologia amplia capacidade, mas não resolve liderança
Embora a tecnologia esteja no centro das transformações, ela não é o principal desafio.
“O problema não é a falta de tecnologia. É o excesso, sem um modelo claro de uso” – Alex Vieira
O avanço tecnológico aumenta o volume de informação disponível, reduz barreiras de acesso e acelera processos. No entanto, sem integração entre pessoas, processos e tecnologia, esse potencial se perde. O diferencial está na capacidade de utilizar as ferramentas de forma estruturada — com pensamento crítico, leitura de dados e conexão com os objetivos da instituição.
Autonomia exige direção clara
Em cenários de alta velocidade, decisões não podem ficar concentradas na liderança — precisam acontecer na ponta. Ao mesmo tempo, autonomia sem direção pode gerar fragmentação.
“A boa liderança é aquela cuja mensagem continua sendo executada mesmo quando ela não está presente” – José Henrique Salvador
Para que isso aconteça, é necessário que as equipes tenham clareza sobre:
- prioridades institucionais
- impacto das decisões no todo da organização
- limites de atuação
O debate trouxe a ideia de “sandbox” organizacional — espaços com autonomia definida, nos quais as equipes podem decidir com segurança dentro de limites claros.
Confiança se torna ativo central da liderança
A construção de confiança apareceu como elemento estruturante para sustentar esse novo modelo de liderança.
A confiança se constrói a partir de três dimensões:
- lógica (clareza na comunicação e nas decisões)
- autenticidade (coerência entre discurso e prática)
- empatia (capacidade de entender o contexto das pessoas)
“Em cenários de pressão, sem confiança a autonomia não se sustenta e a tomada de decisão se fragiliza” – Rogério Reis
O maior risco é perder o propósito
Ao projetar os próximos anos, o debate trouxe um alerta importante: em ambientes de pressão e transformação constante, há o risco de as organizações se desconectarem do que é essencial.
“A gente precisa dar conforto para as lideranças viverem no desconforto — sem perder de vista aquilo que realmente importa” – Rogério Reis
No setor de saúde, esse ponto ganha ainda mais relevância. O propósito — cuidar — funciona como elemento de estabilidade em meio à volatilidade.
Sem essa referência, decisões passam a ser guiadas apenas por urgência ou pressão, o que pode comprometer a qualidade assistencial.
Conclusão: liderança passa a ser capacidade de adaptação
O debate reforçou que liderança, no contexto atual, não está mais associada à previsibilidade ou ao controle, mas à capacidade de adaptação.
Liderar passa a significar:
- tomar decisões com informação incompleta
- engajar equipes em cenários incertos
- integrar pessoas, processos e tecnologia
- sustentar direção mesmo com mudanças constantes
Ao abrir a Jornada Digital de abril, no ano em que completa 25 anos, a Anahp coloca a liderança no centro da discussão sobre o futuro da gestão hospitalar. E demonstra a importância de formar líderes capazes de conduzir o setor com consistência, clareza e capacidade de adaptação.
Assista AQUI ao evento na íntegra
Fonte: Anahp, em 06.04.2026