
Foi realizado nesta quarta-feira, 27 de maio, Webinar promovido pela Sulamérica Investimentos sobre oportunidades, Desafios e o novo normal no cenário das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC). Marcelo Mello, Vice-Presidente de Investimentos, Vida e Previdência da Sulamérica, abriu o evento e destacou que esse é uma série de webinars que a sulamérica está promovendo semanalmente para se aproximar do público diante da crise do novo coronavírus (COVID-19). "Temos relacionamento com mais de 200 fundações, e boa parte do patrimônio que administramos vem do segmento institucional", disse.
Ele ressaltou o ritmo de crescimento das fundações que vinha sendo registrado até a situação inusitada do novo coronavírus, que afetou todos os setores. "No caso das entidades fechadas, temos alguns pontos relevantes. O primeiro são as patrocinadoras. Há uma crise de demanda que afeta capital de giro e caixa das empresas, e do lado do participante, há uma tensão que começa pela perspectiva de redução de salário e de carga de trabalho. Medidas como suspensão de contribuições, ampliação de empréstimos, e discussões sobre equacionamento de déficit estão em pauta", ressaltou Mello.
Em seguida, ele questionou sobre a agenda estratégica e a agenda tática, de mais curto prazo, do sistema, ponto que foi abordado pelo Diretor Presidente da Abrapp, Luis Ricardo Marcondes Martins. Ele destacou que o sistema de previdência complementar fechado está absorvendo bem a carga da pandemia. "Vínhamos num momento de ousadia, disrupção, com novas relações do trabalho, novo nativo tecnológico, e já falávamos disso antes. A crise antecipou desafios que estavam postos no nosso sistema em uma agenda estratégica de fomento, crescimento e reinvenção".
Medidas emergenciais – Luis Ricardo reiterou que a crise pegou o sistema no seu melhor momento, em uma visão de retomada do crescimento do Brasil, com a reforma da previdência aprovada, controle da inflação, e juros baixos. "No fechamento de 2019 tínhamos R$ 10 bilhões de superávit. A conjuntura e as oscilações são normais do perfil do segmento, mas o sistema estava 100% solvente. O longo prazo nos ajuda muito também", destacou. Ele falou ainda sobre maior conscientização da população sobre a longevidade, e que agora há uma busca maior por proteção social.
Em seguida, ele citou reunião do Conselho Nacional de Previdência Complementar (CNPC) realizada com aprovação de um planejamento estratégico que seguiu o planejamento da própria Abrapp. "Vínhamos num momento ímpar para o sistema, que foi provisoriamente interrompido pelas medidas emergenciais a partir de março". Luis Ricardo mencionou ações discutidas em termos emergenciais após o estouro da crise, como suspensão de contribuições ordinárias em planos de Contribuição Definida (CD) e Contribuição Variável (CV) em fase de acumulação, resgate parcial, entre outras. "A Abrapp fez rapidamente um longo estudo mostrando que o sistema possui liquidez e solvência para dar encaminhamento a essas medidas, e cada entidade poderia ou não adotá-las de acordo com seu perfil. Mas medidas não foram aprovadas e ainda estão em monitoramento", complementou.
Em relação aos resgates, Luis Ricardo comentou que não houve crescimento diante da crise, e que ainda estão na média do registrado nos últimos anos. "Isso mostra a conscientização com a proteção social. Existe uma disseminação da educação previdenciária e financeira, o que demonstra um grau de maturidade dos participantes, que querem um produto de longo prazo para ter uma renda qualificada na inatividade", destacou. Ele citou ainda a discussão acerca da norma de equacionamento de déficit, a Resolução CNPC nº 30, que está sendo avaliada internamente por especialistas no âmbito da Abrapp, para depois entrar em discussão no CNPC.
Retomada da agenda estratégica – Enquanto as discussões sobre medidas emergenciais ainda passam por avaliação das instâncias reguladoras, a Abrapp acredita ser o momento de retomar a agenda de fomento. "Precisamos voltar para o incremento dos planos família. Estamos nesse momento de conscientização, como me referi, e precisamos falar sobre incentivos tributários para poupança de longo prazo. O segmento viveu muitas outras crises e superou outras, e as oscilações conjunturais são contábeis, e não financeiras, e essa conjuntura vai passar", ressaltou Luis Ricardo.
Ele disse ainda que o sistema está na pauta do governo e tem condições de exercer seu protagonismo, por ser um veículo de poupança de longo prazo, e ajudar na economia, por ser um investidor institucional. "Reitero que agenda estratégica precisa ser retomada", complementou.
Participantes e colaboradores – Em termos de medidas de contingência para passar pela crise, Carlos Alberto Moreira, Presidente da Sistel, falou sobre o cuidado com as pessoas e ações tomadas pela entidade em meio à pandemia, não somente em relação aos colaboradores, mas como todo o ecossistema ao redor da fundação. "A pandemia nos trouxe a situação de colocar o foco no curto prazo. No caso da Sistel, 90% dos participantes são aposentados. Estamos experimentando aquilo que um fundo de pensão, na sua criação, tem como objetivo".
Segundo ele, o processo de home office já estava instaurado na Sistel há dois anos, mas foi acelerado pela pandemia, colocando 100% dos colaboradores em trabalho remoto em poucos dias. "Uma coisa é quando você adere a um programa de home office e outra é quando compulsoriamente é colocado nessa situação. Temos um comitê de crise que trabalha diariamente para ver o que ocorre com nossos colaboradores. Mas como já tínhamos um protocolo de home office pronto, isso ajuda muito. Também demos uma ajuda de custo para todos para trabalharem de forma confortável", disse Carlos Alberto.
A entidade ainda promove reuniões frequentes com colaboradores e suas áreas para medir a sensibilidade, questão emocional e foco, ajudando no engajamento. Carlos Alberto falou ainda sobre a questão da saúde e medidas de desburocratização e fornecimento de informações sobre a COVID-19 e outras comorbidades dos participantes. "Nós, que temos foco no médio e longo prazo, conseguimos trabalhar no curto prazo quando chamados. Comunicação tem sido um diferencial para os participantes da entidade", complementou.
Investimentos – Marcelo Vagner, Diretor de Investimentos da Previ, falou sobre os desafios no lado dos investimentos. "Essa crise é exógena, fora da economia, sem precedentes, e temos que lidar com isso. Na Previ, encaramos a questão da crise como três atos: pessoas e saúde; reposta econômica de curto prazo, que é dividida em resposta monetária e fiscal; e a retomada da agenda". Segundo ele, esses atos são o pano de fundo para identificar perigos e oportunidades.
Wagner ressaltou que apesar da Previ ter registrado uma variação contábil negativa, diante de uma crise secular, a diversificação das carteiras minimizou esse impacto. "O investidor institucional é o mais preparado para esse momento, se tiver liquidez para passar pelo pior da crise. Nós fizemos cenários de estresse, zerando o recebimento de dividendo e aluguéis, e conseguimos passar pelo túnel da crise sem ter que vender nenhum ativo até o segundo semestre de 2021". Wagner disse ainda que o segundo ponto que faz com que o investidor institucional esteja preparado para crise é o que foi feito antes, na montagem de portfólio. "Temos que monitorar diariamente o que tem sido feito".
Em relação às oportunidades, Wagner ressaltou que há oportunidades de aquisição na ponta pré-fixada para planos CD e CV. "Multimercado, para quem opera volatilidade, tem oportunidades. Deve estar no radar com cuidado, pois o que mais importa é a consistência do gestor e da estratégia, que deve ser baseada em risco. Na Previ, não temos movimentos bruscos, e sim pontuais, e é preciso ter uma cabeça estratégica na escolha de classe de ativos". Ele ressaltou que o Brasil tem o menor índice de alocação offshore, ou seja, fora do país. "É preciso olhar com atenção as oportunidades fora do país". Wagner mencionou ainda a importância dos investimentos focados em princípios ambientais, sociais e de governança (ESG). "Os institucionais devem se unir e dar uma resposta para esse tema, que não tem volta".
Mercado de capitais – Rodrigo Sisnandes Pereira, Diretor Presidente da Fundação Família Previdência, ressaltou que a entidade tem uma estratégia de não adoção de perfis de investimento para ter uma entrega mais vantajosa ao participante, o que leva a entidade a ter uma alocação maior em renda variável. "Temos três fundos exclusivos de gestão de ações, e estamos estruturando mais um. Nesse momento de crise, no mês de março principalmente, tivemos impacto negativo nessa carteira de ações, mas nossa ideia é manter a estratégia. Estamos apenas fazendo mudanças pequenas de segmentos, e na medida do possível, aumentando essa alocação, mas ainda com muita cautela, pois os cenários não estão claros para o futuro", disse.
Ele ressaltou que renda variável terá uma dificuldade para recuperação, mas não há dúvidas que bons ativos bem selecionados geram retorno no horizonte de longo prazo. "No momento de impacto nas carteiras, é preciso reforçar a comunicação com o participante. Temos planos instituídos, patrocinados, administramos 12 planos, e adotamos uma transparência com os participantes onde eles podem acompanhar a cota dos investimentos diariamente. Agora, no momento de crise, é preciso ter uma comunicação assertiva no sentido de informar para que ele entenda que a fotografia do momento não significa prejuízo, e pode virar prejuízo apenas se ele resgatar o recurso do plano", complementou.
Outra medida adotada pela entidade foi em relação à ampliação de empréstimos. "Como resgatar seria realizar o prejuízo, criamos outras alternativas para quem precisa de recursos. Tivemos êxito considerável, não tivemos elevação em resgates, e a crise também salta aos olhos de todo mundo, por isso é mais fácil explicar o que está acontecendo", disse Sisnandes, destacando que a entidade não possui problema de liquidez, mas agora o momento de cautela. "Há ativos atrativos, estamos aumentando alocação neles para cumprir nosso objetivo de longo prazo. E seguimos com uma comunicação sobre a questão de investimento, bolsa, e oscilação de mercado para tranquilizar o participante".
Exterior – Na Sistel, até 2018, não se falava ainda em investimento no exterior, especialmente pela característica de maior maturidade dos planos. "A partir de 2019 começamos o processo de investimento no exterior em outros planos. Mas infelizmente, em função da situação que estamos entrando, deu uma paralisada", disse Carlos Alberto. Segundo ele, contou, aplicações offshore é uma tendência que não tem volta. "Estamos enfrentando taxas de juros baixas em todos os lugares, e começando a amadurecer a conscientização dos gestores e dirigentes de fundo de pensão para o exterior", disse.
Rodrigo Sisnandes destacou que há uma questão cultural sobre esse tipo de investimento, que está mudando. "Na Família Previdência, está sendo trabalhada uma diversificação fora do país, e agora há um caminho de ampliação". Luis Ricardo reiterou que está em debate uma revisão da Resolução CMN nº 4661 com pleito de ampliar o limite no exterior, entre outros temas, como ampliação de empréstimos e revisão das regras de imóveis. "Na questão de investimentos no exterior, ainda há um percentual pequeno alocado, mas pontualmente algumas entidades ampliaram e acabaram batendo no teto do limite. Existe um pleito para buscar ampliação. No caso de imóveis, estamos discutindo a preservação do estoque para quem tem investimentos diretos e, daqui pra frente, alocar em fundos", complementou.
Fonte: Abrapp em Foco, em 27.05.2020