Por Antonio Penteado Mendonça
Ao contrário das demais atividades econômicas, o setor de seguros ganha competitividade com a inflação mais alta. É que, na composição dos recursos da seguradora para fazer frente aos sinistros e demais despesas, entram o prêmio e o resultado do investimento deste dinheiro no mercado financeiro. Com a inflação mais alta, a remuneração do capital, tradicionalmente, no Brasil, também tem sido mais alta, o que permite que as seguradoras melhorem seus resultados, com duas consequências importantes, a saber, maior lucratividade e possibilidade da redução do prêmio, aumentando sua agressividade comercial, sem prejudicar o resultado final da companhia.
A conta para apurar o resultado de uma seguradora é a seguinte: prêmio, menos despesas administrativas e comerciais, resseguros e impostos, mais a remuneração do capital investido. Em princípio, no caso da apuração do resultado puro, o chamado lucro industrial, se o resultado for igual ou menor do que 100 a seguradora estará ganhando dinheiro. Se for acima de 100, estará perdendo dinheiro. É aí que o resultado da aplicação no mercado financeiro faz a diferença. Com a rentabilidade dos títulos públicos na casa dos 14% por ano, ainda que a seguradora tenha um resultado industrial de 110, ela estará ganhando dinheiro, porque os 14% da remuneração dos prêmios investidos serão somados aos prêmios, resultando num resultado operacional de 4%.
A inflação brasileira está em queda acentuada, tendo quem já fale em menos de 5% no final do ano. É um número impressionante, especialmente se pensarmos que até o ano passado a tendência era outra, com a inflação tendo chegado na casa dos 10% num determinado período.
Ora, se é verdade que a inflação está caindo e o setor de seguros lucra com a inflação alta, qual a lógica deste cenário ser bom para o setor de seguros? A resposta é menos complexa do que parece. Em primeiro lugar, a inflação baixa incentiva a retomada do crescimento econômico, interrompendo a recessão que nos assolou nos últimos 3 anos. Economia aquecida demanda novos seguros para garantir novos riscos decorrentes da aceleração do desenvolvimento. São novos seguros de pessoas, planos de saúde privados, previdência complementar; são novas empresas que entram no mercado e as antigas que expandem sua capacidade de produção; são novos empregos, novos postos de trabalho, novos serviços; e são novos empreendimentos, desenvolvimento da indústria da construção, da indústria automobilística, da linha branca, etc.
Cada uma destas melhoras demanda e gera seguros de todos os tipos. Seguros que estavam andando de lado e que, com a queda da inflação, voltam a ter espaço para crescer, ainda que, num primeiro momento, em ritmo lento.
Além disso, a queda da inflação se dará de forma mais rápida do que a queda dos juros, o que, consequentemente, manterá o resultado das aplicações em patamares interessantes e suficientes para as seguradoras se valerem dele para compensar um eventual resultado industrial negativo.
É o célebre ganha/ganha. Ganha o país, porque volta a ter rumo na política econômica. Ganha a sociedade, que para de ter parte importante de sua renda devorada pela inflação. Ganha o trabalhador, que volta a ter possibilidade de encontrar trabalho. Ganha a indústria, o comércio e os serviços em geral, beneficiados pelo aumento da demanda. Ganha a Receita, que volta a receber impostos; enfim, ganham todos e, entre eles, ganham as seguradoras, porque se, de um lado, perdem o resultado da alta remuneração do capital, ganham de outro, com o aquecimento do mercado, somado a um resultado financeiro ainda interessante porque bem acima da inflação.
Como se isso não bastasse, é sempre bom se ter claro que a maior inimiga do setor de seguros é a inflação. Num processo inflacionário é impossível se criar poupança e sem poupança não é viável o desenvolvimento do seguro. Quer dizer, além de tudo, a inflação baixa incentiva a sociedade a contratar seguros para proteger seu patrimônio e sua capacidade de ação.
Fonte: SindSegSP, em 03.03.2017.